(Sub-momentos) Saída do GR + Criar Espaços vs Pressão Alta

Manchester City e Liverpool ultrapassaram os 90 pontos (92 e 91, respectivamente) a faltar 2 jogos para o final da Premier League. Nunca antes isto tinha acontecido em mais de 100 anos de história da Liga Inglesa.

O Liverpool tem obrigado a que a forma de jogar do City e a mentalidade/certeza para o fazer se transcendam – nos jogos entre eles, onde os limites do possível são testados num jogo só e também pelo elevar da fasquia pontual que faz com que toda a época seja disputada no limite.

Os Reds forçam o erro (sem bola) e aproveitam qualquer deslize para chegar à baliza contrária de forma vertiginosa no pós roubo. Parece-nos que a seguir à ausência de um entendimento do jogo que me permita alongar o tempo e o espaço para agir com a bola e do trato da mesma, é o Liverpool a causa que mais limita as acções do portador pela sua pressão sufocante em todo o campo.

Assim sendo, nada melhor do que perceber aquilo que orienta as saídas do Guarda-redes/”Criação de Homem Livre” num grau de extrema dificuldade – não se trata de memorizar os caminhos e colá-los numa outra equipa, o propósito é antes perceber e dominar a arte dos princípios que orientam a escolha dos caminhos e que permitem os tais ganhos de espaço, que parecem prolongar o tempo de quem procura dar segurança à bola e em simultâneo provoca a criação de espaços para progredir.

Esclarecer que a “diminuição do risco” não tem nada que ver com “evitar o passe para determinadas zonas pré-estabelecidas” (isso seria o tal memorizar e estereotipar dum jogo que pode muito bem ser desenvolvido). A diminuição do risco implica a busca da perfeição nos posicionamentos, no 1º toque, na orientação dos apoios, no ver tudo antes de receber a bola, no controlo dos adversários próximos (percepção de onde vem a pressão), a segurança é dada por tudo isto que é individual e colectivo ao mesmo tempo, porque a criação de soluções para que a bola possa (por exemplo) andar “de Primeira”, quando assim tem de ser, é promovida pelas soluções de passe que os meus colegas me dão. O risco é relativo, porque dependerá do estarmos ou não preparados para enfrentar os problemas, não é arriscado se for contextualizado e suportado no tentar criar as condições ideais para poder ter a bola, para a levar ao longo do campo até à outra baliza e para finalizar.

Neste momento importa que a bola saia controlada (muita gente usa o termo “limpa”) desde trás e com segurança para criar/procurar espaços que nos permitam caminhar para zonas cada vez mais próximas da baliza adversária, porque queremos estar o maior tempo possível longe da nossa baliza e a criar espaços perto da contrária. Perceber também as vantagens que possam existir em colocarmo-nos em zonas mais avançadas com um passe longo, assim haja vantagem (possibilidade de manter a bola sob-controlo).

Detalhes individuais essenciais (alguns já referidos acima): orientação de apoios, passes que ajudem o receptor (de várias maneiras), dar tempo com bola para que as soluções/opções que dividem o adversário surjam, pedir a bola no momento exacto (perto ou longe) em função da pressão, sempre que possível disposição para jogar de primeira (disposição tanto de quem se desmarca para receber como de quem passa), ver tudo antes de receber é aquilo que me permite antecipar o que pode acontecer e ajustar a minha posição (no campo e do corpo), ver enquanto estou com bola permite-me ajustar em função do aqui e agora às mudanças que decorrem a cada segundo de jogo, o engano que é a mais velha arte de prolongar o tempo e nunca irá deixa de ser fundamental para que haja segurança e controlo (ainda que o pânico e o desconforto da pressão nos tenham feito acreditar que é uma perda de tempo e é demasiado arriscado).

O “Primeiro passo” é escapar à primeira linha de pressão mantendo a bola sob-controlo. Para isto tem que haver uma equipa “aberta e profunda” para provocar uma espécie de efeito espelho no adversário e assim criar espaços através das possíveis trajectórias da bola e dos “corpos” (jogadores) que também atraem adversários. Aliás é na conjugação de Espaços, Bola, Posição (de cada um de nós), Timing (certo)… que vamos criando caminhos para progredir.

A disposição por vezes pode ser a dos slides, por vezes pode ser outra, naquilo que aqui pretendemos fazer, o verdadeiramente importante é perceber as intenções/princípios por detrás das dinâmicas e dos “desenhos momentâneos” (frames).

Não é perfeito e o risco existe sempre. Mas ele existe independentemente da forma. Arriscar faz parte do jogo, uns arriscam a chutar prá frente outros arriscam desta maneira. A segurança vem com o desenvolvimento das dinâmicas e de cada jogador… no treino. No fundo, segurança e risco é algo que se quer constantemente no jogo.

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João Baptista
Sobre João Baptista 19 artigos
A paixão por Futebol conduziu-o até à FCDEF (Universidade do Porto), onde o Professor Vítor Frade viria a ser uma grande influência na busca constante da essência do jogo e do treino. Com passagens por FC Porto B, FC Porto (Dragon Force), Valadares Gaia FC (feminino), AD Sanjoanense e EF Hernâni Gonçalves, desde 2016 que se encontra na China, de momento num projecto de formação ao serviço do Zhichun FC. A página/o blog "Bola na Árvore" são reflexões de quem vai à procura da essência do jogo, da formação, do treino e da vida que se manifesta no futebol... na busca incessante vai-se aprendendo.

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