Lembrem-se do nome: João Felix, no The Players Tribune

“Cinco dias por semana, durante seis anos, entre os sete e os 13 anos, a minha mãe e o meu pai levaram-me de Viseu para o Porto.

Foi uma caminhada.

Ida e volta, cerca de 240 km. Todo dia. O FC Porto era onde eu iria perseguir meus sonhos de ser um jogador de futebol profissional. Ao fim de seis anos, tinha feito aquela viagem tantas vezes que tinha todas as voltas, colisões e semáforos memorizados. Quando eu fiz 13 anos, nós fizemos uma vez mais a viagem… e desta vez não haveria volta – pelo menos não tão cedo.

Eu estava a mudar-me para lá para me juntar ao FC Porto a tempo inteiro.

Lembro-me de sair do carro, e de segurar a mão do meu pai e caminhar até a sala onde iria morar com um grupo de outros jovens jogadores.

Sentámo-nos no quarto – e chorei compulsivamente.

Eu disse: “Pai… Pai, eu não quero ficar, quero ir para casa. Eu não posso fazer isto.”

Eu acho que meu pai sabia o peso da decisão que tínhamos que tomar. Ele olhou ao redor da sala, respirou fundo e olhou-me nos olhos.

“O.K., mas ficas esta noite…”, disse ele. “E se te sentires da mesma forma amanhã, ou no dia seguinte, ou no dia seguinte, podes ligar-me e eu irei te buscar. Levo-te para casa, mas não te vou trazer de volta nunca mais. Isso vai ser isso…

Ele tinha um tom na voz que eu não conhecia. Isto era sério e importava. Fez-se um click quando ele me disse essas palavras… como um momento de clareza – eu precisava estar ali. Por mais que tivesse medo do que estava por vir, era necessário.

No futebol juvenil, tu precisas crescer rápido.

Ia sentir falta de jogar futebol com o meu irmão na cozinha da nossa casa em Viseu. Isso era o melhor… Na nossa sala, nós provavelmente tínhamos – e eu não estou a mentir aqui – 15 bolas de futebol espalhadas por aí. Tu vês, a bola … ela é preciosa. Ela é um presente. Um presente para ti, um presente para mim.

Os Meus pais têm esta frase sobre mim: “Quando João era bebé, ele conseguia conduzir uma bola de futebol antes de poder andar”.

Não é verdade, claro. Mas, é verdade … sabes?

Eu sempre tive a bola nos meus pés. Sempre. Sempre. Sempre. E se eu fosse passar para ti, bem, eu tinha que confiar em ti, certo? Quer dizer, essa é a minha bola, eu não sei o que tu vais fazer com ela. Tu poderias simplesmente doar ou algo assim, eu não iria permitir isso!

Eu confio no meu irmão e passei muito a bola pra ele. Passes rápidos, um-dois, as coisas boas. O lindo jogo, isso tudo…

Quando cresci como homem e como jogador, percebi que adorava ter a bola e jogar futebol… maravilhoso e feliz. É quando estou no meu melhor, é quando sou eu. Mas quando joguei nas equipas jovens do Porto, isso nem sempre acontecia. Eles não acreditavam em mim tanto quanto eu acreditava em mim. Eles não confiavam em mim no campo… criticavam pelo meu tamanho. Tiraram-me do campo, levaram a minha bola. No Porto perdi a minha alegria…

As pessoas me perguntam muito sobre isso, especialmente porque agora estou no Benfica.

Em Lisboa, encontrei a minha alegria novamente. Demorou algum tempo, alguma confiança. Eu tive que me provar nas equipas de jovens novamente. Mas o Benfica joga um belo estilo de futebol – eles acreditam no todo, na formação, na ideia da equipa antes do individual.

Quando jogava pelo Benfica B no início de 2017, um dos meus primeiros jogos foi contra o Académico de Viseu, na minha cidade natal. Fiz um golo e tornei-me o jogador mais jovem a marcar na segunda divisão. Para mim, marcar no Estádio do Fontelo – a poucos minutos de onde cresci, com a minha família no meio da multidão – foi muito especial. E eu senti que jogar pelo Benfica estava a começar a valer todas as estradas que eu tinha viajado para chegar lá.

Um ano depois, em agosto passado, eu estava já a jogar pela primeira equipa no Derby de Lisboa. Benfica vs Sporting. Lembro-me de entrar em campo para o aquecimento – foi o meu primeiro jogo em casa no campeonato lá – sentia-me embalado. Mais de 60.000 pessoas no Estádio da Luz, a cantar e aplaudir enquanto nos aquecemos. Tentei encontrar os meus pais no meio da multidão. Eu mal podia vê-los. Eu não entrei de início. Mas mesmo estando no banco, não me deixei olhar para ver a multidão.

No segundo tempo, estávamos a perder por 1 a 0 e entrei. O barulho … a tensão, foi imenso. Com cinco minutos para terminar, estávamos a pressionar muito. Não sou um goleador, mas estava chegar. Aos 86 minutos, Rafa Silva, um dos nossos extremos, fez uma boa jogada pela direita e tentou cruzar. Eu estava no segundo poste… tipo, Rafa, confia em mim, confia em mim. Mete em mim.

Ele meteu uma grande bola, e eu fiz a parte fácil.

Eu mal lembro o que aconteceu depois. Lembro-me do locutor do estádio ao microfone a gritar: “Golo marcado pelo número 79, João …”. Depois houve uma pausa e o estádio inteiro gritou “FELIX!”

Momento mais feliz de toda a minha vida, com certeza.

O Benfica confiou em mim e espero continuar a retribuir essa confiança. Agora o meu irmão joga pelo Benfica também. Ele é cinco anos mais novo que eu. E eu juro-te , quando nós vamos para casa no Natal, nós ainda jogamos à bola ao redor da cozinha, nós ainda inundamos a sala de estar com bolas de futebol!
As pessoas dizem que ele é melhor do que eu na idade dele. Não tenho certeza sobre isso. 😉
Mas posso dizer uma coisa: confio nele o suficiente para lhe passar.
E é disso que se trata.”

RETIRADO DO “THE PLAYERS TRIBUNE” AQUI

2 Comentários

  1. um pré destinado sem dúvida….uma classe um toque de bola, as movimentações… não engana….bom enganaram-se no Porto e ainda bem.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.


*