Porto vs Benfica – a estratégia como factor para criar tendências no domínio de jogo

FC Porto - SL Benfica

 Ambos os treinadores fizeram referência ao recente encontro na Supertaça na conferência de imprensa e a abordagem ao jogo de sexta-feira fica marcada pelo que aconteceu em Dezembro. 

Tudo muito equilibrado com ascendente do Benfica, principalmente na 2ª parte. Em duelos entre duas equipas que apostam forte na pressão como forma de condicionar o adversário, onde para fugir dessa pressão, as soluções tentadas, e encontradas, são quase sempre verticais, ganha vantagem quem tiver os seus jogadores mais juntos e em melhores condições para disputar os ressaltos que inevitavelmente irão surgir. Além da vertente estratégica, claro. O Porto foi melhor em Dezembro, respondeu gora bem o Benfica.

Saídas de bola FC Porto

Sem surpresa, o Porto optou por uma construção longa aproveitando as características de Marchesin. Aqui a primeira novidade estratégica do Benfica. Nuno Tavares a defesa esquerdo para garantir o mínimo de duelos entre Grimaldo e Marega. Os portistas têm no maliano uma boa referência para o jogo directo e frente ao Benfica procura disputar no ar com o espanhol com o lateral a aparecer para a 2ª bola num 2×1. 

Jorge Jesus preveniu-se e montou um sistema de marcações interessante. Os centrais adiantados do Porto tinham a marcação dos avançados e Pizzi acompanhava o médio que baixava na linha de 3. Grimaldo e Rafa ficavam com os laterais adiantados (à espreita para 1ª ou 2ª bola do jogo directo). Gilberto preocupado com Diaz e à esquerda Nuno Tavares e Vertoghen trocavam entre Marega, mais à largura ou adiantado, e Corona – mais recuado.

Se Marega à largura Nuno Tavares ficava com Marega, se o maliano se adiantava, Vertonghen ficava com ele, mesmo que descaísse para corredor lateral (imagem abaixo).

No único lance disputado entre Grimaldo e Marega, Nuno Tavares adianta-se para marcar Corona. Vertonghen está com Marega mas este desloca-se, já com a bola no ar, para o espaço de Grimaldo, que baixa para junto dos defesas. Há duelo e o maliano “penteia” a bola para a frente. Nanu e o central belga disputam a bola com vantagem para este. Os encarnados anularam assim uma das maiores dores de cabeça dos últimos jogos frente ao Porto, apesar de os azuis ficarem com a maioria das 2ªs bolas, no entanto, com todo o bloco defensivo encarnado pela frente.

Saídas de bola SL Benfica, pressão lateral e transição 

Não que seja novidade mas Jorge Jesus fez questão de baixar Weigl na primeira fase de construção. Não sendo muito redundante atrás, o Benfica tentou, e conseguiu várias vezes na primeira parte, sair da pressão portista no lado esquerdo, sendo Nuno Tavares o homem livre.

Weigl entre centrais, Gilberto à direita ligeiramente mais recuado que Nuno Tavares à esquerda e saída a 3. Quando a bola chegava a Vertonghen, Marega impedia a devolução para o alemão, Sérgio Oliveira estava preocupado com Pizzi e Corona fechava à direita. No entanto, o cental belga, conseguiu ligar por fora no lateral português. O posicionamento de Rafa entre linhas foi importante, pois criou dificuldade ao mexicano que não sabia se havia de fechar ligeiramente mais dentro ou marcar Tavares

É assim que nasce o golo encarnado. O Porto em bloco médio,  duas linhas de 4 jogadores mas Sérgio Oliveira e Uribe praticamente na mesma linha de Corona que não impede linha de passe para Tavares nem chega a tempo quando o português recebe. O passe de Vertonghen bate os dois adversários directos. A dificuldade do Porto controlar esta situação na primeira parte não deixa de ser estranha por se tratar de um comportamento típico no Benfica. Tal como o que aconteceu a seguir. Darwin entre central e lateral a fazer diagonal para fora, abre espaço para o interior, Grimaldo, entrar na área e fazer golo. Mvemba acompanhou o urugaio mas Uribe foi lento a baixar e não cobriu o colega. Não é o primiero golo que o Porto de Conceição sofre em jogos grandes por ter a linha defensiva demasiado exposta e sem compensação dos médios

Quando o Benfica não conseguiu sair desta maneira e optou por jogar longo, até perdeu a segunda bola mas foi muito forte a reagir e chegamos a um aspecto que não sendo novidade nas equipas de Jesus, esteve em evidência na sexta-feira. Os encarnados apostaram forte em pressionar junto ao corredor lateral com preocupação evidente em criar superioridade numérica após perderem a 2ª bola fruto do jogo directo. Criaram uma zona de pressão com lateral-extremo e interior mais Darwin que foi importantíssimo a impedir, nestas ocasiões o Porto de jogar a bola para trás. 

Este plano encarnado incluiu também vantagens ofensivas. Com maior fluidez na transição ofensiva, os encarnados foram rápidos em espaços curtos, cortesia do adiantamento de Grimaldo e do maior acerto de Pizzi, o Benfica sabia ao que ia. Sabendo que os laterais do Porto se adiantam nestas situações de disputa para dar superioridade, JJ instruiu Darwin para após o recuo defensivo permanecer aberto à largura tirando assim vantagem do adiantamento de Nanu. (continuação do lance anterior imagem abaixo).

Outro exemplo do aproveitamento benfiquista deste tipo de situação. Jogo longo na saída, Porto condiciona e ganha 2ª bola mas no momento em que tenta fazer passe de fora para dentro, Benfica ganha bola, é forte em transição e bola chega a Darwin na largura. Uruguaio finalizará ao poste

Correções Porto na 2ª parte e conta resposta encarnada

O Porto alterou a forma de pressionar na 2ª parte a primeira fase de construção do Benfica. Baixou ligeiramente o bloco, Corona passou a saltar na pressão a Vertoghen e, após passe para trás, quando bola entrava em Weigl não deixavam que o alemão mudasse corredor (se bola vinha da esquerda não podia ir para direita e o contrário). Também houve mais atenção ao espaço interior, preocupação clara de impedir passe de fora para dentro. nomeadamente de Taremi que na primeira parte nem esteve atento a este tipo de situação.

Abaixo é possível ver como o 4141 do Porto se transforma quando há passe para trás e Sérgio Oliveira salta na pressão e condiciona acção de Weigl, bem como a capacidade de Taremi em ser cobertura ao ala. Lance acaba por se perder e Benfica não progride

O Benfica teve nas costas da linha defensiva do Porto, em particular as de Nanu a solução para o condicionamento adversário. Com efeito, Nuno Tavares à largura e Darwin no espaço entre central e lateral a fazer diagonal para fora conseguiram contornar a pressão portista com a qualidade de Vertoghen e Otamendi a ajudar. 
As debilidades dos laterais portistas foram exploradas ao máximo e este é mais um exemplo disso mesmo.

A transição ofensiva do Porto

O Benfica passou mais tempo na 2ª parte no meio-campo ofensivo, mesmo adversário, mesmo antes da expulsão,  por vários motivos. Foram pacientes, recorreram aos apoios recuados, estiveram mais juntos, ganhando por isso mais segundas bolas, e as transições ofensivas do Porto foram várias vezes precipitadas e com más decisões que fizeram a bola regressar rapidamente ao pé dos jogadores encarnados. Por outro lado, o recuo mais frequente de Marega quando a bola entrava no último terço, deixava Taremi na frente contra os centrais adversários

Dia para esquecer dos laterais do Porto também neste aspecto. Se o Benfica coloca muita gente a atacar e com os laterais dentro para equilibrar, naturalmente Zaidu e Nanu teriam oportunidades para serem boas referências no momento de passar para o ataque. No entanto, tiveram más decisões com pouca variabilidade. Quando um passe interior, ou até mesmo travar a progressão, parecia a melhor solução, a busca da verticalidade imperou. 

Abaixo é possível ver como Marega está recuado e Gilberto por dentro bem adiantado ganha 2ª bola. O Benfica, a espaços, instalou-se no meio-campo defensivo do Porto que não arriscou e baixou o bloco sacrificando a qualidade da transição ofensiva, o que naturalmente permitiu aos encarnados recuperarem a bola mais vezes e mais rápido

Conclusão

O Benfica apareceu no Dragão disposto a corrigir o que deu vantagem ao Porto em Dezembro, por exemplo, controlaram melhor a transição defensiva para os alas portistas não terem espaço em condução quando recuperavam bola – lembrar lance que originou penalty em Aveiro, foram compactos o que os preparou melhor para os duelos e tiveram interessantes alterações estratégicas. Tudo isto permitiu não uma vantagem clara mas um ascendente interessante. 

Neste jogo do gato e do rato, na próxima partida, que até pode ser já sábado, Sérgio Conceição também aparecerá com novas nuances e, digo eu, expor menos os laterais (como JJ fez com Grimaldo e o jogo directo) bem aproveitados pelo Benfica. Em duelos tão equilibrados, e equipas nem tão diferentes assim, o que pode criar tendência de domínio são mesmo estas alterações estratégicas variadas

Sobre Lahm 33 artigos
De sua graça Diogo Laranjeira é treinador desde 2010 tendo passado por quase todos os escalões e níveis competitivos. Paralelamente realiza análise de jogo tentado observar tendências e novas ideias que surgem no futebol. Escreve para o Lateral Esquerdo desde 2019. Para contacto segundabola2012@gmail.com

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