Atacar contra quem defende com muitos – o caso do City vs Chelsea

Falar após o jogo é fácil , no entanto,  não era a previsão mais difícil do  mundo. Nesta temporada Manchester City e Chelsea enfrentaram-se 3 vezes até domingo. Em duas ocasiões, Supertaça e o recente 6-0, Chelsea entrou com pressão média-alta com dificuldade em controlar espaço entre linhas, permitindo várias aproximações à sua baliza, no jogo em que baixou linhas ganhou 2-0 e o City pouco perigo criou. Assim, sem grande surpresa, Sarri optou na final pela solução que mais rendimento lhe proporcionou.

Muito embora o City não ter criado muitas oportunidades de golo, é interessante verificar como ao longo do jogo foi procurando, de diferentes formas, ultrapassar o bloco do Chelsea. Na 1ª parte, e com os blues em 4x5x1, o City apresentou uma das distribuições mais recorrentes da temporada, 4x3x3 com os laterais a variarem entre estar mais junto ao pivô e dar largura, ainda que em zonas baixas. Os dois interiores permanentemente entre as linhas média e defensiva do adversário e extremos abertos que baixam quando lateral do seu lado vai dentro. Nesta fase do jogo, o City optou por uma circulação à largura, ainda que muito por fora do bloco adversário, com destaque para a ligação central-extremo do mesmo lado e a partir daí combina com interiores ou, ainda que com a bola  jogada para trás, dá espaço a quem recebia para progredir no lado contrário, muito embora  a linha de 5 do Chelsea raramente o tenha permitido

Um objectivo da circulação do City é fazer a bola chegar aos médios interiores, muitas vezes aproveitando as costas do extremo que sai na pressão do lateral citizen que está mais baixo. Sabendo disso, Barkley antecipou muitas vezes a presença nesse espaço (como se vê na imagem abaixo) e do outro lado, Pedro fez por ser rápido a recuperar quando bola entrava à largura ao mesmo tempo que  Jorginho demonstra a preocupação de encostar em David Silva. Estes comportamentos dificultaram a progressão do City e as habituais tabelas entre interiores e extremos.

O City fez chegar a bola aos extremos quer através de passe directo pelo central, quer pelo lateral. À esquerda Kanté saiu várias vezes à pressão mas com 4 coberturas (os restantes colegas de linha média) é mais complicado bola entrar nas suas costas. Pedro não era tão atraído ao lateral e quando bola entrava no extremo podia baixar rapidamente, aliada à pressão de Jorginho, complicaram a vida a David Silva e Sterling como é visível nas imagens abaixo.

A grande oportunidade do City fruto desta distribuição aconteceu aos 21 minutos. Novamente circulação à largura (que teve a vantagem de começar no último terço, em lançamento), da esquerda para direita, sequência de passes à esquerda, tendo Aguero como apoio frontal e Silva na ruptura, jogo roda por Walker (bem no corredor central) e Bernardo vai receber à direita com algum tempo. O movimento de De Bruyne a arrastar Willian para fora é essencial, pois permite ao português a oportunidade de conduzir para dentro e cruzar com a bola a cair nas costas do lateral do lado oposto.

À aglomeração do Chelsea na zona da bola, o City pareceu querer responder com a circulação à largura, talvez demasiado estática e previsível, A equipa de Guardiola já criou muitos desequilíbrios atraindo o extremo contrário e colocando a bola nas suas costas para o interior, mas neste momento já várias equipas contrariaram este e outros engodos como sobrepovoar um corredor lateral para aproveitar o contrário. No domingo, apesar de controlar o Chelsea em transição defensiva, a ideia de circular rápido de um lado ou outro, ou reter a bola num dos corredores laterais para chegar ao outro e vantagem não trouxe grande perigo. Tal a preocupação com a largura, que os centrais nem procuraram eliminar a 1ª linha de pressão do avançado, com o habitual 2×1 especialmente acessível neste jogo. Por isso mesmo, ocorrerem mudanças na 2ª parte.

A grande mudança do City deu-se logo no inicio da construção. Os centrais (mais Fernandinho e De Bruyne quando baixava para essa zona) começaram a procurar a ligação directa pelo ar com o extremo do lado contrário. Esta opção teve duas consequências que estão interligadas. Alguns ataques do City passaram a durar menos tempo, ou seja, mais oportunidades para o Chelsea ter bola e jogo não tantas vezes no meio-campo da equipa de Sarri.

Neste lance, Kompany procura Sterling e David Silva aparece na profundidade criando um habitual desequilíbrio do City. Com os interiores do City nas costas da linha média do Chelsea, e a bola a chegar mais rapidamente à frente, Silva ganhou alguma vantagem. Nota para a acção de Rudiger que rapidamente saiu na contenção ao espanhol.

Ainda assim, o City, a espaços, repetiu a receita da 1ª parte. Neste lance, Kompany procura Bernardo à largura, De Bruyne vai aparecer no momento certo e mesmo em condições complicadas (apertado pela marcação de Jorginho) consegue enquadrar. É o suficiente para estarmos perante uma situação de potencial perigo que só uma decisão discutível do belga, e má execução técnica, impedem uma maior aproximação à baliza do Chelsea.

O lance abaixo demonstra aquilo que acabou por ser boa parte do jogo. Começa com uma variação de flanco por Otamendi, bola anda entre a esquerda e direita, sem qualquer passe entre linhas. O City com variabilidade de movimentos no corredor com bola, oscila entre apoio e ruptura que permite o cruzamento, ainda que nem sempre em situação favorável. Quando consegue ganhar as costas do lateral para cruzar, os centrais do Chelsea mostram-se preparados (no caso David Luiz) e sai na cobertura. A equipa de Guardiola teve a bola mais de um minuto, mudou de corredor várias vezes mas não conseguiu criar perigo.

Com os últimos 25 minutos da 2ª parte a serem os mais equilibrados do encontro, o prolongamento trouxe novamente novidades na distribuição do Manchester City. Guardiola optou pelo 4x2x3x1, com Danilo e Gundogan no duplo pivô e Bernardo Silva a 10. Aguero juntava-se com frequência ao português e, ocasionalmente, um dos alas também, libertando o corredor para a subida dos laterais. A circulação continuou com muita largura, com os centrais a variarem na procura de lateral ou extremo para muda corredor, mas dois homens na zona do pivô criaram mais dúvidas na linha média do Chelsea e surgiram alguns passes entre linhas. O facto de o City ter mais gente no corredor central criou mais dúvidas nos jogadores do Chelsea. Ainda assim, fruto do desgaste, não foi fácil ao City aproximar-se da baliza contrária

Não é a primeira vez que o City tem dificuldade em desmontar um bloco baixo bem organizado. A tarefa não será fácil com as equipas a conhecerem cada vez melhor a forma como o actual campeão inglês faz por mover o adversário para progredir. Na final contra o Chelsea ficou a ideia de uma equipa demasiado estática e com pouca mobilidade no corredor central para quem jogava contra um adversário tão compacto. Veremos como, no futuro, o City irá responder. No entanto, e já ontem frente ao West Ham houve mais mobilidade, o que veio permitir mais jogo pelo meio em zonas de criação

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