SOMOS UM (Eu), DENTRO DE UM TODO ou UM TODO, DENTRO DE UM (Eu)?

Comummente ouvimos que a ciência não é exata. Somos (nós, o Homem) biológicos e ecológicos, somos parte integrante e interdependente desta ciência…se a ciência é algo “inventado” por nós, a vida (toda e no todo) é imprecisa. Nunca há uma forma de estar ideal que nos permita afirmar, perentoriamente, “é assim que temos de agir”. Tudo tem o seu tempo, o seu lugar, a sua pertinência, a sua eficiência e a sua eficácia – “há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos que nos levam sempre aos mesmos lugares.” (Fernando Pessoa).

Qualquer organismo vivo, na funcionalidade da sua integridade (sobre)vive num paradoxo, num caos que procura o determinismo. Ou seja, o nosso Corpo detém uma capacidade de auto organização, necessitando imperativamente de um fluxo contínuo não linear, de matéria e de energia. A vida, constituída por um conjunto de organismos e matéria viva, mas também por matéria inorgânica, funciona numa (i)lógica de conexões para que esta seja sustentável e contribua para a sobrevivência do todo. Assim, vivemos de forma sustentável (respeitando a génese dos organismos vivos) se, tanto mais capazes formos, de nos recriarmos e acompanharmos a criatividade inerente a qualquer sistema  vivo. Atingir o ponto de “equilíbrio” é sinal de perigo, de falência do sistema.

Todos os seres humanos crescem, apreendendo um conjunto de valores e princípios inseridos numa cultura concreta. Construímos ao longo da nossa vida determinada(s) Crença(s) que nos levam a agir em conformidade com esta(s), perante a imensa diversidade de circunstâncias com que nos deparamos. Contudo, construímos a nossa realidade (pois possuímos algo que todos os outros organismos vivos não possuem, uma auto consciência e perceção de nós mesmos) sob um outra realidade maior do que a nossa, mesmo que, muitas vezes, não nos apercebamos dela – a realidade é maior do que a ideia!

O jogo e o treino têm em si estas duas faces da mesma moeda. Por um lado, o poder da modelação e corporização de uma crença que se quer comum e, por outro lado, a força que a realidade impõe, quando não nos adequamos a esta e, de certo modo, pretendemos sobrepormo-nos a ela – “o jogo pré existe à ideia que para ele se tem”(Vitor Frade). Qualquer Homem na sua vivência, assim como o Treinador no futebol, tem a sua identidade, a sua ideia de como pretende que as suas equipas se expressem em campo! Esta ideia é construída com base nas experiências que temos enquanto Homens e enquanto Treinadores: a procura constante de uma simbiose entre uma intenção prévia e uma intenção, que se quer, em ato (manifestada e balizada na ação, no treino e no jogo). Quanto mais a ideia for aberta, mais estará preparada para responder às necessidades circunstanciais com que esta se irá deparar. Seja com os jogadores que vamos treinar, seja com os adversários que vamos defrontar, seja com o lado natural de aleatoriedade (que não podemos ignorar!) do fenómeno complexo que é o jogo. Quanto mais construímos a nossa ideia até ao mais ínfimo pormenor, mais longe estamos de respeitar os jogadores e o jogo…

Carlos Carvalhal afirmou que a identidade das suas equipas é a flexibilidade, tendo como objetivo final, para além de potenciar o talento de cada um dos seus jogadores (dentro de uma intencionalidade comum), respeitar a “ordem” natural do jogo, o confronto com adversários e com as suas dinâmicas, na procura de desbloqueá-los.

No treino é onde o treinador tem o maior poder de modelação e construção de uma intencionalidade comum e sentida por todos (cada vez mais importante que todo o clube a sinta!). Através de exercícios (na maioria das vezes simples) podemos, por exemplo, condicionar uma equipa para defender mais perto da sua baliza, a meio campo ou mais perto da baliza adversária ou que uma equipa ataque de forma mais pausada ou mais acelerada, mais por dentro ou mais por fora. Premissa fundamental para sabermos como e o que treinar é sabermos como queremos que a nossa equipa jogue, com bola, sem bola, quando a perde e quando a ganha. O jogo de futebol faz emergir um padrão de manifestação do corpo de cada jogador, incita a adaptações e o nosso corpo responde, modelando-se e criando de uma forma eficiente, eficaz e harmoniosa (pretensão que, por vezes, pode não acontecer, pelo passado e presente de cada um) um padrão de funcionalidade (metabólico, biomecânico, bioenergético, bioquímico…o corpo como um todo envolvido interativamente). Contudo, o treinador deve ter conhecimento para entender que padrão o jogo contempla e que padrão o seu jogar irá potenciar e se existe concomitância entre estes! (se queremos que a nossa equipa seja de posse e pausada na procura do golo, mas não respeitamos as velocidades e sentidos do jogo, desviamo-nos do padrão funcional que o jogo exige, bem como, se queremos que a nossa equipa esteja em constantes acelerações para a baliza adversária, o problema mantém-se). Qualquer peixe que é criado em cativeiro cria adaptações no seu corpo e no seu funcionamento, consigo e com o meio que o rodeia (por exemplo, uma barbatana poderá ser mais desenvolvida que outra, por maioritariamente, nadarem em círculos no mesmo sentido). Se um destes peixes, que treinou o seu jogo e não treinou dentro da natureza do Jogo, for solto num oceano ou rio, será capaz de “jogar” nesta realidade? Ou jogará apenas o seu jogo e, ou se adapta ao novo ambiente onde agora vive ou, provavelmente, não será capaz de sobreviver?

A missão do treinador é a procura contínua de uma correspondência dinâmica entre o Jogo, a sua intenção prévia (ideia de jogo) e os seus jogadores! Respeitando o espaço de cada qual…isto é, a nossa identidade não pode atuar sobre si mesma (não a podemos treinar dentro de um cativeiro…). Esta tem que existir, necessariamente, pois é esta que nos vai permitir na hora da vitória e da derrota orientar o processo, servindo como diapasão. É a nossa forma de estar, princípios e valores, que dentro da diversidade nos irá identificar como a “Atalanta”, o “Liverpool”, o “Leipzig”, o “City”, o “Bayern” ou o “PSG”. Existem equipas que estão entre as melhores do mundo em ataque posicional, em contra ataque, a defender perto da sua baliza ou perto da baliza do adversário. No entanto, as que, atualmente, conseguem ter mais sucesso no alto rendimento (quando defrontam as melhores equipas do mundo ou equipas do seu nível) são as que conseguem jogar o jogo Todo com qualidade (sendo pressionantes, sabendo quando recuperar posicionamentos para voltar a pressionar, gerindo velocidades e sentidos quando atacam, sabendo defender perto e longe da sua baliza, bem como atacar perto e longe da baliza adversária). O critério tem que ser comum, para que o critério circunstancial, de cada um, permita uma perceção e ação verdadeiramente coletiva.

Assim, somos dotados de uma capacidade de auto reflexão e perceção na construção de um mundo (jogar) que é nosso, mas somos “parte” interdependente de um todo (jogo) que nos governa e subconscientemente, no quotidiano, nos influencia a seguir determinados caminhos. Não podemos alterar o jogo, na sua génese, podemos sim, com as nossas convicções e crenças aportar e melhorar o jogo, fazendo-o evoluir. Através da criatividade que nele existe, pela abertura ao inopinado, o jogo será sempre passível de ser reinventado.

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Sobre RicardoCarvalho 2 artigos
Treinador de Futebol. Refletir sobre futebol...é modelador, é corpóreo. O Corpo que o joga e o Cérebro que o sente.

1 Comentário

  1. Lá vem o este forçar uma analogia com cuspo entre uma versão barata do Prigonine para dummies e o treinador de futebol. Só em Portugal é que isto passa sem ridículo.

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