Renascimento Rossoneri – O modelo do líder invicto. Parte I

À data da escrita deste artigo, o AC Milan de Pioli é a única equipa dos cinco principais campeonatos europeus que se mantém invicta, liderando o Calcio e tendo terminado em 1º lugar do seu grupo na Liga Europa. A menos de uma semana do verdadeiro teste de fogo à candidatura ao título dos Rossoneri (recebem a Juventus dia 6), dissecamos o modelo de um gigante adormecido nos vales montanhosos da Lombardia (não disputa uma luta pelo título desde a época 2011/2012 e não termina no top-4 desde a época 2012/2013) que parece ter finalmente acordado sob a égide de Stefano Pioli (que esteve para nem começar a época, falando-se fortemente na altura do nome de Ralf Rangnick para o lugar como 1ª opção).

Mas ainda antes do modelo, a ideia. Atento à tendência do futebol atual, Pioli desde cedo revelou publicamente qual a sua inspiração e intenção na construção deste Milan: o Bayern de Hans-Dieter Flick.

“Eu comecei a seguir de perto o Bayern a partir de Janeiro. Disse aos meus adjuntos que são a equipa que pratica o melhor futebol na Europa neste momento. É um estilo muito agressivo e intenso. Tentar pressionar os adversários muito alto e oferecer aos adeptos um futebol de ataque rápido com jogadores virtuosos. É nessa direção que queremos caminhar.”

Stefano Pioli, em entrevista ao “The Athletic” (Set. 2020)

A renovação milanesa começou na constituição do plantel, que sofreu um rejuvenescimento já há muito necessário. Frente ao Spezia, os Rossoneri apresentaram um onze inicial com uma média de idades de 22 anos e 287 dias, o onze mais jovem numa jornada da Série A desde a época 2004/2005. O CIES Football Observatory documentou ainda que a média de idades dos onzes iniciais do AC Milan é a mais baixa dentro das 5 principais ligas europeias, com 24,5 anos (mesmo com Zlatan Ibrahimovic, de 39 anos, várias vezes titular).

Em semana então de jogo decisivo com a Vecchia Signora, vamos vestir a pele dos analistas de Andrea Pirlo e tentar oferecer um report completo sobre o adversário de Milão. Como ponto de partida para o estudo do modelo, os dados de tracking espacial dos jogadores do AC Milan (segundo a empresa Twenty3) geram um posicionamento mais frequente com bola que permite caracterizar a estrutura base como um 1-4-2-3-1, com os extremos tendencialmente posicionados por dentro, laterais por fora e dinâmica de duplo-pivot.

Momento Ofensivo

Em momento de organização ofensiva, o Milan não apresenta comportamentos padronizados mas tenta sim resolver os problemas que o jogo vai apresentando (um dos princípios do modelo), com um jogo que alterna construção curta com jogo posicional (onde é forte, top-5 do Calcio em valor médio de posse de bola por jogo, com 55%), construção longa com procura de 2ª bola para jogar de frente e transições rápidas.

  • A base da construção assenta numa saída a 2+2 no corredor central, com o duplo-pivot a servir de suporte para jogar à frente da defesa (geralmente com dois centrais que não progridem muito com bola). Os laterais posicionam-se relativamente baixos no campo, sempre de apoios preparados para receberem e acelerarem uma progressão (carregam muito jogo, por dentro ou por fora). Em jogos em que os dois médios sofrem uma forte marcação individual, há movimentos do médio ofensivo (com muita liberdade) para fora da pressão para gerar situações de 3v2 no meio-campo e assim dar seguimento.
  • Em alternativa, um dos médios do duplo-pivot pode baixar alargando para construção em 3+1 para atrair a pressão ou criar superioridade, dando liberdade aos laterais para se projetarem para níveis mais altos no campo (e por consequência os extremos entram para jogo interior).
  • A abordagem mais simples e direta na construção é uma bola longa do GR ou de um dos centrais para o PL (geralmente Zlatan, forte tecnicamente e fisicamente, capaz de dar seguimento aos lances; o sueco é mesmo o líder da Série A em duelos aéreos ganhos por cada 90 minutos) que ou toca para apoio frontal dos médios que encaram agora o jogo de frente, ou lança os extremos que executam movimentos de rutura (de fora para dentro) a procurar a profundidade ou o próprio segura e dá continuidade à jogada.
  • Em fase de criação, a equipa acaba por utilizar muito o jogo de corredores utilizando trocas posicionais (dentro/fora ou fora/dentro) entre laterais (confortáveis em movimentos de underlap e overlap e com muita chegada à área) e extremos (fortes por dentro e por fora). Tanto médio-ofensivo como ponta-de-lança podem também fazer movimentos de apoio no corredor, gerando overloads nos corredores laterais.
  • Muito deste jogo de corredores é intencional, já que o AC Milan é essencialmente forte a jogar pelo “lado fraco”. Ou seja, ao colocar muitos jogadores perto do corredor e atraindo muita pressão ao flanco (“lado forte”), a equipa prepara-se para rapidamente virar para o corredor contrário (através de um passe horizontal direto ou suporte do duplo-pivot), “lado fraco” geralmente livre para incursões do lateral e situações de 2v1 no corredor. Até por questões de angulação e orientação com o jogo, tal faz com que os jogadores aglomerados no lado contrário façam ameaça à profundidade pelo lado cego do bloco que teve que rodar apoios e realizar rápido deslocamento para encurtar ao outro lado.
  • Em zona de finalização, geralmente os remates estão concentrados na zona da marca de penalty e a equipa gerou o valor mais elevado no que toca a xG (Expected Goals) por remate na Série A até ao momento, mostrando que estas finalizações surgem normalmente de zonas muito favoráveis, gerando chances de forma eficiente. As próprias assistências surgem essencialmente da já chamada “Kevin De Bruyne’s zone” (canais interiores nos limites laterais do corredor central), reflexo do posicionamento interior dos extremos/laterais e médio-ofensivo no momento do último passe, onde se associam muito na criação de oportunidades de golo.

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Juan Román Riquelme
Sobre Juan Román Riquelme 5 artigos
Fábio Baptista. Experiência como analista em equipas de formação e atualmente em contexto de seniores em Portugal. Vive sob o lema: conhecer o jogo para influenciar o jogo.

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