Mais do que Possibilidades… Propensões! – uma questão de Treino

José Mourinho

Há 30 anos atrás, o filósofo Karl Popper dava-nos a conhecer “Um Mundo de Propensões”, no qual considerou a probabilidade como sendo uma propensão inerente às condições que produzem as sequências (Popper, 1990). Aquando da redação da sua famosa obra, o pensador austro-britânico estaria longe de imaginar o quão preponderante seria a Teoria da Probabilidade como Propensão para o processo de treino desportivo, entre muitas outras aplicações do quotidiano.

A complexidade inerente a este processo de modelação (vulgo Treino) é infindável e, por consequência, altamente sensível a todos os fatores que o influenciam. De uma forma – diria – milimétrica. Mas já lá vamos…

Por ironia, o primeiro passo da modelação dá-se antes da própria modelação. Ocorre quando o líder do processo (vulgo Treinador) mapeia a sua ideia de jogo através dos macro-referenciais, quais coordenadas, para aquele que ele utopicamente considera ser o caminho para o sucesso. Precisamente por ser macro, essa intenção prévia é (ou deverá ser) caracterizada em traços gerais. Globais. Identificativos. E, simultaneamente, Abertos.

Metaforicamente, essa é a diferença entre um ditado e uma composição. No primeiro, não há espaço à criatividade e ao inopinado; ao invés, abraça-se a rigidez, a mecanicidade mecânica, que rejeita todo e qualquer desvio a si própria. Em contraste, a composição, por ser aberta, permite que cada um redija à sua maneira, construa a sua própria história, manifestando o que é seu – e que é, no fundo, fruto de um passado pessoal de vivências e crenças. E, se uma composição livre leva 11 homens à total anarquia, então tudo se tornará mais fácil quando o Professor (Treinador) os orienta através de um mesmo tema.

É necessário, portanto, deixar que os jogadores possam agir de forma livre, sem agirem livremente (Oliveira et al., 2006, p. 202), sendo essa liberdade condicionada pelos supracitados macro-referenciais sobre os quais se alicerça a intenção prévia (ideia de jogo), funcionando como balizadores de todos os sub, sub-sub e sub-sub-subprincípios que emergirão à posteriori da interação entre as partes – jogadores – na passagem para uma intenção em ato (modelo de jogo).

Contudo, tenho de lhe confessar, caro leitor, que a palavra “condicionada” corre um elevado risco de ser mal interpretada, pois jamais poderá colocar em causa o caos, a aleatoriedade e a imprevisibilidade que caracterizam o jogo de futebol. É em função dos diferentes contextos que dele emergem que os nossos jogadores deverão ser capazes de encontrar uma vasta panóplia de soluções, sempre sintonizadas dentro dos tais macro-referenciais – máxima variabilidade na máxima redundância.

Esses contextos têm, portanto, de aumentar a probabilidade de ebulição de determinados tipos de problemas, para os quais existirá mais do que uma resposta – até aquela que nós, treinadores, não antevíamos. Por isso, existem diversos fatores (nalguns casos, atratores) passíveis de serem manipulados, como as regras, o tempo, o espaço e o número de jogadores, tornando determinado exercício propenso a, mas sem nunca comprometer o seu continuum, típico do jogo de futebol.

A arte e o engenho do Treinador passam pela sensibilidade que o mesmo apresenta perante as diversas questões que estão sob sua alçada. E as propensões dos exercícios não são exceção. De facto, a milimetricidade referida no início do artigo pode ser fulcral, pois um espaço curto obriga, à priori, a uma velocidade de reação maior que um espaço mais amplo. Já os apoios laterais provavelmente tornarão o ritmo da circulação mais lento, enquanto os apoios profundos poderão funcionar como pontos de atração e propensiarão mais passes para a frente e, por consequência, uma chegada mais rápida à baliza. E, na próxima vez que colocarmos uma equipa a defender duas balizas, devemos pensar não só na que ataca, que certamente irá optar pela baliza livre – e bem! – , mas também na que defende, que provavelmente dividirá o seu bloco em duas metades à largura, o que não é muito aconselhável para uma organização defensiva que se quer coesa, se for essa a ideia do treinador. E, porque há males que vêm por bem, quando o seu guarda-redes faltar ao treino, terá aí uma excelente oportunidade para treinar a reação à perda, pois uma baliza vazia obrigará, por norma, toda a equipa a tapar a bola e a querer ganhá-la rapidamente, precisamente pela ausência do keeper. De facto, a manipulação do sistema tático é, também ela, uma propensão, pois um lateral pouco ofensivo provavelmente subirá mais se lhe retirarem o extremo do seu corredor. Incrível como a criação de todos estes contextos é possível, e em nenhum deles o jogo deixará de ser jogo, mantendo intactas todas as propriedades da sua essência. Contudo, não esqueçamos que as propensões lidam com probabilidades, não sendo, por isso, receitas cujo o resultado será sempre o mesmo, independentemente das condições iniciais.

Aqui, “termina” o trabalho do Treinador, que, após anunciar o tema, deverá aguardar pelas redações dos seus jogadores num exercício que se quer jogado, permitindo a manifestação de cada um dentro do que lhe foi tacitamente proposto, e evitando uma cristalização do modelo de jogo, que não deve ser unívoco, estanque e sem saída, mas sim variável e rico o suficiente para responder a qualquer cenário. É na interação dos jogadores com as circunstâncias situacionais da configuração da exercitação e do que nela acontece, que se dará a somatização do nosso jogar (Reis, 2016). Por isso se diz que o futebol não se ensina, aprende-se, pois o “ensinar” pressupõe que tudo já esteja definido à priori, enquanto que o “aprende-se” remete-nos para um processo construtivista de conhecimento, que se adquire com a experienciação e vivenciação dos contextos. Tal como Ferreira (2016) refere, devemos “dar o contexto e não a solução”.

A qualidade e velocidade da assimilação daquilo que é propensiado dependerá, depois, dos marcadores somáticos, cujo impacto será mais duradouro se a configuração do exercício for definida à luz daquilo que é valorizado na ideia de jogo. No fundo, quando os jogadores executam uma ação bem sucedida, esta provoca uma emoção positiva e, num contexto similar futuro, essa emoção leva a que a ação seja novamente colocada em prática (Guilherme, 2004). Por isso, um golo cuja assistência tenha sido protagonizada por um apoio lateral poderá valer 2 pontos, ao passo que um golo de outra qualquer natureza poderá valer 1 ponto, pelo que aqui se contempla a propensiação através da valorização do jogo exterior, que servirá simultaneamente de marcador somático, sem que seja necessário fechar caminhos aos jogadores.

A proporção ótima entre aquilo que queremos propensiar e tudo aquilo que o jogo nos pode dar, é sem dúvida um dos maiores desafios de qualquer treinador de futebol. A propensão perfeita andará sempre longe da castração da criatividade, mas também distante da anarquia. Em detrimento destas, optará sempre pela fluidez de um jogar perante determinado contexto, dando a capacidade ao exercício de falar sozinho. Na próxima vez que planear o seu treino, não se esqueça da diferença que farão 5 milímetros. Porque o bater de asas de uma borboleta, pode provocar um tufão do outro lado do mundo


Bibliografia

Ferreira, S. (22 de Outubro de 2016). Intervenção do treinador de formação: potenciar o potencial… dentro de “algo” coletivo. Obtido de Futebol Clube da Foz | Site Oficial: https://fcfoz.pt/intervencao-treinador-formacao-potenciar-potencial-dentro-algo-coletivo/

Guilherme Oliveira, J. (2004). Conhecimento Específico em Futebol. Contributos para a definição de uma matriz dinâmica do process ensinoaprendizagem/treino do Jogo. Dissertação de Mestrado. FCDEF-UP. Porto

Oliveira, B., Amieiro, N., & Barreto, R. (2006). Mourinho – Porquê Tantas Vitórias? Lisboa: Gradiva.

Popper, K. (1990). A World of Propensities. Thoemmes.

Reis, J. (2020). Periodização Tática. Vigo: MCSports.

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