“Eu quero treinar o Liverpool, mas não quero estar no Mainz 7 anos”

O título pode ser confuso, mas irão perceber brevemente. A arte de ser treinador de alto nível é complexa, porque requer conhecimento e competências em muitas áreas que não se resumem exclusivamente ao jogo. Liderança, psicologia, sociologia, reação à adversidade, gestão de grupos: muitas destas coisas podem ser aprendidas no campo, ou até num balneário, mas não se tornam hábitos e valências de um dia para o outro.

É muito comum, desde sempre, vermos ex-jogadores profissionais com carreiras invejáveis a tornarem-se treinadores. Nada de anormal até aqui: centenas de treinos com os melhores treinadores do mundo, conhecimento do jogo e do ambiente profissional, liderança de grupos, hábitos vencedores e colectivos que constróem um perfil com potencial para ser um treinador de topo. Ora, ultimamente, temos vindo a assistir a algo mais surpreendente: ex-jogadores sem experiência de treinador a assumirem cargos importantíssimos do futebol mundial apenas meses ou um par de anos após se retirarem. Entre muitos nomes possíveis, vimos Gary Neville no Valência, Frank Lampard no Chelsea, Thierry Henry no Monaco, Andrea Pirlo na Juventus, o próprio Arteta no Arsenal após alguns anos no City, e até em Portugal vimos Tiago assumir o Vitória SC, todos eles sendo a primeira experiência numa primeira liga profissional (Lampard fez 12 meses no Derby County antes de assumir o Chelsea). O que têm em comum estas experiências?

Apesar de ainda ser cedo para falar de algumas, a verdade é que todos estes treinadores foram, ou têm sido, alvos de críticas, e as suas equipas não tem propriamente surpreendido ou atingido os objetivos coletivos propostos. Mas porquê? Haverá alguém que saiba mais de futebol do que estes antigos craques que passaram décadas ao mais alto nível? Talvez não (apesar de ser possível), mas a questão inicial que referi é o mais importante: ser treinador é muito mais do que saber do jogo. Este fim-de-semana, Jamie Carragher falou sobre este assunto, e eu diria que o seu discurso roçou a perfeição (traduzido em baixo, para quem não entender o vídeo):

“Eu olhava para Klopp e pensava, uau, eu quero ser como ele. Quero treinar em Anfield, festejar com os adeptos no final, parece fantástico. O Frank (Lampard) e o Terry querem ser o Mourinho, o Henry o Arsene Wenger, e pensamos: nós conseguimos fazer o mesmo que eles. A razão para eu fazer isto (ser comentador) e não ser treinador, é porque eu quero ser o Jurgen Klopp, treinar o Liverpool, mas não quero estar no Mainz sete anos e esforçar-me para chegar ao topo. Eu admiro o Lampard pelo trabalho que tem feito (…), mas olhamos para muitos treinadores e a experiência não está lá. Ele não recebeu uma oferta por ser um grande treinador, recebeu-a porque é o Lampard, do Chelsea. Lampard, Gary Neville, Henry, nenhum deles podia rejeitar as tais ofertas, mas também nenhum deles tinha a experiência suficiente para saber lidar com o insucesso e para se refugiar nela nestes momentos, ainda não lidaram com os altos e baixos da profissão”

A questão aqui passa mesmo por essas experiências e vivências que são necessárias ao mais alto nível. Treinadores como Gerrard (o exemplo dado por Carragher), Simone Inzaghi, Pochettino, Klopp, Guardiola não chegaram tão rápido ao topo como treinadores, ou ainda nem lá chegaram nos casos de Gerrard ou Inzaghi, mas os anos como treinadores noutros patamares irão fazer com que, muito provavelmente, quando lá cheguem, estarão mais preparados do que todos os outros referidos em cima. Desde a confiança nas suas ideias, a maturidade para encarar grandes desafios, bons e maus momentos, tudo isso será diferente. Podem nem fazer melhores trabalhos por esta ou outra razão, mas estarão mais preparados. E o que se exige em grandes clubes, com grande responsabilidade, é que toda a gente esteja preparada para o mais alto nível. Afinal de contas, a pressa é quase sempre inimiga da perfeição.

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Sobre RobertPires 55 artigos
Rodrigo Carvalho. 23 anos, experiência como treinador adjunto e analista em equipas séniores em Portugal e nos Estados Unidos. Passou pela Federação de Futebol dos Estados Unidos no departamento de Formação de Treinadores. Em colaboração com a Proscout, trabalhou diretamente com equipas técnicas profissionais e produziu relatórios de jogadores. Podem seguir muito do seu trabalho em @rodrigoccc97 no Twitter.

4 Comentários

    • É verdade que é a exceção, mas não nos podemos esquecer que os últimos passos da carreira como jogador foram decididos com base naquilo que queria aprender para ser um treinador ainda melhor, como o próprio já referiu. Bréscia, México, nada foi por acaso

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