O Peso da Estratégia Inicial

A Estratégia é, hoje em dia, fundamental nos desportos coletivos, nomeadamente no Futebol como temos vindo a referir ao longo dos últimos anos. Estratégia porque são pequenas nuances dentro do nosso modelo, que não alteram a ideia geral mas que procuram explorar/precaver pontos fracos e fortes do adversário, mas também esconder/potenciar os fracos e fortes da nossa própria equipa. Por isso, a preparação prévia ao jogo torna-se fundamental para a determinação do resultado final.

“Um golo no início de jogo pode tornar o jogo completamente diferente.”

Ruben Amorim, in Conferência de Imprensa pré-jogo vs Braga (2021)

Contudo, devemos fazer o seguinte raciocínio: Que influencia tem aquilo que preparamos antes do jogo? Elevada ou Reduzida? Quantas vezes ouvimos treinadores a dizerem que o golo sofrido nos minutos iniciais do jogo alterou por completo a estratégia para o jogo? Mas a estratégia prévia ao jogo não deverá contemplar os diferentes cenários para o jogo?

” (…) Criámos uma série de cenários para aquela final (Final da Taça de Portugal – SL Benfica 0-1 Vitória SC, 2013). Tínhamos ali quatro ou cinco cenários previstos para o jogo sobre como reagiríamos se tivéssemos a perder, se marcássemos um golo, se tivéssemos que alterar para três defesas… Os jogadores sabiam o que fazer em cada momento do jogo. (…)”

Rui Vitória, in Quarentena da Bola (2021)

Na nossa visão, o Treinador deverá sempre preparar dois ou três cenários (planos) diferentes, de modo, a que a equipa esteja preparada para os diferentes e imprevisíveis contextos que o jogo nos pode ir colocando, mas sobretudo dotar a nossa equipa de comportamentos coletivos (modelo) consistentes, para que, caso o plano falhe (estratégia), os jogadores se possam agarrar à ideia.

Um dos problemas da Estratégia Inicial que levamos para o jogo remete-nos ao facto da equipa não ter capacidade para mudar o que estava previamente definido em função do resultado de jogo porque se encontra demasiada agarrada ao plano de jogo. Exemplo simples: uma equipa prepara o jogo para não pressionar a construção do adversário, num bloco mais baixo. Essa mesma equipa sofre um golo nos minutos iniciais. Por norma, o que acontece, é que essa equipa não tem capacidade para mudar a resposta que têm de dar e a nossa função enquanto treinadores é preparar diferentes soluções para os diferentes momentos do jogo, ou seja, neste caso, do ponto de vista estratégico, fará sentido levar um plano que contemple momentos de pressão, de controlo em diferentes zonas do campo, para que, a nossa equipa não se perca dentro do próprio plano.

Torna-se, portanto, fundamental que, os planos iniciais não sejam fechados, de tal forma que, as equipas não tenham soluções para responder às diferentes respostas que o jogo exige.

Há, também, fatores externos que até podem não (mas devem) estar contemplados na Estratégia Inicial e que exige adaptação da nossa equipa no próprio dia ou hora de jogo como o estado do tempo ou o estado do relvado como, ainda, há pouco tempo as equipas que disputaram a final-four da Taça da Liga lidaram. Para este tipo de constrangimentos, trazemos um exemplo simples: Vamos defrontar uma equipa que aposta em construir curto mesmo sobre pressão, a relva está degradada mas eles insistem em sair curto, então fará sentido pressionar a construção adversária porque o relvado (fator externo) poderá provocar um maior número de erros, mesmo que, isto não esteja contemplado no nosso Plano Estratégico Inicial.

De Salientar, também, que mais importante do que preparar a estratégia inicial é a gestão da informação que passamos, ou seja, criar demasiados cenários poderá ser prejudicial, na medida em que, os jogadores poderão ficar sobrecarregados da informação que passamos e neste contexto, o momento (positivo ou negativo) da equipa é decisivo. Como tudo, teremos de encontrar um equilíbrio na forma como passamos esses mesmos cenários. É, ainda, importante perceber que, no desenrolar do jogo, há dois caminhos para a nossa estratégia inicial: o sucesso ou o insucesso. Perante o insucesso, não deveremos passar intranquilidade para os jogadores porque a responsabilidade do plano será sempre do treinador. Emerge, pelo contrário, a necessidade de dar soluções e estabilizar a equipa para tirar o máximo rendimento da mesma.

Em suma, o peso da estratégia inicial durante um jogo de Futebol não é quantificável, no entanto, quanto mais preparada estiver a equipa para os diferentes cenários que o jogo possa colocar, maior probabilidade de ser bem sucedida terá. O Plano nunca se deverá sobrepor à nossa ideia base, independentemente do jogo, adversário, resultado ou qualquer outro fator externo inerente ao jogo porque o nosso modelo será sempre algo que deverá sustentar o falhanço do próprio plano..

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Sobre Pirlo 101 artigos
Apaixonado pelo jogo e pela análise. É o pormenor que me move na procura do conhecimento. Da análise ao jogo, passando pelo treino, o Futebol é a minha grande paixão.

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