Weigl, o farmacêutico

Sejam bem vindos a mais um episódio de Bruno Lage: For Better or Worse. Série inspirada no excelente documentário da colecção 30 for 30 dedicado a Dennis Rodman, no qual, já perto do final, somos convidados a fechar os olhos e a imaginarmo-nos no céu, acima de todas as nuvens, do daily-grind e de todos os temores humanos. E se Rodman, a dada altura aí esteve, também Bruno Lage subiu ao céu de forma fantástica e (teremos que o dizer) inesperada. Ainda que não entrando no stunt de se vestir de noiva, Lage experimentou que, ganhando, bem pode dizer o que lhe apetece, como lhe apetece e, mais importante, fazer no onze, ou na estratégia as alterações que lhe apetecerem. Mas, tal qual a inesperada cavalgada até ao céu, também a descida foi retumbante. Longe de esperar tal cambalhota emocional, Lage entrou na época com a onda vermelha em grande efusividade. Mas mal ele sabia que tudo o que disse e, mais importante, tudo o que fez se haveria de virar contra ele. Na hora dos dez jogos sem conquistar o esperado, a outra face da moeda do sucesso (que outrora enalteceria até Lage vestido de noiva numa conferência de imprensa) desta feita criticaria tudo o que mexe. A postura, o fato-de-treino, o discurso, os jogadores, a estratégia. No meio do turbilhão, Bruno Lage soube esperar por Weigl no Estádio dos Arcos e por uma vitória que lhe tira o bafo do tsunami encarnado de cima. Até ao próximo jogo.

Mas para lá chegar, Bruno Lage experienciou novamente que esticar este Benfica para meter fortemente a mão no jogo e segurá-lo é bastante difícil. Olhe-se para o Rio Ave-Benfica como exercício disso mesmo e repare-se que o técnico é contra o que se passou na segunda metade do jogo de Portimão. E qualquer pessoa que se dedique ao futebol (até só como adepto) também o seria. Mas o Benfica recuar linhas para se defender de não conseguir retirar dividendos de pressionar as saídas-de-bolas adversárias já é um filme bem antigo. Lage garantiu-o na antevisão e levou a ideia para os Arcos. O Benfica aparecia esticado e a não querer recuar, e o resultado foi o Rio Ave a conseguir encontrar soluções para mandar no jogo. Saíndo curto e passando (umas vezes facilmente, outras com tumulto) pelas linhas (imaginárias) que o Benfica desenhava, Carvalhal viu o seu plano levar vantagem ao do seu outrora sidekick de Sheffield e Swansea. Para lá chegar, Carlos arrisca e viu, por isso mesmo, o Benfica chegar às (únicas) oportunidades por aí (alguns roubos de bola no meio-campo ofensivo) mas o lado positivo da moeda ofereceu minutos de grande controle rioavista, numa demonstração de personalidade que o 523 defensivo aguentava, e o seu 343 ofensivo criava.

Taarabt cria a partir da linha o ‘golo’ que Rafa veria anulado aos 42′



Um berbicacho que, com o golo de Taremi a carimbar o positivo momento dos da casa, previa mais uma descida de Lage ao inferno das expectativas encarnadas. E dizemos expectativas porque o que cria a frustração é exactamente a realidade não as acompanhar. E por alguma razão, na cabeça da maioria dos benfiquistas, anda a perigosa ideia de que o Benfica é rei e senhor do futebol em Portugal e que por causa dessa hierarquia artificial não pode ter momentos menos positivos. Pois bem, à custa disso qualquer crise de resultados na Luz se tem prolongado até levar o treinador. Se com Rui Vitória o desconforto passou da mente às bancadas depois de uma derrota em Amsterdão, com Bruno Lage a onda deixou de lhe dar a mão depois da derrota com o FC Porto em casa. Estava criada a dúvida, estava feita a ponte para a contestação e a fenda por onde os jogadores haveriam de passar a duvidar de si próprios, trocando o caminho positivo feito na época anterior, para uma inacreditável espiral negativa que (pelo menos em termos de resultados negativos) encontrou pausa, esta quarta-feira em Vila do Conde.

Rio Ave não abdicou dos 5 defesas após a expulsão. Algo que não impediu o golo de Seferovic


E se a confiança exacerbada que fez os jogadores parecerem super-heróis, e Lage um génio que podia fazer o que lhe apetecesse, fosse de repende trocada por uma dúvida existencial que hiperboliza falhas que afinal já existiam? Assim, está hoje evidente que nem no céu, nem no inferno. O Benfica, desculpem, não só não era a oitava maravilha, como hoje não será uma equipa que não consegue mandar na maioria dos jogos que joga, seja por incapacidade física, seja por incapacidade nos duelos, seja pelas escolhas dos jogadores que tanto irritam os adeptos (quando se perde, os que não jogaram são sempre os melhores). O Benfica de Lage continua com muito para se ver do ponto de vista estratégico e com mudanças de jogo para jogo (mais gente à frente na zona defensiva nos cantos; Taarabt a descair para a ala servir entradas na área) mas o estado mental, emocional e físico dos jogadores tanto hiperbolizará um bom momento, como um mau. E este mau momento do Benfica teve, pelo menos, uma pausa quando Musrati foi expulso por acumulação de amarelos (63′). Num esforço de domínio (sim, é sempre assim com este Benfica) que já havia começado no reatar, o golo de Seferovic (depois de boa combinação de Gabriel com Nuno Tavares) fez acender uma chama que o 531 (com dez) e o 431 (já com nove e com a linha média a dançar) do Rio Ave não haveriam de poder resistir. Foi Weigl, o farmacêutico, que transformou o ‘H1N1 Gripe do Ave’ numa estirpe bem mais controlável – o H1N2 – que permite aos encarnados apanharem um adversário que se esqueceu do Tamiflu noutro aviário.

Rio Ave-Benfica, 1-2 (Tahremi 27′; Seferovic 64′ e Weigl 87′)

16 Comentários

  1. Nem sei que diga deste post. Nem parece saído do “lateral esquerdo”. Mais valia fazerem um post amanhã ao acordar com mais calma. “E por alguma razão, na cabeça da maioria dos benfiquistas, anda a perigosa ideia de que o Benfica é rei e senhor do futebol em Portugal e que por causa dessa hierarquia artificial não pode ter momentos menos positivos.” Não lateral esquerdo, essa “hierarquia artificial” foi conquistada por mérito de grandes jogadores que passaram pelo Benfica. Essa “hierarquia artificial” está estampada nas camisolas benfiquistas em dourado que diz lá “Campeão Nacional”. O Benfica é o clube português com mais campeonatos e taças por isso a hierarquia foi conquistada com suor de grandes jogadores que passaram pelo clube, não foi algo criado na cabeça dos benfiquistas. Cumps.

  2. Podias citar tudo acabando com “e que por isso não pode ter momentos negativos”.

    Mas obrigado por confirmares a ideia 🙂

    • Pode como é óbvio ter momentos negativos porque é futebol, mas o que está em causa é a “hierarquia artificial criada na cabeça dos benfiquistas” sitada no texto. O Rio Ave é um clube com historial de fazer os grandes jogar feio e passar por apertos mas acho que os benfiquistas estão no direito de exigir um futebol melhor que não este de hoje. Um momento negativo que dura há 11 jornadas acho que não é só um momento.

      • Devia perceber-se bem que ninguém aqui põe em causa a história do Benfica ou os grandes jogadores e equipas que as fizeram, como devia perceber-se que quando começa uma época isso não conta para nada.

        E não o digo só dos benfiquistas. Seria como os portistas a quererem ganhar a Champions em 2005 (e acredita, não eram poucos). A questão é que a hierarquia artificial (e não a que contabiliza os títulos oficiais) criou uma ilusão prejudicial a esta equipa e a este treinador. O Benfica, mesmo ganhando 5 títulos em 6 anos, nunca foi tão superior ao ponto de os adeptos lhe pedirem que jogue contra ‘ninguém’. E isto é uma coisa que se vê muito bem, mas que para um adepto se torna difícil de aceitar. Pode ser que um dia me dês autorização para escrever sobre isso no Lateral Esquerdo pois ao que parece és tu o editor-chefe :p 🙂

  3. A sério, como se pode achar que a reação dos benfiquistas a retirar a confiança ao Lage depois de 1 vitória em 10 jogos é despropositada. O Benfica foi dominado e não criou nada contra o portimonense e foi completamente engolido contra o rio ave. É suposto isso acontecer?

  4. Brian, tu, para mim, és o melhor escritor do lateral esquerdo. Gosto muito dos teus textos, da forma como escreves e das mensagens que vais transmitindo. No teu texto, vais referindo que o Benfica de Lage nao sabe (e eu “li” que nunca soube) controlar os jogos. Acredito que assim seja, mas como explicas a sequência incrível de 30 e tal vitórias em 30 e tal mais 2 jogos? Foi só a “onda vermelha”? Não acredito que os defeitos deste ano não fossem já visíveis no ano passado. Foi só a crença, a vontade, a superação que fizeram o lage do ano de 2019? Obrigado

    • Obrigado pelos elogios, Sérgio. O LE é uma grande equipa, eu sou só mais um que tem o privilégio de aprender todos os dias com esta rapaziada.

      Não acho que seja só crença, mas se repararmos não é a primeira vez que acontecem no Benfica estas oscilações (em todo o futebol mundial há casos).

      A questão que tento levantar é que nos dias que correm dá-se primazia total à táctica. Seja modelo, seja estratégia para afinar, dá ideia que metes lá onze e eles com a melhor ideia resolvem. Ora, eu tento demonstrar que não é bem assim. Como disse, o momento bom de uma equipa pode hipervalorizar um modelo. Neste momento, no Benfica, acontece o contrário. E isso surge quando a dúvida começa a entrar na cabeça dos jogadores e treinadores. O caso do Benfica e o 8 ou 80 é paradigmático.

      O problema é que hoje, para chamar a atenção, os analistas se vão esquecer do que não compreendem, e vão continuar a falar de meter outros quando estes não renderem, ignorando por completo o momento mental e emocional.

      • Brian eu concordo em certa parte contigo, muitos Benfiquistas que se calhar pensam que é chegar e ganhar. Se quero que o Benfica nunca perca em casa com o Porto? Pois quero! Se sei que isso não acontecerá sempre? Sim sei, o problema é como o jogo corre e por vezes és completamente dominado por uma equipa com a qual deveríamos de dividir o jogo.

        Agora o Benfica desperdiçou 7 pontos de vantagem… Não é por perder com o Porto ou até mesmo perder pontos com o Braga que a equipa pode entrar numa espiral tão negativa. Nem a equipa nem o treinador. Eu pergunto, é 9 Weigl escolha do treinador? Não parece pelo facto de não o utilizar o tipo de jogo que esse jogador pede. Ou pior se pretende que a equipa jogue de forma diferente às características do Weigl também não se pode contratá-lo porque não vai de encontro aquilo que o treinador pede. Eu ultimamente olhando para os jogadores que o Lage coloca em campo ainda não percebi o que ele quer. Quer posse? Correria? Pressão? Sei lá não se vê nada nesse sentido. E como explicas uma equipa passar assim a uma falta de confiança tão grande? Pelo comportamento dos seus adeptos? Até acredito que sim, mas então no primeiro jogo pos paragem devido ao covid, não deveriam de apresentar outra motivação e confiança? Não havia adeptos no estádio… A merda que aconteceu depois não irei comentar, já tudo foi dito sobre isso. A mim preocupa-me a aleatoriedade que agora se tem quando se enfrentam Tondelas ou Portimonense com todo o respeito. Jogos na vial das Aves já se sabe que são complicados, mas em casa e contra equipas que lutam para não descer já é mais difícil de absorver.
        É se me disseres o que lutam para não descer agora vão lutar ainda mais para nao descerem, se assim for, porque não lutam assim desde o início? Os candidatos à descida são crónicos.

        Fala-se na qualidade do plantel e bem, mas não continuamos com um plantel acima da média para a liga portuguesa? Tendo em conta o estado dos outros? Acho que a contestação é mais por aqui.

  5. Achas que é a hierarquia artificial que prejudica o treinador e a equipa ao ponto de em 10 jornadas conseguirem uma vitória? Acho que não é por causa disso, aliás no lateral esquerdo já enumeraram aqui as razões disso acontecer. Acho que é normal os benfiquistas ao fim de 11 jornadas (no mínimo) a jogar um futebol miseravel pedirem um futebol que consiga ganhar a adversários inferiores mais facilmente, acho isso legítimo. Não o editor está a fazer um grande trabalho com o lateral esquerdo apenas como consumidor estou no direito de discordar do que é escrito e nem me meto no que se escreve aqui na parte mais táctica do jogo porque nisso vocês são expert na matéria. 🙂

    • Eu expliquei. A hierarquia artificial cria uma expectativa ilusória. Quando a realidade não se adequa a essa expectativa entra a dúvida. Quando tens jogadores e modelo em dúvida, as partes más do modelo são hiperbolizadas – como antes, em cenário contrário foram as boas que se hiperbolizaram.

      Não é simples?

      • Procura o meu post antes deste. Se jogaste Pro Evolution na playstation vais entender :)))

        Obviamente não é igual mas dá para entender. Abraço

  6. Caro Laudrup,

    Bem sei que andamos sempre a tentar arranjar responsáveis, mas a questão essencial para o adepto-leigo, como eu, é a de saber se, na vossa opinião:

    (1) O modelo de Bruno Lage é adequado para os jogadores que tem?
    (2) As escolhas de quem joga, tendo em conta o modelo, são as correctas (bem sei que só quem os treina é que pode realmente responder, mas qual é a tua opinião)?
    (3) Sendo adequado, está bem trabalhado do ponto de vista táctico (a tal operacionalização no treino de que fala o Jesus com a empáfia que o caracteriza)?
    (4) Do vosso ponto de vista, o que é que falta, em termos tácticos e técnicos / pode ser melhorado (para além da questão anímica)?
    (5) Finalmente, na tua opinião (e sublinho “opinião”), a situação actual resulta da necessidade do Lage de melhorar como treinador (incluindo escolha do modelo, operacionalização, discurso, etcetera), dos jogadores não estarem a dar o necessário (por razões que só eles conhecerão), do plantel ser, em geral, bastante fraquinho, ou all of the above?

    Resumindo: onde é que está o problema?

    Obrigado de antemão,
    João

  7. Acho que todos se estao a esquecer de algo importante. A tática nao mudou, o treinador também nao, as ideias de jogo sao iguais… o que realmente mudou foram os jogadores.

    Vamos por partes: todos nos lembramos do 5×0 ao Sporting e Paços no início da época, certo? O Benfica com uma dinamica incrivel, com Pizzi no seu melhor, Rafa retumbante e Ferro dono e senhor da defesa.

    Mas a partir do momento em que:

    1- resultados na Champions desiludiram (nomeadamente Lyon e Leipzig fora)
    2- o Benfica perde no Dragao (aumento da contestaçao dos adeptos)
    3- lesao ocular do Gabriel

    A equipa perdeu confiança. Isso ficou bem patente num jogador: Ferro. Era provavelmente o central mais sereno em campo, quer na tomada de decisao no passe, quer na contençao ou ataque à bola, posicionamento fantástico… marcou 2 auto-golos seguidos, e foi tudo por água abaixo. A partir daí começou a notar-se um problema maior… Grimaldo. Com Ferro a nao apoiar, a ser fracos nos duelos, Grimaldo ficou exposto como nunca antes. Daí a necessidade de mais tarde colocar Cervi, aquando a lesao de Rafa, para poder apoiar o lateral esquerdo.

    A saída de Gabriel do 11 foi também impactante. É ele o homem mais importante na transiçao defensiva, ponto. E mesmo estando em baixo de forma, precisa de jogar para recuperar. Taarabt pode ser um médio criativo e desbloqueador, mas defensivamente, deixa muito a desejar. Embora tenha raça e procure o combate físico, nao consegue nunca estar no sítio certo e ler o jogo do ponto de vista posicional.

    Com o regresso de Rafa, para mim um erro capital de Bruno Lage: colocar o Chiquinho no banco. Embora nao renda em termos de golos, é ele, Chiquinho que liga o jogo ofensivo do Benfica em todos os momentos. Seja em drible ou com uma simples recepçao orientada, é ele, Chiquinho que fazia a diferença. Muito à semelhança de Félix do ponto de vista técnico, mas sem o faro goleador (que pode ser evoluído e treinado). Vinícius recentemente deixou de marcar, parece que perdeu forma física e nao marca há 5 jogos ou mais.

    E Rafa, o outrora chamado de “dínamo” do Benfica, apagou-se com a equipa e com ele… Pizzi. Repare-se no número de golos que ambos produziram no início da temporada. Assistiam e marcavam entre si. Rafa desapareceu, pois sabemos que é um jogador inconstante e débil do ponto de vista físico. Pizzi, está com 31 anos e nao pode andar em correrias pela ala direita, tirando acutilancia ao jogo. André Almeida nao é o lateral que se pede para dar a profundidade à ala, mas Tomás ainda está muito maduro do ponto de vista defensivo.

    Agora perante isto, digam-me, o que pode Lage fazer? Alterar um sistema inteiro que deu sucesso na temporada passada? Retirar um jogador como o Pizzi que marca ou assiste todos os jogos embora erre passes que dói ver? Sentar Rafa que é o único desequilibrador nato na equipa? Tirar Gabriel que é o homem mais importante na transiçao defensiva e ofensiva? Colocar Samaris que coordena bem a defesa a jogar como trinco e sentar Weigl que custou 20 milhoes e é notoriamente um jogador diferenciado? Sentar Taarabt que tem sido dos melhores em campo em todos os jogos? Retirar Ferro quando a única opçao é Jardel que se lesiona a cada 90 minutos em campo? Sentar André Almeida que é o único capaz de dar consistencia defensiva?

    Sao todas estas questoes que deviam ser feitas pelos adeptos do Benfica, porque quando nao joga Samaris e o Benfica perde, a culpa é do Lage. O mesmo se passa com Cervi, com Chiquinho, com Taarabt.

    Sendo eu agora treinador de bancada, deixou aqui o meu onze para defrontar o Santa Clara:

    Ody
    André
    Rúben
    Ferro
    Nuno

    Weigl
    Taarabt
    Chiquinho

    Pizzi
    Vini
    Rafa

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