(What’s the Story) Afternoon Glory!

Uns gajos do City, uma banda de Manchester, um álbum gravado perto de onde o gajo que faz o trocadilho com o título vos escreve. Daí se ‘estuda’ a realidade britânica, a mesma que estenderia a passadeira às ideias de Pep, aos milhões do City. Porque sim, porque queríamos, porque gostávamos, porque se enquadra na narrativa e numa coisa muito portuguesa: a hegemonia e continuidade no tempo de uma ideia ‘superior’. Contudo, é ao ver este Liverpool jogar – este Liverpool que deu tempo a Klopp – que mais fica a sensação de os outros não existirem. De facto, é tão gritante a superioridade que é difícil não pensarmos que tudo começa aí: na reação do adversário a um futebol que em todos os momentos o estrangula, o domina impiedosamente.

Mas não começa. Também não começa com a táctica, ou a estratégia. Aliás, nos tempos vindouros surgirão ‘n’ tentativas de os recriar. E falharão porque não se adequam ao espaço e tempo, à identidade e características dos jogadores. Falharão porque a tentativa de imprimir um modelo, uma ideia de outrém, a uma realidade distinta, sem ter em conta as características específicas da cultura, da cidade, do clube, da história, dos jogadores, só encontrará felicidade num estúdio de TV, numa coluna de jornal. No campo, onde tens que encontrar a ideia adequada ao que tens, essa é uma realidade ficcional. Assim, faça-se como Klopp. Não se copie e cole. Crie-se.

E que criação. Gigante em todos os momentos tombou mais um obstáculo a um desejo de 30 anos. E este, mentalmente, seria aquele que mais mossa poderia fazer ao controle emocional dos reds. 9 jogos de Klopp com o United, uma só vitória. Mas não é por acaso que os Adamastores mentais caem agora todos aos pés de Klopp. É no compromisso e na intensidade gerada que tudo começa. E depois de 10 minutos onde o United deu um ar da sua graça, a mais valia do Liverpool nos duelos roubou a bola. E o controle assertivo da mesma levou-os para onde mais gostam de estar: meio-campo ofensivo.

Não. Esta não é mais a equipa que podia sentar-se e esperar para matar em transição. Dá ideia que ainda assim podia fazê-lo. Esta não é (só) uma equipa que podia baixar o bloco e ainda assim não consentir, esperando por um bola parada para resolver. Dá ideia que ainda se o fizesse, ganharia na mesma. Esta é uma equipa que tudo faz quando o tem que fazer. E ontem, quando meteu o maior rival no colete-de-forças que é Anfield Road, foi em ataque posicional que controlou a maior parte do jogo. E para isso, emerge a assertividade dos médios mas também o joker Bobby Firmino. Da confusão que ele cria surge tempo e espaço para Salah e Mané mostrarem quem manda hoje na Europa e no Mundo. É ver e rever os golos (bem) anulados à equipa de Klopp para se perceber essa superioridade. Já o golo que valia é a analogia perfeita para essa mesma, tão falada por aqui, superioridade. Bola alta, vinda de um pontapé-de-canto, para onde só um poderia chegar. Virgil van Dijk, a fazer lembrar os cantos do Porto de Jesualdo que encontravam invariavelmente Bruno Alves.

Incrível como Firmino abre espaços via posicionamento e qualidade na decisao

Sobre o (golo) que contava, e os que não contaram, conta-se também a história de uma pergunta agora recorrente em Anfield: quem por lá conseguirá sair a jogar? O United não, de certeza, tal a ferocidade com que foi, de novo, engolido no meio-campo ofensivo dos reds. De Gea para aqui, De Gea para lá e superioridade incrível não materializada em golos. Seria pois em transição (já depois de os red devils terem querido testar a falta de vergonha de um jogo de futebol – Martial poderia mesmo ter empatado) seria em transição, dizia, que Salah recolocaria justiça (o que quer que isto seja) no marcador. O Liverpool mata-vos de todas as maneiras. Não quer tornar o jogo propício para uma só. Joga o que o jogo lhe pede, fá-lo melhor que qualquer outro. Sim, começa na identidade. Na certeza do que realmente são: uma equipa preparada para tudo o que o jogo lhe traga. Ganharia em 442, em 352, pressionando com 3 na frente ou esperando com duas linhas de quatro. This is football, e isso é tudo menos uma ideia perfeita num campo mental onde a surpresa não existe. O Liverpool é tudo aquilo que gostaríamos de ser mas que não estamos preparados para. O Liverpool não chora, o Liverpool não amua, o Liverpool não culpa. O Liverpool joga. Que se farta!

Liverpool-Man Utd, 2-0 (VvD 14′ e Salah 90’+3)

1 Comentário

  1. Klopp did it again!

    Para mim nao tao romantico como o seu extraordinario Dortmund, onde criou uma super equipa nas costas de miudos desconhecidos, que evoluiram durante 3 ou 4 anos nas suas maos, ate chegar ao topo da Europa, depois de quebrar a hegemonia do Bayern!

    Agora faz o mesmo, mas com mais dinheiro, e com possibilidades de chegar a outro tipo de jogador! Mas claro…é a Premierleague! Sem dinheiro nao tinha hipotese… mas na mesma rescuscita um gigante adormecido, que ate a sua chegada estava a anos luz dos rivais!

    Para mim é o melhor! É o melhor, porque nao escolhe o mais facil, como por exemplo faz o “super guardiola”. Escolhe o mais romantico, e transforma lo em rock n roll!

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