Talento, (bom) Carácter, Sacrifício e “Egoísmos” – ingredientes de Equipa Grande

A Vantagem que é juntar gente com Talento, (bom) Carácter, Sacrifício e “Egoísmo”

Dentro de uma grande equipa há talento, há associação, há gente com carácter, que se sacrifica e há confiança nas relações (ou terá que haver), mas também é importante sermos verdadeiros no que toca a reconhecer que há competitividade entre cada um. É importante reconhecer que cada um dos que jogam juntos quer ser o melhor e quer sê-lo (também) por uma questão intimamente ligada ao ego, mas isso nunca deverá impedir de levarmos algo mais dentro do nosso íntimo, é importante que tenhamos também a intenção de fazer dos que nos rodeiam melhores e suportarmo-nos neles como reconhecimento de que sozinho não posso nada, nada de relevante, nada do que ambiciono.

Associamo-nos por “egoísmo” (não no sentido depreciativo ou parasita, mas sim simbiótico); sabemos que em grupo somos mais capazes, porque no fundo sabemos e sentimos as nossas limitações (até no desporto individual precisamos dos outros), sabemos que “recorrendo” ao outro nos tornamos melhores. Competir com o outro faz-me aprender, ajudar o outro faz-me dar mais de mim, para que ele e eu possamos alcançar o que pretendemos. Até entre irmãos há competição e feroz, por ser melhor do que o outro (nunca no sentido de ter mais atenção do que o outro, isso já seria prejudicial), existe competição assim como existe entre-ajuda.

Parece mal assumirmos isto, mas quer assumamos quer não isto é natural e irá existir (esperemos) para o bem do ser humano. A nossa bondade consciente é que não consegue entender esta competição benéfica para todos e fomos (alguns) tentando reprimir este nosso ego que deseja que sejamos os melhores. A verdade é que sempre houve (continua a haver) muita gente a usar os seus desejos, os seus egoísmos e esta competitividade num sentido corrosivo e que nem nos torna melhores a nós nem aos outros. Queremos ser melhores pela falência dos outros, queremos ser maiores no estatuto e não pelo nosso esforço e cooperação. É claro que isto ao invés de gerar associação gera isolamento e mata a dignidade e a humanidade.

Isto é o que acontece quando se compete pela atenção ou pela fama, no fundo pelo reconhecimento de quem vive fora do processo diário. Não é isso que queremos alcançar ao deixarmo-nos levar pelas ambições individuais do nosso ego. O que queremos é competir pela melhoria, ou seja, competir com a intenção de nos tornarmos melhor do que o outro através do sacrifício e do trabalho, e se dentro duma equipa cada um aceitar isto, então vamos acabar por reconhecer inevitavelmente que o nosso desenvolvimento gera melhorias nos outros e vice-versa e aí não mais iremos desejar o mal dos outros pois iremos também beneficiar do seu crescimento. É este desafio constante entre todos que impulsiona o crescimento de todos e torna a equipa mais forte. É este o lado saudável do “egoísmo”, aquele em que desafiamos os outros a fazer melhor do que nós e ao mesmo tempo nos desafiamos a nós a fazer melhor do que os melhores, sem esperar ser melhor pelo fracasso do outro, é querer ver a melhor versão de cada um dos nossos companheiros e tentar superarmo-nos na tentativa de superar quem nos rodeia (é isto o treino numa verdadeira EQUIPA).

Tentemos entender o que Pepe Sanchez e este texto pretendem dizer quando se referem à vantagem do “egoísmo” (junto com outras coisas). Entenda-se este conceito como algo que pode beneficiar uma equipa. Este instinto pela sobrevivência sem perda da dignidade. Para serem campeões Olímpicos Pepe Sanchez diz que foi importante reconhecer que cada um dos jogadores da equipa tem motivações egoístas, mas também diz que o sacrifício, o talento e o facto de serem boas pessoas foi importante. Essa simbiose onde gente de bom carácter torna o “egoísmo” um benefício comum onde todos ganham na associação. Mas também devemos perceber esta associação só faz sentido e só terá continuidade na base do “dar e receber” (natural, genuíno, mútuo e constante) que nos mantém juntos e unidos para alcançar coisas que sozinhos jamais conseguiríamos!!

a) extracto do programa: “La pasión según Sacheri” com Pepe Sanchez – 29 de julho de 2018

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João Baptista
Sobre João Baptista 10 artigos
A paixão por Futebol conduziu-o até à FCDEF (Universidade do Porto), onde o Professor Vítor Frade viria a ser uma grande influência na busca constante da essência do jogo e do treino. Com passagens por FC Porto B, FC Porto (Dragon Force), Valadares Gaia FC (feminino), AD Sanjoanense e EF Hernâni Gonçalves, desde 2016 que se encontra na China, de momento num projecto de formação ao serviço do Zhichun FC. A página/o blog "Bola na Árvore" são reflexões de quem vai à procura da essência do jogo, da formação, do treino e da vida que se manifesta no futebol... na busca incessante vai-se aprendendo.

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