A estratégia dos pés trocados que marcou o derby, e o menino João, a quem só faltou piscar o olho a Queiroz, 25 anos depois

Sobre o derby de ontem muito se falou sobre o apagamento do Sporting de Keizer porque trocou um modelo próprio por estratégia pura. Nada mais errado! 

Ou seja, defende-se que o derby ficou portanto marcado, não pela incapacidade leonina, não pelos seus maus comportamentos tácticos, mas pela estratégia que não resultou.

Já iremos decompor a estratégia dos pés trocados que marcou o derby, mas antes fique a saber que o problema do Sporting de Marcel Keizer, é para lá da má autoria (já o era mesmo quando venceu confortavelmente Aves e Nacional, em jogos que foi dominado durante grande parte do tempo, mesmo em Alvalade!), o desconhecimento da realidade portuguesa, e o quanto isso condiciona precisamente o treinador com as suas (inexistentes) estratégias. Sobre o conhecimento que terá do jogo, só quem com Keizer priva poderá opinar, embora se saiba que… Ninguém garante que o holandês não poderá vir a ser um caso de sucesso, mas para tal precisa de liderar o Sporting por vários anos, para que também ele próprio cresça no exercício das suas funções.

Mas afirmou-se que o problema leonino foi o seu treinador ter passado da autoria para a estratégia (engraçado, como tantas pessoas ainda têm dificuldade em perceber que a estratégia é inserida no modelo, e não lhe é antagónica, e o quão é mais comportamentos específicos, e não coisas gerais como o defender alto ou baixo. Mas, para se saber isso, é necessário perceber a dinâmica de um jogo de futebol, que é substancialmente mais complexa que os blocos baixos ou médios…).

Vamos então ver a magnífica estratégia.

Olhando para a partida, poderemos concluir que não foi uma má identidade, nem maus comportamentos. Mas, antes a estratégia errada. A estratégia a avaliar pelo que se passou em campo, passava por ter os defesas orientados com os apoios para o lado contrário daquele em que realmente deveriam estar, para que assim se atrasassem e não conseguissem acompanhar as investidas dos seus adversários. Quem sabe, esperando que os encarnados falhassem os lances em que aparecessem isolados perante Renan, para então beneficiar de ter André Pinto e Coates já mais à frente para progridem…

É uma estratégia muito comum de encontrar em equipas que disputam os campeonatos distritais. Quem diria que traria problemas num derby…

Vamos ver então a origem de vários dos remates / oportunidades do Benfica: 

O jogo continua a evoluir a uma velocidade supersónica, e é cada vez mais importante que quem é pago para dele falar, tente acompanhar esta evolução, e não se apegue a fretes e a banais chavões, sem qualquer fundamento com a realidade.

Num só jogo, o Sporting sofreu os mesmos golos em Alvalade que em toda uma temporada, se nos reportarmos ao ano transacto. E podia ter sido bem pior. Não foi estratégia, foi má identidade. E o trabalho outrora de excelência no pormenor em Alcochete, morreu.

Sobre a importância da boa “arte defensiva individual”, fica um post em que usei Bonucci para explicar:

  • Como colocar os apoios, e quando variar posição corporal (da bola ao pé do portador);
  • Quando baixar o centro de gravidade;
  • Acompanhar o movimento individual;
  • Soltar [deixar ir] o movimento individual;
  • Trocar cobertura por protecção da baliza;
  • Visualizar tudo a cada instante.

Mas, Alvalade não presenciou apenas uma má equipa em campo. Para lá do muito Benfica, vinte e cinco anos depois, um menino João fez suspirar de paixão os amantes do bom futebol. Faltou o piscar de olho a Queiroz. Apenas isso.

Paolo Maldini
Sobre Paolo Maldini 3472 artigos
Criador do "Lateral Esquerdo", tendo sido como Treinador Principal, Campeão Nacional Português (2x), vencedor da Taça de Portugal (2x), e da Supertaça de Futebol Feminino, em três anos de futebol feminino. Treinador vencedor do Galardão de Mérito José Maria Pedroto - Treinador do ano para a ANTF (Associação Nacional de Treinadores de Futebol), e nomeado para as Quinas de Ouro (Prémio da Federação Portuguesa de Futebol), como melhor Treinador português no Futebol Feminino. Experiência como Professor de Futebol no Estádio Universitário de Lisboa, palestrante em diversas Universidades de Desporto, e entidades creditadas pelo Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ). Autor do livro "Construir uma Equipa Campeã" da PrimeBooks. Analista de futebol na TV e no Jornal Record.

23 Comentários

  1. Por falar em apoios, independentemente da abordagem tenrinha do Samaris no primeiro golo do Sporting, fiquei com a impressão de que o Jardel também meteu os pés pelas mãos no que diz respeito aos apoios. Estarei a ver mal?

    • Alvaro, os apoios tão correctos, prontos para sair à profundidade… a cena é que ele podia ter percebido q o Dost n é ameaça e deixava-o para o Ruben, e preocupava-se mais cedo com o BF… qd largou o movimento do Dost (q era o correcto… apenas o Dost tem caracteristicas q podiam ter feito o Jardel larga-lo mais cedo), já foi tarde para ir ao Bruno

  2. Eish Félix, Félix, Félix… Aqui em casa já sabem, quando ele marca solto eu grito “é ouro, é ouro, é ouroooo”! Rico menino 😀

  3. Sinceramente, já sentia falta de estes textos a matar, que foram outrora apanágio do LE

    depois vivemos um momento em que todos copiaram o LE … basta ver que o que se ouve hoje na TV, Jornais ou até em blogs (uns melhores outros piores) é tudo o q o LE iniciou há 10 anos (ainda vos sigo desde o blogspot, mas não há tantos anos).. e de repente, gajos tipo esse, começaram a querer cuspir em quem os fez parecer espertos (E nem o são, basta estar atento). Por isso, venham mais a desmascarar os fracos conhecimentos de quem anda ai a ganhar dinheiro à volta do futebol…

    de resto, parabéns… está brilhante, sobretudo a aula sobre os “pés” – Espero que a estrutura Sporting possa ler e ver isto… e não jornais e outras coisitas sem sumo

  4. Excelente análise como sempre. Apenas acrescentaria também a abordagem dos centrais do SCP ás bolas aéreas que eram despachadas pelo Benfica, que quase sempre deixavam a bola bater no chao em vez de atacar logo a bola antes de bater na relva, dando tempo assim para a equipa do Benfica subir as linhas e acertar posições, e também deixar a equipa do scp nervosa sempre que isso acontecia.

  5. Parabéns pelo texto. Penso que se esperava uma queda de produção da equipa de Keizer, mas não tão grande. Algo que notei no primeiro golo do Sporting, foi a atitude de Grimaldo, completamente passivo.

  6. Texto imperdible, para guardar y aprender!

    Fantastico como se explica la importancia de la orientacion corporal, en los pequeños detalles es donde esta el secreto de un gran jugador. Tengo la sensacion de que hoy en dia, en la mayoria de escuelas, este tipo de cosas no se enseñan, tecnica defensiva, percibir cuando presionar, aguantar, replegar… Se trabaja en base a la tactica colectiva, pero no se atiende tanto a la individual, sobre todo en defensa.

    Saludos!

  7. “engraçado, como tantas pessoas ainda têm dificuldade em perceber que a estratégia é inserida no modelo, e não lhe é antagónica, e o quão é mais comportamentos específicos, e não coisas gerais como o defender alto ou baixo. Mas, para se saber isso, é necessário perceber a dinâmica de um jogo de futebol, que é substancialmente mais complexa que os blocos baixos ou médios…”

    Até que enfim! E confirmo esta afirmaçao mil vezes, e assino em baixo!

    As estrategias estao impregnados a cada momento do jogo e é por causa disso que eu distingo três estrategias:
    A estrategia defensiva que é a equipa nao tem a bola.
    A estrategia ofensiva que é quando a minha equipa tem a bola, dentro do meu modelo.
    A estrategia global que é o espirito do meu jogar; por exemplo as situaçoes que vou preferir e provocar, seja em posse ou mais em contra ataque ( para perceber, pensar no Guardiola vs Simeone)

    • A estrategia mais dificil de entender é a estrategia ofensiva porque a estrategia é fazer quando nao temos a bola…..mas a forma de pensar o meu modelo e as dinamicas de jogo vao ter três reflexoes que definem três estrategicas:

      1/ A primeira estrategia mete a nu as fraquezas do adversario. Quais as fraquezas do meu adversario, como conciliar o meu modelo nestas fraquezas ou entao mudar o meu modelo? Por exemplo, se os centrais adversos defendem mal a profundidade, a minha dinamica vai ser pelo centro; ou se o meu adversario, defende com muitos o espaço central, vou tentar variar mais o jogo pela ala contraria; pode ser também aproveitar a fraqueza dum jogador adverso como um lateral adverso lento ou com pouca arte com bola que vou pressionar mais. Claro, aqui todos os pormenores sao importantes, daqueles que se vêem e outros mais invisiveis.

      2/ Eu diria que aqui a estrategia ofensiva é a adaptaçao à estrategia defensiva do adversario. Como manter a minha posse o mais tempo possivél consoante o adversario? por exemplo, o meu adversario joga na pressao, a minha abertura tem que ser diferente e aproveitar o mais depressa possivél o espaço vazio que o adversario deixa atràs. Hà aqui muitos exemplos mas ao contràrio da primeira estrategia que coage o adversario, eu aqui tenho que adaptar-me ao que me impoe o meu adversario.

      3/ A ultima estrategia ofensiva é aquela que pensa no que se segue, e como posicionar a minha equipa no modelar do jogo para que depois da perda da bola nao haja o desequilibrio para o meu adversario aproveitar. Nao se pode confundir com o que vocês aqui chamam a transiçao defensiva mas eu diria à preparaçao dessa. Porque nao se pode defender o contra ataque do adversario se eu arrisco o desposicionamento no meu modelo. Basta aqui pensar no Keizer!

      Como se vê, a estrategia é capital e nao se pode pensar que o que interessa é somente a defensiva porque como bem dito aqui a estrategia (ofensiva) està inserido no modelo e vice versa.

      • E para aqueles que nao entendem a estrategia global que ao meu ver é a mais importante porque ela é a raiz, vou tentar explicitar um pouco mais.
        Essa estrategia global é a filosofia de jogo do treinador. E tambem a sua identidade na qual os seus jogadores poderao exprimir as suas identidades e particularidades, ou pelo menos evidenciar ao maximo as suas virtudes e as suas tacticas. Claro, na mente do treinador, cada um dos seus jogadores têm que encaixar à perfeiçao à sua filosofia de jogo: eu nao quero onze pensadores do jogo e nem onze jogadores de ruptura do espaço. A estrategia global é a cozinha do treinador e cada adepto tem as suas preferencias esteticas do tipo Guardiola, Klopp, Favre etc. Eu, por exemplo, gosto daqueles que se adaptem aos jogadores do tipo Ancelotti ou Zidane.
        Por exemplo, o Lage têm uma estrategia global diferente à do RV ( jogar quase sempre em abertura, povoar entre as linhas, jogar com dois avançados, laterais nas alas etc) e isso todo o pessoal viu. Mas o que seria essa estrategia sem o Félix? A mim me parece que o Lage pensou antes nos seus jogadores para a consolidar a sua estrategia global e começou a adaptar a melhor posiçao ao melhor jogador. Depois na parceria do ataque, o seu melhor pendente é aquele que procura a profundidade mas que sabe alternar com apoio forte( Seferovic). O Felix é bom de bola com uma grande tactica e sabe jogar em pouco espaço?: vou acrescentar jogo para ele e juntar-lhe no centro de jogo dois alas que jogam interior e com quem tabelar. Claro, em resposta, vou mandar os meus laterais jogar nas alas. Como jogo muito entre linhas, vou pedir aos meus centrais de transportar mais bola do que é habitual para procurar essas zonas interiores e interlinhas. E como o meu jogo està mais pausado, vou escolher no meio da minha espinha dorsal o jogador que pensa, pauta e varia melhor o jogo com o seu pé esquerdo: Gabriel, que nos golos abriu tanto na profundidade da ala para grimaldo como no Seferovic entre as linhas.

        Essa estrategia global aqui referida foi a raiz do Lage no Benfica que depois disso trabalhou a estrategia defensiva e ofensiva, e que pouco a pouco começou a modelar mais o jogo e as suas dinamicas.

        A hierarquia seria a estrategia global, as outras estrategias e depois o modelo? Nao porque a estrategia global tem tanto ou se calhar mais impacto no modelo de jogo que nas estrategias defensivas e ofensivas. E também porque a estrategia global nao està no topo da hierarquia e advém depois das tacticas dos jogadores.
        E assim que a estrategia global do Lage foi principalmente influençado pela tactica exceptional daquele que està a encantar o futebol português antes de ir encantar o mundo do futebol.

        • O LE esqueceu-se durante muito tempo das estrategias porque teorizou de perna torta e começou a pôr a cariola antes dos bois:
          Os vosso tais sub-momentos que definem onde està a jogada vêem depois das noçoes de organisaçao/transiçao ofensiva/defensiva mas saber como cheguei a esse tipo de transiçao defensiva, nunca està na mente daquele que teoriza assim.
          Se no treino, queria aperfeiçoar a tal organisaçao ofensiva, como nao sei a consequencia em que cheguei a essa organisaçao, terei que ter um ponto aleatorio de jogo ( a abertura), posicionar os meus jogadores adversos sem que as posiçoes deles tivessem antes uma finalidade e o que eu acabaria por fazer é trabalhar hàbitos para o meu modelo, sem adaptaçao a um adversario que tem o seu proprio pensamento, prestes a nos destruir. Se eu nao sei em que territorio da guerra estou, nao posso visualizar o pensamento do meu inimigo.

          Antes de tudo, a jogada do futebol tem uma abertura, um meio e uma finalisaçao com uma equipa com bola e a outra sem bola. Quando a minha reflexao começa pela base, jà posso acrescentar a teoria da estrategia. Assim num momento do jogo, por exemplo o meio, as noçoes de modelos, estrategias ofensiva/defensiva/global e das tacticas do jogador podem ser ligadas entre eles.
          No meio do jogo, hà sempre um ponto de equilibrio a manter na defesa e encontrar um ponto de desequilibrio no ataque. Equlibrio pensando nas forças ofensivas do meu adversario que tenho que conter e ao invês aproveitar as suas fraquezas graças à tactica dos meus jogadores. O meio do jogo tem as suas leis e tenho que racionalisar para entender essas leis, como se fosse leis da natureza ( aqui o momento do jogo).
          Se eu pensasse em organisaçao/transiçao sem conhecer o meu territorio, percaria a guerra.

          Mas o futebol nao é guerra, hà uma poesia e os Joao Félix dessa vida é que vao além dessas leis, e nunca se pode decifrar totalmente os seus Misterios daqueles gênios.

          O LE é uma lufada de ar fresco mas nao se pode dar ao luxo de nao mudar de paradigma de pensamento por causa do orgulho que nao permite de acabar com teorias tortas.

          Tenho um estado de espirito que gosta de debates, capaz de aceitar os contra argumentos mas como nao os recibo, imagino que o silencio nao é de ouro mas de falta de argumentos.

          A la prochaine!

          • Acho que não é isso companheiro, eu aprecio bastante as tuas abordagens – especialmente aquela ideia do jazz e do futebol, da estrutura/modelo que depois permite aos solistas viajar, improvisar, brilhar – mas depois vou-te dizer o quê se não tenho grandes argumentos? Eu vejo as tuas intervenções como um complemento interessante ao texto principal. Aliás, mais do que a discórdia – que também me agrada, por vezes – eu aprecio a internet e os blogues por causa disto (hipertexto, seguimento e a possibilidade de diferentes contribuições enriquecerem bastante um thread).

  8. Só quero ver tabelas entre o João e o Bernardo… (e já pra Março,Sr Engenheiro!!)

    ..Vai ser “Paradise Football”!! 🙂

  9. Qual é, para o autor, a razão do Benfica ter vencido tão facilmente este Sporting e o outro candidato ao título não ter conseguido o mesmo? Terá sido a estratégia conservadora com que o Sporting abordou os jogos com o Porto que os salvou de um resultado calamitoso ou é o modelo do Benfica que tem um potencial superior de ferir este Sporting?

    Obrigado.

  10. Boas. Belo texto, mas tenho uma pergunta para ti Maldini. O Bruno Gaspar no segundo golo do Benfica, baixa corretamente mas é esse movimento que deixa o Felix em jogo. E a pergunta é se nesse momento deve o lateral agir individualmente de forma correta ou manter-se em linha com o resto da defesa, apesar desta estar alta? Pelo o que me ficou do jogo, o Bruno Gaspar esteve sempre nessa indecisão, há aqui uma falta de trabalho de coordenação.

    • Pedro, boa questão… debatemos isso num forum…

      Ele meteu o felix em jogo, mas se n da o passo comia bola nas costas e ia dar igual… seguiria.se um 2×0… talvez a vantagem era q se fosse o sef (Tenho de ver quem ia receber) podia perder o 3o 2×0 no jogo lol

      Se calhar o q faltou n foi fazer bem mas avisar os colegas p fazerem bem tb…

  11. Parem lá com as comparações com o João Pinto e o Rui Costa; este é 10x melhor. É o único português a poder tocar nos 5 sagrados: Pélé, Maradona, Messi, Cruift e Di Stefano. Aos 3 primeiros não vai chegar mas ao Cruift pode. E o Jota tem mais potencial que o Figo e é capaz de dar luta a este para homem do jogo muitas vezes.
    Já agora, no tal artigo sobre como defender não tens lá uma parte sobre quando saír ao portador, em contra-ataque, e quando fazer contenção. è que cada vez noto mais que os centrais não sabem qd devem saír ao homem. O Luisão era especialista nessa falha mas há cada vez mais. Deixam o portador progredir, haver mais opções, ter tempo para pensar em vez de saírem ao homem, tentarem cortar as linhas de passe interiores, esperarem por ele e acompanharem-no para que esse fique marcado e deixe de ser uma opção para o contra ataque. Alem disso pressionam-no a fazer o passe numa altura que não é a ideal e assim começam a condicionar o contra-ataque. O Ricardo Carvalho (e a maioria dos defesas antigos) sabia faze-lo muito bem.
    Não estou à espera de resposta, até porque não li nem tenciono ler o artigo.

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