O jogo posicional do Sporting – espaço e intensidade

Keizer disse no final do jogo com o Santa Clara que não tinha gostado da exibição. Apesar da vitória e de chegadas regulares ao último terço, a qualidade do ataque sportinguista voltou a deixar dúvidas. A equipa parece ainda à procura da melhor identidade.

Foram visíveis vários aspectos frente ao 4x4x2 em bloco médio-baixo do Santa Clara. A paciência dos centrais em construção, procura dos corredores laterais para cruzamento no último terço, mesmo quando as condições não são as melhores. No entanto, fica sempre a sensação que o portador da bola raramente tem boas condições para desequilibrar e/ou progredir com perigo. Na minha opinião, isto deve-se a alguma falta de “intensidade ofensiva”, se assim lhe podemos chamar, traduzida em dar opções válidas a quem tem bola, nomeadamente à frente da linha da bola e/ou no espaço entre linhas. Mesmo quando existem movimentos de arrastamento, quem recebe bola no espaço criado, nem sempre tem as melhores condições para prosseguir. 

No lance abaixo, um dos padrões do Sporting: lateral baixo, extremo faz movimento de arrastamento do lateral-central adversário e o médio, no caso Wendel, recebe nas costas do extremo adversário. Os brasileiros do Sporting tabelam e o lance termina com cruzamento

Não obstante, o jogo do Sporting seja feito bastante pelos corredores laterais, a verdade é que os centrais na construção vão tentando o passe vertical para o meio, seja para os médios interiores, seja para os extremos. O problema é que quem recebe bola está sempre pressionado e sem opção válida de frente para o jogo. 

No lance mais simbólico das dificuldades do Sporting, Mathieu começa por conduzir a bola, e juntamente com Doumbia, atrai os dois avançados do Sta Clara. Coates fica com espaço para avançar e encontra Raphinha no meio. O brasileiro enquadrado para a baliza adversária, não tem opções de passe à frente da linha da bola, que poderiam facilmente ser dadas por Wendel no meio, e Acuna à esquerda. O passe acaba por sair para o argentino, ainda que com a linha média do Sta Clara já organizada. É possível ver este momento como uma questão de “intensidade” e percepção, se Acuna e Wendel avançam para o espaço livre, o Sporting ficaria somente com a linha defensiva pela frente.


Outra característica do Sporting que tem sido mais impeditiva do jogo pelo corredor central que facilitadora é a falta de largura entre os 3 médios. Frequentemente encontram-se no corredor lateral onde está a bola, o que leva ao aglomerar do adversário nessa zona. Também consequência desta acção, foi possível identificar outro padrão nos leões. Sem conseguirem jogar por dentro, Coates começou a procurar Raphinha à largura, principalmente após bola vir da esquerda. No video abaixo, o brasileiro até chega ao último terço em situação de 1×1, mas que rapidamente se transforma em 1×3 (o Sta Clara demonstrou preocupação com a ocupação dos corredores laterais no último terço, raramente concedendo superioridade numérica ao Sporting) por falta de acção de Ristovski e Wendel que permanecem os dois atrás da linha da bola. Naturalmente, os 3 defesas do Sta Clara limitam-se a proteger a baliza sem outro tipo de preocupação.

Num dos melhores lances da partida, Mathieu procura Ristovski à largura, com tempo e espaço para receber por acção de Raphinha. BF mais perto é logo solução atrás. Ristovski vai para a área ao mesmo tempo que Raphinha dá largura. Condições criadas para tabela entre Bruno Fernandes e Raphinha, muito pela acção do português no movimento que engana o defesa do Sta Clara, ganhando espaço para fazer o passe

O Sporting é uma equipa claramente em construção, que raramente conseguiu no jogo frente ao Sta Clara vantagem posicional e/ou numérica para criar verdadeiras situações de perigo. O jogo pelo exterior, apesar de trabalhado, parece surgir também da incapacidade da equipa jogar nos espaços centrais e interiores. O posicionamento dos médios parece ter de ser revisto, assim como o momento em que os jogadores se colocam à frente da linha da bola, aliados aos pormenores individuais como a orientação das recepções. Estes aspectos retiraram, a meu ver, velocidade à circulação dos leões. 

Por outro lado, após o golo, o Sporting teve dificuldade em estabilizar o jogo no meio-campo adversário e o Sta Clara passou a ter mais bola, outro aspecto a rever. Com um jogo por semana até ao final da temporada, e portanto tempo para trabalhar, será interessante seguir a evolução da equipa


3 Comentários

  1. O Sporting já tem o problema de ter planteis sempre inferiores aos rivais e não se pode dar ao luxo de brincar aos treinadores, Keizer pode vir a ser um grande treinador no futuro, mas atualmente é um treinador sem currículo de 1ªLiga e portanto aquém daquilo que um clube grande precisa.

    Os melhores treinadores são aqueles que começam de baixo para cima e não o contrário, tenho muita dificuldades em ver Guardiola ou Mourinho como grandes treinadores, quando orientam sempre os melhores clubes, os que mais ligas vencem nos seus países, os que mais investem em jogadores, o melhor treinador é aquele que consegue fazer muito com pouco e esses há poucos.

    Não existem segredos, não é assim tão difícil o Sporting ser campeão nacional, mesmo que tenha menor qualidade individual que os outros 2, se tiver um treinador de Top dificilmente não será campeão, pois a nossa Liga é muito desequilibrada individualmente.

    Temos em Portugal talvez os 3 melhores treinadores Portugueses e dos melhores do Mundo, Silas, Ivo Vieira e Lito Vidigal.

    Silas seria o meu preferido, é exatamente aquilo que o Sporting precisa, é metódico, disciplinado e flexível a nível tático, injetaria uma mentalidade ganhadora no Sporting.

    A somar a tudo isto, é Sportinguista, não vejo melhor treinador para o Sporting que o Silas, era o homem certo para quebrar o jejum, com mais ou menos armas, iríamos ser competitivos e lutar pelo título até ao fim.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.


*