Variabilidade tática de um modelo de jogo

Nas últimas semanas temos assistido a várias iniciativas de valor, onde treinadores profissionais aceitam convites de diferentes projetos e organizações para falarem um pouco do seu percurso e das suas ideias, modelos e experiências como líderes de um grupo. O tema da metodologia de treino tem sido recorrente, tal como o impacto e a visão sobre o lado estratégico do jogo (que não se sobrepõe ao modelo da equipa, mas que altera nuances desse modelo para constrangir e causar dificuldades ao seu adversário). Um dos treinadores que recentemente falou desse aspeto foi João Tralhão, que recentemente partilhou o palco com André David e Pedro Bouças na Quarentena da Bola. Pegando no Leipzig como exemplo, João Tralhão disse que “o Leipzig é uma equipa que altera a estratégia de jogo para jogo mas não muda a ideia de jogo. E é nisso que eu acredito. Não alterares os teus macro princípios, mas mudares algumas dinâmicas em função do adversário.”

Um exemplo muito acertado e que se foca num aspeto que vem ganhando cada vez mais importância no futebol de alto rendimento. Tendo em conta o desenvolvimento tático do futebol e o maior equilíbrio entre as diferentes equipas nesse aspeto do jogo, as equipas têm cada vez uma maior variabilidade de opções e vertentes táticas trabalhadas, e muitas delas acabam por limar arestas estratégicas semanalmente dependendo do adversário com quem jogam.

Num momento onde quase não existe futebol a ser disputado, é uma boa altura para recordar a excelente campanha da Bélgica no Mundial 2018. A equipa orientada por Roberto Martínez chegou até às meias-finais, onde perdeu com a França que se viria a sagrar campeã. Para além da qualidade individual de Courtois, Vertonghen, Witsel, Kevin de Bruyne, Hazard ou Lukaku, a seleção belga surpreendeu pela sua ideia coletiva e pela maneira como Roberto Martínez se superou aos seus adversários jogo após jogo, com detalhes táticos interessantíssimos que iam sendo alterados dependendo do seu adversário, mas sem nunca abdicar do seu modelo e ideias base. Comparando os jogos dos oitavos-de-final frente ao Japão com o dos quartos-de-final frente ao Brasil, essas alterações são bem visíveis e acabam por ganhar ainda mais importância sendo uma competição curta e numa fase a eliminar.

O sistema base da equipa em Organização Ofensiva manteve-se (1x3x4x3), mas as peças alteraram-se para explorar algumas lacunas do Brasil. Lukaku posicionou-se na ala direita para explorar o espaço nas costas do lado de Marcelo, Coutinho e Neymar, enquanto Kevin de Bruyne jogou como falso 9, não dando quaisquer referências aos centrais do Brasil. Em organização defensiva, Chadli, que foi quase sempre um ala esquerdo a defender o corredor neste Mundial, posicionou-se em zonas centrais junto a Witsel e Fellaini, igualando os 3 homens do Brasil em zonas frontais no último terço (Coutinho, Paulinho e Neymar, que vinha da ala para zonas interiores).

Relacionando com as declarações de João Tralhão, a Bélgica soube, através do seu modelo coletivo e praticamente com os mesmos jogadores, mudar algumas dinâmicas que se tornaram fulcrais para a vitória neste jogo, condicionando o adversário mas sempre valorizando o “Eu” e os seus princípios acima de tudo. O posicionamento interior de Chadli a defender ou a colocação de Lukaku na ala direita não alteraram a natureza da equipa, mas criaram mais dificuldades ao adversário e aproximaram a Bélgica da vitória.

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Sobre RobertPires 2 artigos
Rodrigo Carvalho. 23 anos, experiência como treinador adjunto e analista em equipas séniores em Portugal e nos Estados Unidos. Passou pela Federação de Futebol dos Estados Unidos no departamento de Formação de Treinadores. Em colaboração com a Proscout, trabalhou diretamente com equipas técnicas profissionais e produziu relatórios de jogadores. Podem seguir muito do seu trabalho em @rodrigoccc97 no Twitter.

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