Quanto és de modelo?


[para vencer há que combinar:]
Modelo de Jogo. Um modelo bem estruturado. Pensado e que consiga garantir mínimos de qualidade nos posicionamentos em cada momento do jogo;
Estratégia. Adaptações obrigatórias mesmo mantendo o modelo, em função das características totalmente diferentes do jogo. Diferentes porque perante adversários substancialmente melhor apetrechados;

Pedro Bouças, “Vencer a um grande” (2016)

Há algumas semanas alguém quantificou Bruno Lage como uns trinta por cento de estratégia e setenta de modelo. Não tem nada de errado em desconhecer-se que não se tratam de coisas antagónicas, e que na verdade não fazem sentido uma sem a outra.

Todavia, ao contrário do que os menos informados possam pensar, a estratégia não veio de forma alguma substituir o modelo. Porque esta é adoptada em cima do modelo, e para se opôr a outro modelo. Tu não és 70 de modelo e 30 de estratégia. És sempre (ou deverás ser) 100 de modelo, e depois poderás ser mais ou menos de estratégia. E é ai que nos dias de hoje, o modelo se tornou corriqueiro, porque (quase) todos são capazes de lá chegar. E vence não apenas quem tem os melhores jogadores, e modelo, mas quem é capaz de enganar o modelo adversário.

Ninguém tem coragem de dizer que Guardiola é 10 de modelo e 90 de estratégia, pois não? E porque não? Se afinal, não há um único jogo em que se repita um padrão?


Já o Braga [em Alvalade] ajuda ainda mais a provar como o “agarrarmo-nos demasiado àquilo que é o plano” pode ter um efeito devastador e bloqueador. A metáfora do “caminho decorado” pode ajudar a perceber o que acontece às equipas que se preparam para algo que depois não acontece.
João Baptista, no “A bola na Árvore” (aqui)

No excelente “A bola na Árvore” falava-se de algo que o genial Francisco Silveira Ramos já havia mencionado. A importância da identidade variável, capaz de adaptações para viver e triunfar no alto rendimento.

Numa primeira fase a informação não chegou a tempo

Abel Ferreira, sobre o jogo em Alvalade

Em Alvalade, o tempo que o Braga demorou a adaptar o seu modelo (4x4x2 em Organização Defensiva) ao seu adversário (quando o seu modelo contempla a mesmíssima saída a três, precisamente porque tem condições óptimas de sucesso contra as primeiras linhas a dois), foi determinante para que a toada do jogo fizesse crescer uns e diminuir outros.


É urgente incutir nos jogadores/nas equipas essa autonomia e independência para que não se deixem amarrar por um plano, que muitas vezes não se concretiza na sua plenitude. É isto que deve ser a identidade, algo que sustenta o plano e o falhanço do próprio plano e por isso é que nunca a estratégia pode ser incoerente com ela, porque é o que somos na continuidade que nos dá os referenciais que permitem resolver grande parte dos problemas que cada jogo tem, onde metade dos intervenientes treinam juntos todos os dias. A nuance estratégica é a tentativa de antecipar uma ou outra coisa que nos poderá colocar o mais rápido possível nos caminhos que, perante determinado adversário, mais nos caracterizam e nos favorecem.
João Baptista, no A Bola na Árvore (aqui)

E estratégia não tem de ser o que Marcel Keizer preparou na recepção ao Sporting de Braga.

Sporting em Organização Defensiva – Estrutura idêntica à que o Villarreal apresentou em Alvalade

Sporting em Organização Ofensiva: Estrutura idêntica ao ataque posicional do … Braga

Marcel Keizer trocou por completo a estrutura táctica. Mudou por completo a identidade táctica da sua equipa. E não é necessariamente alterar estrutura que é ESTRATÉGIA! Terá sido pelo temor do adversário ou porque percebeu que a sua identidade não o estava a aproximar do sucesso, o que é certo é que estratégia não implica (não tem de implicar) mudar a identidade! Ao contrário do que aconteceu em Alvalade.

A era da estratégia não surge sugerindo as alterações profundas tal como o treinador holandês fez de um jogo para o outro! [O que Keizer fez, mais do que estratégia foi mudar de identidade!] Estratégia é o que fazem os melhores treinadores do futebol mundial. Pequenos ajustes a uma identidade variável, mas não totalmente mutável! Como Pep explicou quando defrontou o Arsenal. Estrategicamente não quis deixar em situação de 2×2 os seus defesas contra Auba e Lacazette. Tal não significa que perdeu identidade, ou que necessitou de mudar tacticamente toda a sua equipa. Apenas um ajuste estratégico na dinâmica colectiva para precaver um ponto forte específico do opositor.

Portanto, da mesma forma estão completamente errados os que ainda vivem na era do modelo e identidade imutável, quanto os que acreditam que cada jogo se vive apenas em função do que faz o adversário.

Para que a estratégia surja, há que ter qualidade no que é NOSSO, conforme é por cá afirmado há tantos anos. O pormenor, a última pincelada que determina o rumo do jogo e tantas vezes define o resultado, só surge se houver uma base!

É um pouco como pensar [em termos individuais / jogador, em vez do colectivo / equipa] na era da inteligência. Esta surgiu e é mais valorizada (e diferenciadora) nos tempos mais recentes, mas não invalida nem anula o lado motor / físico do jogo. Continua a ser preciso correr para se ganhar um jogo de futebol… E se com muita burrice ainda podes ter a felicidade de ganhar um jogo, a andar ninguém o ganhará. Mas, ninguém diz que estamos na era da correria, pois não? Mesmo que saibamos que 11 Messis com 90 anos, mesmo com as suas capacidades intelectuais e cognitivas intactas, perderiram sempre contra 11 Idrissas.

Interessante será perceber se Marcel Keizer procurará transformar a identidade táctica da partida do fim de semana, na base na qual terá de fazer evoluir a sua equipa. E estratégia será, partindo daquela base, definir nunces na sua própria dinâmica.

Sabendo que ter competência no jogo é totalmente diferente do que é o “geral”, que são os tais posicionamentos base em Organização Ofensiva e Defensiva. Nenhuma equipa é boa porque defende em 4x4x2 ou em 5x2x3, ou porque ataca em 3x4x3 ou 4x3x3. És bom e competente porque tens qualidade no pormenor! Na forma como a equipa se move de forma conjunta (e nos dias de hoje, até o posicionamento corporal importa) e interpreta o jogo.

NUNO MANTA estará presente no Fórum!
Sobre o jogo (planos, modelos, estratégias) e o treino estaremos um dia inteiro a falar, no Fórum do Lateral Esquerdo, com mais de uma de dezena de convidados do alto rendimento, para que todos possamos continuar a crescer

INSCRIÇÕES PARA O FÓRUM JÁ ABERTAS (AQUI)


Com o apoio da CM Paredes e da Parjovem, com o patrocínio do CGD e da Prozis, e com o RECORD como media partner. – Brevemente divulgaremos mais convidados que se juntarão a: Nuno Manta, Manuel Cajuda, Fernando Valente, Rui Quinta, Ricardo Sousa e Bruno Fidalgo.

Paolo Maldini
Sobre Paolo Maldini 3697 artigos
Pedro Bouças - Licenciado em Educação Física e Desporto, Criador do "Lateral Esquerdo", tendo sido como Treinador Principal, Campeão Nacional Português (2x), vencedor da Taça de Portugal (2x), e da Supertaça de Futebol Feminino, bem como participado em 2 edições da Liga dos Campeões em três anos de futebol feminino. Treinador vencedor do Galardão de Mérito José Maria Pedroto - Treinador do ano para a ANTF (Associação Nacional de Treinadores de Futebol), e nomeado para as Quinas de Ouro (Prémio da Federação Portuguesa de Futebol), como melhor Treinador português no Futebol Feminino. Experiência como Professor de Futebol no Estádio Universitário de Lisboa, palestrante em diversas Universidades de Desporto, Cursos de Treinador e entidades creditadas pelo Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ). Autor do livro "Construir uma Equipa Campeã", e Co-autor do livro "O Efeito Lage", ambos da Editora PrimeBooks Analista de futebol no Canal 11 e no Jornal Record.

2 Comentários

  1. A identidade do sporting mudou neste jogo? É q o passe curto, jogo interior, usar o corredor central de preferência tudo isso esteve lá. Apenas cm um lateral baixo (Borja) a fazer de central e um ala a fazer de lateral não me parece q a identidade (mais ou menos trabalhada) deixasse de existir…

    • Viva Carlos, isto se calhar é tudo uma questão de semântica e andamos todos a dizer mais ou menos o mesmo por outras palavras. A verdade é que não há uma terminologia definida… dai as confusões. Aqui no tasco, diriamos que manteve o estilo (as referencias que fazes), e identidade não (porque se posicionou de forma totalmente diferente). mas lá está… nada disto está “patenteado” …

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