Porque desilude tanto o Benfica?

Antes de tudo o mais para desiludir é necessário haver ilusão. E essa era expectável, até. Depois de tamanho investimento na presente época, e sobretudo porque uma maioria não silenciosa optou por colocar fracassos do passado recente exclusivamente nos ombros dos ex treinadores – Rui Vitória e Bruno Lage – como se o Benfica não tivesse perdido aquilo que mais importa para um bom jogo. A qualidade dos jogadores.

Jorge Jesus mesmo à distância percebeu que o plantel dos encarnados era muito parco em qualidade para poder apresentar o jogo de outrora – Ainda assim, obviamente qualitativamente capaz de discutir títulos, como sempre o fez com os seus sucessores, e antecessores.

A ordem foi investir.

Chegaram: Darwin: Potencial imenso pelas invulgares capacidades condicionais. Contudo, seria razoável esperar rendimento e impacto imediato num jogo como o do Benfica a um ex avançado da segunda liga espanhola, habituado a um jogo de contra golpes, e não a jogar em espaços reduzidos? Luca: De todos o mais qualificado – Embora vindo de uma realidade muito diferente – Clube menor, habituado a jogar o tempo todo sem bola – o alemão tem qualidade técnica, e é inteligente. Sabe jogar em espaços reduzidos, como apoio para tocar ou rodar, mas também tem capacidade para ir forçar a última linha. Numa equipa bem “oleada” garantidamente que hoje já seria um jogador bem mais valorizado. Everton: A sua intermitência tem desiludido. Contudo, a sua qualidade é inquestionável. Apenas não é um jogador para resolver sozinho, mas antes alguém que define de forma conjunta e que depende de um bom volume ofensivo – Quantas vezes recebe com espaço ou com boa relação numérica? Gilberto: Outras das desilusões da época. Sem capacidades físicas notórias que lhe permitam ser um lateral moderno – capaz de constantes vai-e-vem que possam ajudar na dinâmica ofensiva, não tem argumentos técnicos valiosos. É apenas um jogador condenado a jogar por lesão do titular, e porque Diogo Gonçalves aparentemente não deu respostas positivas para segurar a posição. Pedrinho: Embora pago a peso de ouro, cedo se percebeu que o médio brasileiro é um jogador para crescer e trazer rendimento num futuro que não o imediato. Como tantas “pérolas” na formação – O nível a que está não é o que estará. A questão é quanto tempo ficará depois de crescer para um nível em que possa efectivamente ajudar no imediato o Benfica? Otamendi e Vertonghen: Os dois centrais têm uma qualidade inquestionável. Contudo, chegam obviamente numa fase da sua carreira em que estão mais “carregados”. Caso contrário, não estariam sequer ao alcance do Benfica. O problema de um e outro parece ultrapassado – O incremento das capacidades físicas e da coordenação entre ambos no momento defensivo. Num futuro não distante serão importantes e mais valias. Não o foram na primeira parte da época.

Independentemente de mais acertos ou erros, ou de uma ilusão mais ou menos justificada, é inegável que há no plantel condições para um jogo substancialmente melhor. Há excepção do jogo no Dragão, e um ou outro pontualmente (recepção ao Moreirense, visita a Famalicão e Rio Ave) é difícil recordar um Benfica que encante.

As permanências:

Bruno Lage foi campeão com um onze que juntava: Odysseas, André Almeida, Ferro, Samaris, Gabriel, Rafa, Pizzi e Seferovic. Partindo com sete pontos de atraso e obrigado a vencer em Alvalade, Dragão, Braga e Guimarães. Pelo meio venceu por dez bolas a zero o Nacional.

O anormal no percurso de Lage, tendo em conta recursos à disposição e resultados, foi a façanha mais incrível de que há memória no Benfica. Reforçando, tendo em conta recursos à disposição e situação pontual / calendário pela frente.

Tal façanha criou uma imagem errada sobre a valia de alguns jogadores e criou peso maior sobre a figura que afinal… havia sido um herói.

Todavia, um grande jogador não é um jogador de um ano só. O que Lage conseguiu foi atípico e irrepetitivel. Os oito jogadores mencionados (ficaram de fora Grimaldo, que ainda assim tem lacunas evidentes defensivas; João Felix que estava no seu primeiro ano de sénior! e Rúben Dias que também estava ainda longe do rendimento de hoje), não voltarão a fazer uma época ao nível da realizada. E isto relaciona-se com as suas qualidades. E não com o trabalho do treinador. Milhares são os jogadores que têm uma época boa, sem que se possa garantir que são jogadores de nível imenso. Esses serão sempre os que são eficientes no seu gesto técnico e na sua tomada de decisão.

O Benfica desilude porque:

  1. Jorge Jesus não tem mais a vantagem tática de outrora. A Liga em Portugal é hoje muito mais dotada de bons (seja pelo realismo ou pelo encaixar das peças à disposição no contexto ideal) modelos. É muito mais difícil atacar perante organizações que… já o são!
  2. A sua equipa continua a ter jogadores de qualidade duvidosa – Não ter reforçado a posição de médio centro estava mais que claro que seria um erro grotesco. O Benfica está cheio de (meios jogadores) – Isto é, jogadores com qualidade num determinado momento mas dificuldades no outro. Jogadores com qualidade mas incompletos. Os que defendem com qualidade, não atacam com igual competência, os que atacam não sabem defender. Os virtuosos são frageis, os fortes fisicamente não são virtuosos.

Mas, não deveria o Benfica ser capaz de discutir o título e estar mais próximo da liderança?

Pois claro que sim. É difícil dizer que os encarnados têm menor potencial individual que o Sporting. Mas, não se negue a evidência que no lado leonino há dois laterais (Porro e Nuno) e dois médios (Palhinha e João Mário) que seriam ouro no actual Benfica. E quatro jogadores aos quais se juntaria Pote, o melhor da Liga, já seria meia equipa.

3. O Benfica desilude também, naturalmente, porque o seu treinador não está a ser capaz de encontrar os melhores caminhos para ajudar o seu plantel – E desilude quem sabe porque também a comunicação e o feedback que hoje com os Estádios vazios se ouve por todos com facilidade, retira o conforto que todo o jogador precisa de ter para tomar as suas decisões com e sem bola.

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Sobre Zanetti 21 artigos
Treinador De Futebol, com passagens por clubes do Campeonato de Portugal. Licenciatura em Ciências do Desporto.

6 Comentários

  1. Teorias, teorias e mais teorias…
    Jogadores incompletos, correto. Mas eu pergunto: Qual era a vossa opinião do Enzo (um extremo sem grandes coisas feitas na carreira) antes de ser adaptado por JJ? Qual era a vossa opinião do Matic (um 8 dispensado do Chelsea B) antes de ser aposta do JJ a 6? O que era Coentrao antes de ser adaptado por JJ? O que era Jonas antes de trabalhar com JJ? Todos eles e mais uns quantos eram jogadores dispensados e incompletos que depois no Benfica se tornaram jogadores completos e com grande rendimento, e isto equivale para jogadores do FCP e do SCP como Bruno Fernandes ou Corona que ambos eram jogadores incompletos quando chegaram aos clubes e que os clubes os tornaram jogadores completos. Qual o drama?

    “Ah e tal os jogadores do Benfica são incompletos…”
    Mas quem dos grandes tem capacidade de ir buscar grandes jogadores e completos?? Se fossem já jogadores feitos e craques não vinham para a liga portuguesa!

    Os grandes portugueses sempre mas sempre fizeram assim: contratar jogadores com margem para potenciar, tornar jogadores imcompletos em jogadores feitos.

    Qual o drama de o weigl ser bom na construção e fraco no momento defensivo?? Se fosse bom nas duas coisas por acaso estaria no Benfica??

    Os dramas que esta página faz com o Benfica está bem ao nível de uma cmtv desculpem me!

    Esta página de coerente tem muito pouco, e cada vez me desilude mais e já sigo aos anos. Aqui jogadores e treinadores passam de bestiais a bestas em pouco tempo.

    Epoca 20/21 do Benfica. Treinador novo, mais de metade do plantel novo, jogadores que chegaram entram num contexto completamente diferente do que entrariam há umas épocas atrás em que o Benfica tinha 5 ou 6 jogadores nucleares no 11, sem adeptos, covid a castigar jogadores e equipa técnica por completo…
    Lateral esquerdo: “aí meu Deus que os jogadores do Benfica são tão maus, o treinador afinal é mau, o Lage que era bom e que afinal foi mau afinal era bom.”

    Pelo amor de Deus lateral esquerdo! Analisem o futebol e a táctica que tanto vocês sabem e são peritos e deixem as opiniões de adivinhação para as Cmtv ou caiem no risco de dizer o dito por não dito daqui a dois ou três meses como já o fizeram com jogadores e treinadores.

    Abraço

    • Enzo, seleção Argentina, que está ao nível da seleção do Butão, Matic (Chelsea) craque a partir do primeiro toque de bola que deu no Benfica num jogo de pré época, Jonas vindo do Valência com 30 anos foi JJ que o ensinou a jogar à bola, aliás, aquele golo que marcou de primeira após passe de mais de 30m contra o Covilhã veio da mente de JJ nos primeiro minutos que jogou com a águia ao peito. Esse mito de que JJ criou craques é apenas mito. Fosse verdade e transformaria os coxos do Taarabt, Gilberto e Cebolinha em jogadores.

    • Parabéns pela sua opinião!
      Concordo na integra que muitas vezes as análises são demasiado reativas e pouco esclarecidas.
      Quanto ao jogo contra o Sporting, basta ver o jogo e as estatísticas para perceber que foi um pormenor a ditar tudo o que resulta do jogo, desde o resultado até às … análises. Bastava o Benfica ter sido mais assertivo num dos contraataques e o ressalto da defesa de Vlachodimos ter ido para outro lado e tudo seria diferente desde a pontuação até às … análises.
      Quanto ao Benfica deste ano concordo em absoluto com a sua análise, pois o potencial está lá e para além de pormenores que têm falhado (como não falharam com Bruno Laje) e muita coisa seria diferente. Basta pensar por exemplo no jogo do PAOK onde a ganhar alguém justamente só poderia ser o Benfica. Por isso a análise da qualidade não pode depender de resultados como tem acontecido amiúde nesta página. O Benfica tem qualidade e potencial imenso e até estava no bom caminho, pois basta ver as melhorias apresentadas frente ao Porto e que foram destruídas com o COVID-19. Como é que se pode ignorar o rendimento dos jogadores do enquadramento e condições de trabalho. Como se pode pedir a uma equipa que renda o seu melhor quando já teve o seu eixo defensivo tão afetado (ao contrário do Sporting). Quanto a isto basta ver que o Porto perdeu momentaneamente o Pepe (só 1 jogador) e sofreu com isso. Enfim as análises desta página já primaram por outro nível.
      Por fim deixo a minha visão. O Benfica tem um belo plantel com excelentes jogadores, para a nossa realidade. Obviamente tem fragilidades, mas isso todas as equipas têm e cabe aos adversários explorá-las. O Jorge Jesus este ano falhou na abordagem inicial quer seja pela ambição desmesurada (“jogar o triplo”) e demora no acerto da escolha dos jogadores (Weigl só passou a ser opção efetiva muito tarde, Taarabt não pode ser titular se não tiver Weigl ao lado e Everton já deveria ter passado pelo banco mais cedo). Quanto à classificação é má simplesmente porque nos pormenores o Benfica tem falhado (por exemplo contra o Braga o Benfica estava a dominar e num contrataque o Iuri Medeiros marca e desfaz o Benfica). Acredito que se acabar esta praga do COVID-19 e as condições de trabalho estabilizarem o Benfica tem tudo para melhorar. Por outro lado acho que o Sporting está no seu potencial máximo e se o mantiver, muito dificilmente irá perder o título, mas o problema é que nesta época têm existido muitas condicionantes e pode ser que calhe a fava ao Sporting e aí as coisas podem mudar. A ver vamos!

  2. Concordo na maioria das apreciações, no entanto discordo em alguns pontos.
    O Gilberto para mim não tem sido uma desilusão, primeiro porque dos que vieram era o único que não prometia nada, portanto nunca foi uma ilusão e segundo, foi dos primeiros que ultrapassou o contexto da adaptação e está um jogador muito capaz e sólido.

    Depois penso que esta análise peca por se ter esquecido do contexto do calendário muito complicado que não dá tempo para treinar e que só o Porto se pode comparar, e no caso do Porto estamos a falar de uma equipa com um plantel e treinadores de 3 anos!
    O outro contexto complicado no SLB foi o covid que tem baralhado completamente as opções e estabilização do plantel. Por exemplo, a defesa que o SLB apresentou contra o Braga e Nacional é muito mas muito fraca a nível individual.

    No entanto, também me parece que o SLB está em sub-rendimento.

  3. Jogando de 3 em 3 dias, os jogadores tem dificuldade ainda em assimilar o que jj quer, o modelo de jogo dele é exigente e requer tempo a ser entendido, e neste momento metade da equipa tipo titular são jogadores que vieram esta época.

    Obviamente que não temos 1 equipa forte como ele teve na primeira vez que treinou o slb, e que aquele meio campo é 1 desastre.

    Todavia mesmo assim, com estes jogadores incompletos como fala o texto, deveria tanto o ano passado , como este ano, ser suficiente para se estar muito melhor que se está.

  4. O sub-rendimento da equipa é um facto. Vou deixar as minhas postas:
    1. As equipas estão muito mais preparadas, os treinadores são melhores globalmente do que eram há dez anos;
    2. O Benfica reforçou-se bem mas não dispensou jogadores que não têm lugar (Taarabt, Jardel, Ferro, Seferovic, Nuno Tavares e Gabriel – este último mais uma vez a perder a bola que dá origem ao golo do SCP);
    3. Contratou jogadores a mercados caros, e deixou passar oportunidades (Eustáquio, a ir para o Porto; Al-Musrati seria um 6 interessante; Taremi seria melhor do que Seferovic)
    4. Há uma clara falta de agressividade geral (faz-me confusão como o Porto está sempre ligado ao jogo e competitivo e o Benfica não)
    5. Bruno Lage, na época passada, deixou de tirar rendimento a partir de Janeiro. Em Junho a equipa defendia pior do que no início da época. Mais alguma vocação estratégica teria pelo menos oferecido mais competição à liga transacta;
    6. Lage tinha João Félix e com ele revolucionou a equipa, a emotividade e a qualidade. Jogadores assim aparecem de dez em dez anos!

    Saudações a todos!

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