Ramos, o atirador furtivo

FUTEBOL - Goncalo Ramos no Desportivo das Aves - Benfica, jogo da 32 Jornada da PRIMEIRA LIGA 2019/2020. Estadio do Clube Desportivo das Aves, na Vila das Aves. Terca Feira, 21 de Julho de 2020. (Eduardo Oliveira/ASF) DESPORTIVO DAS AVES BENFICA

Estreou-se na equipa principal e em poucos minutos somou dois golos.

Gonçalo Ramos cresceu como médio centro. Interior no 4x3x3 que é apanágio na formação dos encarnados. Desde sempre se destacou pela sua capacidade goleadora – O número de golos que somou em todos os escalões que foi percorrendo no seu percurso formativo foi sempre um registo impressionante. Passada muito larga, capacidades condicionais (físicas) muito desenvolvidas, foi durante um largo período um box-to-box cuja chegada às grandes áreas adversárias deixava mossa, precisamente pela mestria a finalizar.

Por tal característica e talvez porque tecnicamente e até do ponto de vista criativo nunca pareceu ser um jogador capaz de impactar de igual forma em zonas de criação, na fase terminal do seu percurso na formação surgiu como um falso nove, que cada vez mais se foi transformando num nove real.

Melhor Marcador do Europeu de sub19 onde pontificaram Fábio Vieira e Vitor Ferreira – Europeu onde o também benfiquista Tiago Gouveia marcou o golo do torneio, Ramos “especializou-se” na hora de atirar à baliza, e nos movimentos que realiza para ai chegar.

O atirador furtivo da formação encarnada marcou na presente temporada nos sub19, sub23, equipa B e agora Equipa A.

Na próxima temporada retornará à Segunda Liga, para procurar confirmar o potencial que tem para se tornar o homem do último toque das jogadas encarnadas, e quem sabe mais tarde não se tornará no Avançado que o Benfica não forma à décadas. Ele que sempre foi um médio.

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4 Comentários

  1. Pergunta: O que é que faz um jogador ser um bom finalizador?

    Não acredito que seja só “capacidade técnica”, porque há jogadores que técnicamente nunca foram excepcionais que eram maquinas goleadoras (Jardel é o exemplo clássico, mas Bas Dost é outro). É algo no enquadramento psicológico? Há uma componente táctica (movimentações) inata? É uma questão motivacional (na procura constante de posição que permita estar disponível para finalizar)?

    Do que conheço do jogo, um “ponta-de-lança”, um “homem-golo” é quase um misto de arte e técnica. Não se constroem jogadores goleadores. Parecem ter que ser talentos natos para aquela função especifica, sendo que, ao contrário dos Génios, o conjunto das suas capacidades não é, necessariamente, centrada na relação dos pés com a bola, mas sim com o “momento” da finalização.

    • Pegando no exemplo de Cristiano Ronaldo como goleador, em que cresceu nesta componente numa fase mais adiantada da carreira, não me parece que a questão inata seja a única explicação. A questão mental parece-me essencial, dado que em muitas situações o ponta de lança tem de resolver a um toque (seja passe, seja a finalizar), pelo que a questão da confiança e coragem para expor ao risco de falhar é evidente. Sobre o posicionamento, existe a questão tática de se enquadrar naquilo que lhe é pedido pelo treinador, em função do modelo de jogo e eventual estratégia para um dado jogo, bem como a questão da escolha de espaços a pisar no momento específico da finalização, de acordo com o comportamento da defesa adversária e com a previsão de como os colegas o irão solicitar. Pegando no caso do Jardel, creio que, para além da questão mental da confiança, associava-se uma grande capacidade de coordenação visual e motora para responder rapidamente com o corpo (deslocação para espaço e posicionamento motor) ao estímulo da bola a sair do pé do colega ou a atravessar o espaço, para além das equipas onde de jogava tenderem a adaptar-se ao seu jogar, para lhe retirar o máximo potencial, seja ao nível do tipo de bolas que lhe endossavam, seja na opção por uma construção que não implicasse obrigá-lo a correr metros com a bola no pé, onde era muito fraco. No basebol existem estudos que identificaram esta questão da importância da acuidade visual para a planificação da resposta motora (https://journals.lww.com/optvissci/Fulltext/2018/07000/The_Hand_eye_Coordination_of_Professional_Baseball.2.aspx), contudo, pela variabilidade de posicionamento do futebol, creio que não seja possível comprovar cientificamente com tanta facilidade esta relação. Pode-se, contudo, levantar a hipótese que a questão inata não seja a única razão de diferenciação. Há toda uma componente de interação com o ambiente, essencial para o cérebro potenciar uma eventual estrutura cerebral mais predisposta para uma boa coordenação óculo-motora, pelo que a repetição de certos estímulos poderá reforçar estas conexões. Creio que, em atletas de alto rendimento, cuja exposição ao estímulo e treino de finalização será elevada, e o menos aptos fisicamente já não sejam atletas profissionais sequer, o principal fator de diferenciação seja mental. Tocar na bola, muitas vezes, apenas a um toque em zonas de decisão/julgamento implicará uma pressão extra e a ideia, por vezes errada, de que “o avançando vive de golos” é mais um reforço dessa expectativa e consequente pressão.

      • obrigado pela resposta.

        Esta questão do “ponta de lança no momento do remate e a sua vida entre a angustia ou êxtase” é uma das que mais me fascina no futebol. É que parece uma área ainda pouco entendida na ciência desportiva. Se fosse seria mais fácil perceber desde cedo quais os que se destacam pelas suas competências especificas para a tarefa e trabalhar de forma especifica nessa potenciação, porque a sua influencia no jogo é determinante.

      • Outro aspecto que quero ressalvar é como, mesmo quando definimos “a predominância do cérebro sobre o físico” no futebol, tantas vezes nos centramos na decisão, no processo racional e não no emocional e nas capacidades emocionais que o jogador tem de ter para as tarefas que queremos que desempenhe. Desligamos “razão” da “emoção”, até quando estamos a falar do órgão responsável pelas duas.

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