Meia distância – Entre o espaço e o homem

“ A bola, a baliza e o adversário são as três referências básicas. (…) Portanto, basicamente, se a bola estiver num corredor, os adversários mais próximos da zona da bola, nos espaços que ocupam, devem ser marcados em cima com muita agressividade e pressão. Os jogadores mais afastados da bola, numa coerência e lógica de enquadramento no espaço de jogo, devem colocar-se de maneira a não permitirem que na possível saída da bola dessa zona haja jogadores e espaços libertos.” Jesualdo Ferreira

Em sentido contrário a esta ideia defendida por Jesualdo Ferreira, em declarações transcritas no livro “Defesa à zona no futebol”, surgem, por parte do autor, as seguintes considerações:

“Pelo que já foi referido, facilmente se percebe que as coberturas podem de facto ficar comprometidas, pois Jesualdo pretende que os seus jogadores “marquem em cima” nas zonas próximas da bola e, se assim é, os jogadores passam a estar dependentes do posicionamento e movimentação dos jogadores adversários (a referência adversário directo passa a ser prioritária).”

É algures entre estas duas opiniões que surge a ideia da “meia distância”. Para quem pretende ser pressionante de forma zonal, a ocupação dos espaços abaixo da linha da bola não chega. No sentido de montar armadilhas que bloqueiem grande parte das saídas aos adversários, surge a necessidade de tapar também as linhas de passe que se encontram atrás do portador da bola.

Reparemos no seguinte exemplo:

O objetivo de recupar a bola no corredor lateral leva a que equipa bloqueie as saídas em redor do portador. Isso, incluí o fecho das linhas de passe recuadas. No entanto, e porque a ocupação zonal nem sempre permite o condicionamento de todas essas soluções, em alguns momentos, face a determinados posicionamentos do adversário, pode surgir a necessidade de algum jogador dividir o espaço entre o local onde zonalmente deveria estar e o adversário.

Uma correta distância entre o local onde deveria ser feita a cobertura e o adversário, permite condicionar as duas possibilidades de ação do portador. Não é uma marcação, nem um abandono completo do local da cobertura, assim como não é uma ocupação zonal por natureza. A “meia distância”, nestes casos situa-se algures entre as duas soluções.

Obviamente que não é uma solução perfeita mas se os encurtamentos forem rápidos e a leitura corporal do adversário for boa, a possibilidade de sucesso é grande.

Existem inúmeros casos onde a “meia distância” surge como uma arma útil.

Observemos o último exemplo:

Existe um cruzamento de linha fundo, em que só a linha defensiva está presente.

Debrucemo-nos sobre a ação do 1º central: a procura direta do adversário exporia a equipa a desmarcações nas costas. A ocupação zonal deixou-o demasiado distante do adversário que chega livre.

É também nestes casos que a “meia distância” poderia ser útil. O aproximar do central ao adversário que chega, poderá ser solução se essa distância for suficiente para que não se deixe bater em velocidade, por movimentos que procurem as suas costas. Ao mesmo tempo, deve manter uma distância que lhe permita intervir se a bola for na direção desse adversário. Aproximar mas sem “marcar”.

Em determinados momentos, seja como padrão, como solução de recurso ou como apontamento estratégico, a utilização da “meia distância” poderá revelar-se importante no processo defensivo.

Bruno Fidalgo
Sobre Bruno Fidalgo 75 artigos
Licenciado em Ciências do Desporto. Criador e autor do blog Código Futebolístico. À função de treinador tem aliado alguns trabalhos como observador.

3 Comentários

  1. Como tinhamos falado entre autores, é cada vez mais decisivo… nos cruzamentos então (mas não só… sobretudo no condicionar portador a não meter a bola entrelinhas, mas ao mesmo tempo estar pronto para sair se a bola entrar fora)… agora que o ataque encontrou o cruzamento atrasado como solução para bater a zona… é determinante a “meia distância” … e esta pode perfeitamente ser dada até pelo lateral do lado oposto podendo central do lado da bola manter-se onde interceptará bola que tente passar entre ele e a baliza, se o tal movimento para o penalty for do extremo adversário do lado oposto!

    Contramovimentos, orientação corporal, agora meia distância… o detalhe é cada vez mais importante, porque já quase todos chegaram ao que há 10 anos só alguns cumpriam…

    • Boas.

      Poderias explicar melhor esta parte:

      ” (mas não só… sobretudo no condicionar portador a não meter a bola entrelinhas, mas ao mesmo tempo estar pronto para sair se a bola entrar fora)”

      ???

      • Por ex o comportamento do lateral… na meia distância ta pronto para se a bola entrar entre linhas no extremo – sai sem deixar virar… mas também esta pronto para se a bola entrar por fora no lateral… abre passo e ch3ga a tempo da contenção

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