Picos de forma – uma questão… complexa!

Everton Cebolinha e Moussa Marega

Complexidade. De Cebolinha e Marega, até Riquelme ou Fernando Torres – ela é a maior responsável pelos famosos “picos de forma”!

São vários os casos de jogadores que não rendem o esperado em determinado contexto… sim, contexto, essa palavra tantas vezes utilizada, mas nem sempre entendida e relativizada. Ainda hoje me pergunto como é Riquelme nunca vingou no Barcelona. Ou a (des)ilusão Fernando Torres ao serviço do Chelsea, principalmente se olharmos para o que havia feito no Liverpool. E alguém imaginaria que uma equipa composta por um ex-Chelsea, um ex-Bayern, um ex-Liverpool, um internacional AA holandês, uma promessa vinda do PSV, um internacional brasileiro ex-Atlético de Madrid, uma promessa (que não se veio a concretizar) do Barcelona e um dos maiores prodígios de Espanha, podia acabar como a maior desilusão do campeonato português? Pois bem, aconteceu com o Sporting de Godinho Lopes, 7º classificado em 2012/13, e no qual coincidiram Boulahrouz, Pranjic, Insúa, Schaars, Labyad, Elias, Jeffrén Suárez e Diego Capel, respetivamente.

Não acredito, no futebol de hoje em dia, em equipas bem preparadas fisicamente e outras não […] Há equipas adaptadas, ou não, à forma de jogar do seu treinador. O que procurámos é que a equipa consiga adaptar-se ao tipo de esforço que a nossa forma de jogar exige.

José Mourinho, in revista Dragões

Sendo uma equipa de futebol constituída por partes, é óbvio que o rendimento dessas mesmas partes terá impacto no coletivo. Tão óbvio, quanto recíproco. De facto, o “estar em forma” é um dos argumentos mais utilizados no quotidiano, na mera conversa de café. Desde o boom de Mourinho – tantas portas abriu aos treinadores portugueses! – que este estado de “forma” ganhou um novo significado: deixámos os tradicionais picos de forma para os desportos individuais e, ao invés, preocupámo-nos em ter a equipa sempre fresca nos desportos coletivos, como é o caso do futebol. Por isso, a forma passou a ser encarada como a “forma de jogar”. Um jogador em forma é um jogador identificado com a ideia de jogo, a nível tático (posicionamentos, dinâmicas e decisões) e, por consequência desse fator, também a nível físico (padrões de esforço da forma de jogar), técnico (padrões de tecnicidade, por exemplo, uma equipa que conserva muito a posse de bola terá, à partida, jogadores com maior qualidade de passe) e psicológico (estados de espírito mais característicos, pois uma equipa taticamente dominadora “parirá” jogadores mais persistentes na busca por um resultado positivo)!

O nosso sistema de ensino ensina-nos a isolar os objetos (do seu contexto), a separar as disciplinas, a dividir os problemas, ao invés de uni-los e integrá-los. Induz-nos a reduzir o complexo ao simples, quer dizer, a separar o que está unido, a decompor e não a recompor, a eliminar tudo aquilo que traga desordem ou contradição ao nosso entendimento.

Edgar Morin, in La cabeza bien puesta

Foram séculos assim. O pensamento cartesiano há muito que se instaurou na nossa forma de pensar e leva-nos a isolar as partes em vez de olharmos para o Todo. Se assim fosse, então Kevin De Bruyne seria visto por todos nós como um jogador banal. Afinal, só realizou 9 jogos pelo Chelsea e não mais teve oportunidades de se mostrar pelos blues. E é aí que entra a complexidade, pois não podemos separar o craque belga do coletivo no qual se inseriu. Ao jogador na sua individualidade (auto) e à equipa onde este se insere (hetero), Moreno (2010) acrescenta ainda o meio ambiente envolvente, ou seja, o tal contexto (eco).

Podemos dizer que a dinâmica evolutiva resultante do treinar, segundo este modelo é (co)auto-hetero. Auto porque se vão registando alterações no indivíduo. Hetero porque os princípios de jogo contemplam, fundamentalmente, relações entre vários indivíduos. Ou seja, o indivíduo progride, mas submetido a uma lógica que tem a ver também com a coexistência e crescimento dos outros, num registo comum no que se refere à conceção de jogo (e de treino).

Oliveira et. al, in Mourinho: Porquê Tantas Vitórias?

Nos dias que correm, Everton Cebolinha está longe do prodígio que veste a canarinha. Em relação ao benfiquista, podemos apontar a viciação coletiva do jogo interior como uma das razões que o leva, tantas vezes, a fazer a diagonal para o meio de forma inconsequente. A forma como os colegas giram lentamente à sua volta fazem-no travar e o facto de poucas vezes atacarem a profundidade inibem o passe entre central e lateral que o brasileiro executa com tanta qualidade. Sem dúvida que existe alguma contribuição do hetero no auto.

Já Moussa Marega passou de um jogador dispensado por Lopetegui, a um imprescindível de Conceição. Os constantes ataques ao espaço, a velocidade do maliano e a forma abnegada como pressiona são do agrado do seu técnico, que já tinha trabalhado com ele em Guimarães. A maneira como o avançado portista cresceu, em termos de popularidade, no seio dos adeptos, também teve impacto no seu rendimento – não existem jogadores que têm de ser “acarinhados”? Hoje em dia, é um jogador que, no contexto atual e dada a forma como os treinadores e colegas (hetero) e o ambiente (eco) o impactam, pode até render acima daquilo que, na sua individualidade, o mesmo poderia dar!

A ordem ou organização de um todo, ou sistema, transcende aquilo que pode ser oferecido pelo “conjunto” das suas partes quando estas são consideradas isoladas umas das outras.

Vítor Frade, in Alta Competição no Futebol – Que Exigências de Tipo Metodológico?

Imagine-se que uma equipa de jogadores medianos estão perfeitamente entrosados com a ideia do seu treinador. Tudo flui e os seus intérpretes manifestam o que têm de melhor dentro de um coletivo de grande qualidade. Nesse caso, o Todo é maior que a soma das partes, pois a essas mesmas partes há que adicionar a força da sua sinergia. Ao invés, uma equipa desorientada desvalorizará as partes que as compõem, isto é, os seus jogadores parecerão menos do que aquilo que realmente valem.

Há que deixar claro que o futebol não é um jogo de ações (isoladas), mas sim de InterAções! Isto significa que o facto de um guarda-redes bater a bola longa no pontapé de baliza implica que, muitas das vezes, os seus dez colegas subam no terreno; se um extremo driblador recebe a bola, provavelmente os avançados colocar-se-ão perto da baliza para poderem finalizar, pois prevêem que o mesmo extremo consiga tirar os adversários da frente. Nos 1001 livros do Barcelona de Guardiola, aponta-se também o posicionamento dos extremos, totalmente abertos à largura, para ganharem espaço no meio para o resto da equipa. Incrível como, sem sequer se associarem em passes, os jogadores duma equipa conseguem interagir e influenciar as ações dos seus colegas. Facilmente concluímos que a simples alteração de um elemento, pode ter consequências completamente inesperadas (Frade, 1985).

Não podemos desmontar um piano para ouvir o som que este produz.

O’Connor e McDermott, citados por Moreno, in El Modelo de Juego del FC Barcelona

O futebol é um jogo complexo, e por isso tem de ser visto à luz da complexidade. Os fatores tático, técnico, físico e psicológico são inseparáveis. Também a relação entre os jogadores, a equipa e o ambiente envolvente, que produzem novas propriedades quando em convergência. A visão holística deve ter prioridade, em detrimento da cartesiana. O Todo é maior que a soma das partes.

De aorcdo com uma pqsieusa de uma uinrvesriddae ignlsea, não ipomtra em qaul odrem as lrteas de uma plravaa etãso, a úncia csioa iprotmatne é que a piremria e útmlia lrteas etejasm no lgaur crteo. O rseto pdoe ser uma bçguana ttaol, que vcoê anida pdoe ler sem pobrlmea. Itso é poqrue nós não lmeos cdaa lrtea isladoa, mas a plravaa cmoo um tdoo.

Autor desconhecido

Bibliografia

Frade, V. Alta Competição no Futebol – Que Exigências de Tipo Metodológico?. Comunicação apresentada ao Curso de Atualização Futebol. ISEF–UP. Portugal, 1985.

Moreno, Oscar P. Cano. El Modelo de Juego del FC Barcelona. MC Sports. Espanha, 2010.

Morin, E. (2002). La cabeza bien puesta. Buenos Aires: Nueva Visión.

Mourinho, J. (Janeiro de 2002). Dragões.

Oliveira, B., Amieiro, N., Resende, N. & Barreto, R. Mourinho: Porquê Tantas Vitórias? Editora Gradiva. Lisboa. Portugal, 2006.

Sobre Yaya Touré 27 artigos
Amante do treino. Pensador do jogo. 💡

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