O desenvolvimento da circulação de bola em largura

Voltamos a publicar ideias, sob forma de exercícios de treino, que têm por objectivo o desenvolvimento do momento de organização ofensiva do jogo. Desta vez, em alternância à profundidade, estaremos à procura de desenvolver a largura no jogo da equipa. Não só ao nível posicional, mas neste caso concreto, pela circulação da bola entre dois ou os três corredores de jogo.

Como temos vindo a referir, a posse e circulação da bola, salvo raras excepções, não pode ser um fim em si mesmo. É no fundo um meio para atingir outros objectivos, quer ofensivos, quer mesmo defensivos. É fundamentalmente por essa razão que Guardiola declarou “odiar o tiki-taka”. É também por essa razão que (Luís Castro, 2017), também afirmou que “a posse de bola não é um objectivo, é uma consequência… do meu jogo”. Do ponto de vista ofensivo, (Pedro Bouças, 2017) dá um exemplo, explicando que “fazer desmoronar um adversário de qualidade tem também muito a ver com o tempo que o fazes correr”, sendo que para tal, é mais fácil consegui-lo pela circulação à largura do que na profundidade. Na sequência do mesmo exemplo, (Azevedo, 2011), explica: imagine-se que um treinador quer implementar na sua equipa a posse e circulação de bola como um comportamento/princípio no momento de organização ofensiva. Ele pretende que essa circulação de bola seja feita em toda a largura do campo, jogando de uma forma apoiada com passe curto e seguro, à procura de espaços para desorganizar a equipa adversária”. Mas o autor vai mais longe e explica que a partir de uma ideia, o jogo da equipa e as características dos jogadores devem permitir que a ideia inicial, ou seja, o Princípio, seja aberto a eventuais novas formas de o atingir. Na mesma linha de pensamento surge a treinadora (Gomes, 2011), sustentando que “com Organizações (entenda-se princípios) diferentes temos equipas diferentes. Contudo, todos percebemos que as características dos jogadores são decisivas na configuração dos princípios de jogo. Não nos princípios mas no modo como esses princípios se desenvolvem e expressam“.

Também o autor (Maciel, 2011) defende que a um nível mais micro, o qual denomina de SubSubPrincípios, surgem “aspectos mais micro, aspectos de pormenor à priori desconhecidos, uma vez que surgem pela dinâmica do processo e emergem sobredeterminados pelos níveis de maior complexidade, ainda que sem perda de identidade ou singularidade. Por serem desconhecidos à priori eu não os posso, nem devo estabelecer previamente, são particularidades que vão surgindo e que eu tenho de saber aproveitar para alimentar e exponenciar o crescimento do meu jogar, que não perdendo as formas do esboço inicial, vai assumindo uma configuração ao nível do pormenor que é única. Tem de haver muita sensibilidade e receptividade da parte do treinador, no sentido de aproveitar estas emergências de pormenor. Quando refiro receptividade quero dizer abertura, pois só isso permite que eu aproveite e tenha disposição, para partindo das minhas ideias rentabilizar e explorar os acrescentos que o envolvimento me trás a tais ideias“.

Deste modo, a criatividade tem aqui um papel preponderante. Quando o jogador, ou a equipa encontra uma nova solução para resolver o problema, que o treinador não antevia quando definiu o Princípio. Regressando ao exemplo, Azevedo descreve que o treinador transmite a ideia, vai trabalhando e percebe que há um jogador que apresenta uma boa leitura/visão de jogo aliada a uma qualidade e precisão no passe longo. Então, o treinador pode aproveitar essa característica porque através dessa precisão no passe longo, o jogo tornar-se-á mais rápido. Por isso, através da alternância entre passe curto e passe longo, a velocidade da circulação de bola pode ser muito maior. Poderá aproveitar toda a largura do terreno e criar maiores desequilíbrios na estrutura defensiva do adversário”.

Mas (Maciel, 2011) ressalva que ““importa referir que essas emergências de pormenor não são só aspectos a exponenciar, não raras vezes constituem-se como aspectos a recusar, e eu tenho que ter sensibilidade para perceber que em determinados contextos e situações os princípios têm de ser fins. Como tal poderei ter necessidade de fechar, mas só o devo fazer a partir do que depreendo do processo e dos contornos que este vai assumindo no aqui e agora e não à partida. Se o fizer à partida, corro o perigo de cair na vertigem de treinar sobre carris. Parto do pressuposto que os jogadores me podem dar tudo, em termos de detalhe, o que entendo ser necessário para jogar o meu jogar com qualidade, se verifico que há coisas que tenho de ser eu a regular externamente porque eles não o fazem ou ainda não fazem, ok, aí o princípio (subsub) passa a ser fim, mesmo que possa não ser de forma permanente mas temporária e transitória. Cruyff diz que a melhor forma de ensinar não é proibindo, mas sim guiando, eu concordo totalmente mas acrescento que por vezes para guiar se torna necessário proibir. Mas a regulação do trânsito, que é a funcionalidade da equipa vai se fazendo, sabemos o sentido a dar ao caminho e vamos colocando sinalização conforme para que o caminho permita uma boa fluidez, por vezes colocamos sinais proibidos generalistas, outros só a peões, outros só para bicicletas, outros para pesados… e quando percebemos que o trânsito está a ficar regulado à nossa imagem podemos tirar sinalização, porque pelo hábito já se tornou funcional“.

“Adoro a regra que calibra a emoção, apaixona-me a emoção que não se nega a levar a regra à correcção.” (Frade, 2014)

Os três exercícios apresentam uma lógica progressiva, nomeadamente na sua dimensão estrutural:

Exercício 130 | Circulação de bola aos dois corredores laterais sem oposição (exercício grupal)

Exercício 128 | Pontuar em variação de corredor (exercício grupal ou intersectorial)

Exercício 129 | Jogo colectivo em variação da metade vertical do campo (exercício intersectorial ou colectivo)

Bibliografia

Sobre Ricardo Ferreira 31 artigos
Apaixonado pelo jogo desde a infância, foi o professor Silveira Ramos, na especialização em Futebol, que lhe transmitiu o mesmo sentimento pelo treino. Teve experiências como treinador e coordenador na Academia de Futsal de Torres Vedras, Paulenses (Futsal), Torreense, A-Dos-Cunhados e Sacavenense. É coordenador de zona no recrutamento do Sporting Clube de Portugal. É ainda fundador do projecto www.sabersobreosabertreinar.pt.

4 Comentários

  1. Està aqui o meu primeiro comentario nao publicado sem a primeira parte que parece ter ferido susceptibilidades:

    Nos anos 80, lembro-me de ver as equipas dos Paises de Leste e da Uniao Sovietica a jogar uma partiçao unica em harmonia. Muitas vezes, elas pareciam fortes no inicio do jogo, certinhas e sem falhas mas pouco a pouco a harmonia ficava monotona, ineficaz e acabavam muitos vezes por perder.

    Quando vi o Barcelona, pareceu-me aquelas equipas mas com jogadores que pareciam ter liberdade e alegria dentro dum padrao de jogo muito certinho mas mais variado.
    O que é que mudou? Os jogadores nao foram somente incorporados mas identificaram-se aos principios do jogo. O jogar global do Barça é invariavél mas parecendo sempre unico porque os jogadores que a compoe interpretam os principios do jogo ditados por Guardiola de uma certa maneira, e afinal nunca houve outra equipa que se pareceu muito com este Barça do Guardiola. Houve semelhanças mas nenhuma imitaçao perfeita.

    O Edson lembrou-me que falei do futebol como Jazz. Verdade mas esse Barça foi uma orquestra com uma bela sinfonia mas que nenhuma outra orquestra poderia jogar. Os musicos duma orquestra podem mudar mas a partiçao é sempre jogado da mesma maneira, e era o que parecia essas equipas de Leste. Ao invês, aquele Barça nunca poderà ser jogado por outros jogadores da mesma maneira.

    Neste artigo, tente-se falar, mal como jà disse, de jogadores que pegam nas ideias do treinador até que elas sejam personificados e fazem parte de cada jogador e sempre com os seus jogares diferentes.
    E uma bela ideia que os principios de jogo podem ser identificados a cada jogador até as suas qualidades confundir-se com o tal Principio primeiro. Atençao, isto nao é um fim porque é so uma maneira( uma bela maneira, diga-se jà) de ver, sentir e jogar o futebol e o Futebol é muito vasto, e engana-se aquele que o quere determinar desta maneira.

    • Boa tarde.

      Para que fique claro, não cortei nem censurei nada. Esse não é o meu papel aqui. Mas para isso ter sucedido, e não sabendo exactamente o que escreveu, calculo que com certeza, a forma, ou o conteúdo do que escreveu não terá sido o mais correcto.

      O meu papel aqui é procurar contribuir para a reflexão e evolução do jogo e do treino. Naturalmente toda a gente é livre de pensar, rebater, discordar e avançar outro pensamento. Como eu também sou livre de escolher responder, ou não responder, a qualquer comentário. Ao Miguel, que apesar de ainda conseguir decifrar algum conteúdo interessante nas respostas que dá, mas que parece discordar de tudo… só porque sim, aparentemente imbuído naquele espírito de conversa de café na qual precisa de marcar uma posição só para massajar o ego… não obrigado. Esta é a excepção.

      “Às vezes confunde-se complexidade com complicação.” Vítor Frade

      Cumprimentos

  2. Boa tarde.

    Antes de tudo, obrigado pela resposta.

    Nunca discordo realmente do conteudo dos seus post e se eu respondo, é que lhe acho um certo interesse e capacidade à reflexao. Por exemplo, o meu segundo comentario que nao foi publicado falava do interesse que tive a uma entrevista ao tal Jorge Maciel.

    O que é verdade é que eu nao gosto da forma na qual os autores, que você cita, se exprimam…Acho que andei tempo de mais a estudar na universidade em França no departemento das Ciencias Humanas, e fiquei alérgico a um certo lexico oriundos da French Theory, do Constructivismo, do Estruturalismo… A teoria da complexidade proveniente de inteletuais como Edgar Morin ou até Gilles Deleuze é assim definida porque o estudo de um objeto nunca se faz de maneira autonoma e separado mas sempre associado às suas relaçoes. E eles acharam que era preciso duma novilingua complicada para traduzir essa complexidade, e portanto muito dos seus conceitos sao duma banalidade consternante.
    Quanto a mim, eu prefiro um discurso limpido com uma lingua que detém um poder de evocaçao. E, sim, tem razao, até prefiro as conversas de café; sao mais vivas.

    Quantos aos egos, jà estamos noutra conversa que nao se relaciona com o futebol, e aqui no LE, o meu gosto é de partilhar reflexoes sobre um desporto que vivo com uma certa paixao; paixao que partilho com o adepto comum e pelo qual nao sinto nenhuma superioridade nem arrogancia. E tenho uma certa apreensao àqueles que se acham mais inteligentes desses adeptos e se calhar nao deveria tanto provocar.

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