Dar o Melhor de Nós, por mim, por ti… por Todos

O que é o desporto? Que valores implica? Que estado de alma fará sentido em quem o pratica? Formar, para além da especificidade que determinada forma de jogar o jogo exige é também formar ou tentar influenciar (dentro do possível, limitados que estamos pelo tempo) o carácter de quem treinamos.

Não há dúvidas de que com a formação se pretendem criar hábitos (nas várias dimensões que abrangemos enquanto humanos) e esses hábitos começam-se a criar desde cedo, tentando assim aproveitar todo o potencial com que nascemos. Como é óbvio isto implica a família como a grande responsável por uma formação que tenha por base (de preferência) bons valores. Começamos por algo essencial, que passa pelo tempo em que crianças se enamoram, se apaixonam por algo que irá gerar o impulso, o desejo de experimentar, só assim se pode chegar ao prazer de jogar (futebol, neste caso – sou bastante “egoísta” e acabo sempre por ir dar no mesmo tema). Mas é essencial que esse prazer por jogar tenha outra paixão e uns determinados hábitos associados, ou seja de preferência que jogar só faça sentido se for no sentido de buscar melhorar, que haja essa paixão (íntima – de quem pratica) por aprender, por fazer o melhor que se pode, de se implicar todo na intenção de fazer as coisas bem. Que a paixão pelo jogo seja com naturalidade e normalmente algo que acarreta exigência.

Fazer por fazer, quando falamos em formar para a vida e para o desporto de alta competição, não faz qualquer sentido para Toni e Rafael, nem para mim. Se o fazemos terá que ser com a máxima exigência. E aqui parece-nos essencial que o hábito seja promovido no sentido da exigência vir do próprio jogador, e não do treinador nem dos pais. Só assim se tornará num estado tão natural que de tão normal, de tão apaixonante passa a ser prazeroso até nos momentos de perda. Porque a tristeza momentânea não lhes retira o prazer. A frustração da derrota passa mais rápido quando vivemos para nos melhorarmos e para dar o melhor de nós. A realidade é que a felicidade (enquanto estado e não enquanto momento) transcende o resultado e transcende a emoção momentânea.

Na exigência e na intensidade máxima é quando o jogador se diverte, doutra maneira deixa de fazer sentido. Também é verdade que há quem só se consiga divertir, no desporto, sem a exigência de ter que dar o melhor de si. Tudo bem! Não se poderá é almejar grande aprendizagem com essa postura. Os miúdos devem ter espaço para decidir o que querem, conhecer as suas paixões e colocarem em si a exigência que eles quiserem, só assim eles serão honestos com eles próprios e com os outros, especialmente quando o desporto é colectivo. Mas reforço, mais uma vez, que é perfeitamente possível a diversão num contexto de exigência máxima (assim a exigência seja intrínseca e não extrínseca na forma de pressão) onde o “sofrimento” causado pelo esforço está presente, e há inclusive muita gente que só se consegue divertir desta forma.

Isto assemelha-se um pouco à questão do “ganhar” ou até à “paixão” na formação, por vezes esquecemo-nos que aquela ambição que, enquanto treinadores (ou os pais), temos de triunfar ou a enorme paixão que levamos cá dentro, deve existir no sentido de a transmitir e de a tornar em algo que vem dos próprios jogadores. A exigência e a paixão que “transpiramos” não podem ser um fim em si mesmas. Porque é deles que, passado algum tempo, a exigência deve vir, é deles que deve partir essa vontade de ganhar e essa paixão, porque é também essa vontade que gera neles a necessidade de solucionar os problemas do jogo. Com essa vontade de (solucionar os problemas para) ganhar e com essa tal paixão surge naturalmente a intensidade máxima, que lhes permite concentrarem-se no quebra cabeças que é determinado exercício/jogo. A partir daqui estão criadas as condições para um certo “auto-didatismo” que é muito importante, pois devemos reconhecer o nosso papel, essencialmente, de catalisadores de hábitos para que a cada dia haja maior autonomia; devemos ser alguém que os guia e intervém neste sentido de tornar normal esta capacidade deles exigirem o melhor possível de si próprios, sem necessitarem dum “fiscal da exigência”, quando chegam à adolescência e necessitam constantemente de alguém que os alerte para a importância de se focarem – a paixão não é suficiente ou a auto-exigência não condiz com o nível que o contexto e a equipa exigem. Daí a importância de se formar para que a paixão e a dedicação sejam algo que, desde cedo, está entranhado neles, como vontade própria e não como exposição constante a uma pressão exterior para ter que fazer. Só dessa forma autónoma a exigência se irá entranhar de tal modo que já não haverá outra forma de desfrutar.

Para além destes hábitos que acreditamos que lhes vão dar jeito para competir, isto é duma tremenda importância para a vida. Ultrapassar os momentos menos bons que a vida tem. O serem felizes (não a cada segundo, mas como algo que impele a resolução das frustrações), mesmo na adversidade, só é possível nesta capacidade de nos momentos complicados resistir e solucionar. E sou da mesma opinião do Toni Nadal, de que o estado de felicidade e de satisfação pessoal é maior quando as coisas são difíceis de alcançar, mesmo quando temos que nos levantar uma e outra vez, por não termos conseguido ou porque sofremos algum imprevisto grave.

Cada um da sua forma e com os seus padrões de exigência… mas, que a nossa contribuição seja no sentido de acrescentarmos valor cultural a quem vem para aprender do nosso exemplo. Que “dar o melhor de nós” seja cada vez mais uma forma normal de actuar. Está na nossa Natureza melhorar e entregarmo-nos ao que fazemos, sem medo do fracasso e com paixão para ultrapassar a frustração. Com estes valores o prazer e esse estado de felicidade, vêm essencialmente do esforço implicado no processo, e não exclusivamente do ganhar aos outros (ainda que conseguindo triunfar saiba muito melhor).

Toni a Rafael Nadal são grandes exemplos de quem soube e se deixou contagiar por uma enorme paixão e tremenda vontade de dar o melhor de si em cada momento no court de ténis, mas não só… parece que também na vida.

a) Intervenção de Toni Nadal no Congresso “Lo Que De Verdad Importa” organizado em conjunto pela Fundação LQDVI e pela Fundação Telefónica. Madrid 30 de Novembro de 2012;

b) Conferencia de Toni Nadal: “Todo se puede entrenar”. Evento inserido nas celebrações do 110º aniversário do “Diario de León”. León, 2016;

c) Conferência de Toni Nadal, antigo treinador de Rafael Nadal: “Innovación y motivación al cambio”. Evento que teve lugar durante o “Oracle Digital Day 2018”;

d) Entrevista a Rafael Nadal retirada do documentário “Strokes of Genius” (Bonus Clips), 2018

João Baptista
Sobre João Baptista 19 artigos
A paixão por Futebol conduziu-o até à FCDEF (Universidade do Porto), onde o Professor Vítor Frade viria a ser uma grande influência na busca constante da essência do jogo e do treino. Com passagens por FC Porto B, FC Porto (Dragon Force), Valadares Gaia FC (feminino), AD Sanjoanense e EF Hernâni Gonçalves, desde 2016 que se encontra na China, de momento num projecto de formação ao serviço do Zhichun FC. A página/o blog "Bola na Árvore" são reflexões de quem vai à procura da essência do jogo, da formação, do treino e da vida que se manifesta no futebol... na busca incessante vai-se aprendendo.

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