Futebol de formação: produção artesanal ou fabrico em série?

Futebol de rua
Fotografia de Thomas Höpker na região norte de Portugal, em 1992

Dum lado, a complexidade e o respeito pelo indivíduo; do outro, o cartesianismo e a busca do homem completo. Onde para o futebol de formação?

É tudo muito simples. Tão simples, que se torna complicado. Basta olhar para um jogador e adicionar-lhe o que ele não tem: se não remata forte e colocado, treinámos só o remate; se não sabe fazer um passe, então fica uma hora a passar e a receber de um colega; se não sabe fintar, então pegamos em régua e esquadro e explicamos-lhe, milimetricamente, como o fazer – até nem precisa de o fazer frente a um adversário, pois este mexe-se e adiciona imprevisibilidade à ação; basta que seja a um cone, um “ser” inanimado, que nem ousará roubar a bola. A partir do momento em que veste a camisola, o jogador perde as suas propriedades enquanto pessoa e passa a ser um robô. Apenas mais um, duma indústria em série, como já os Pink Floyd criticavam em 1979…

Hey! Teacher! Leave them kids alone! Infelizmente, às vezes, o melhor mesmo é o teacher (ou o mister) deixar os kids sozinhos. Frade (2012) junta-se às críticas em relação às escolas de futebol, afirmando que “a riqueza do futebol de rua era não ter adultos! Poderia ser melhor com alguns adultos, mas os adultos é que estragaram isso. […] Onde é que a gente jogava? Na rua! E todos estes grandes jogadores, todos eles fizeram futebol de rua! E tinha lá treinador? Não tinha lá treinador!”.

De facto, um professor (treinador) como o do videoclip (ver 1:42) irá castrar a criatividade dos seus alunos (jogadores), caso os ditados se sobreponham às composições. Como já havia feito referência anteriormente, a composição é orientada por um tema e o aluno pode escrever de forma a livre, mas sem agir livremente. Isto porque o tema dado pelo professor irá sintonizar toda a turma na mesma frequência. Ao invés, o ditado é fechado ao inopinado. É rígido. É unívoco. Contudo… we don’t need no thought control!

O futebol sofre, igualmente, os efeitos de uma globalização. […] Existem clubes, de diferente dimensão, cujos coordenadores ou diretores com comportamentos autocráticos, arrogam-se de definir comportamentos mecânicos para todos os escalões, ficando o treinador com a tarefa de funcionário. Chegamos a uma situação em que ver um jogo é, quase, ver todos os jogos!

Humberto Costa, in Treino Científico

O Professor Humberto Costa afirma ainda “que os treinadores têm de mostrar à sociedade, que estão “atualizados”, que as suas equipas possuem os mesmos princípios dos grandes clubes, em vez de princípios é melhor ler fins, […] um dos grandes males do futebol atual”. O importante é perceber se o extremo fica por dentro enquanto o lateral vai por fora, se a saída de bola é a três, se o ponta-de-lança do lado da bola vem em apoio e o do lado contrário realiza um movimento de rutura, porque o Barça, o Bayern München e o Real Madrid jogam assim. 1+1=2. Tudo é como está no papel, definido à priori, antes mesmo do treinador conhecer os jogadores e o potencial de cada um. Escrevem-se os macroprincípios à pressa, alimentam-se os sub-princípios com sub-sub-princípios e sub-sub-sub-princípios e o caralh*-que-os-f*da-princípios.

A sociedade atual ainda se encontra fortemente influenciada pela revolução científica do século XVI. Não é de estranhar que caraterísticas cartesianas como a objetividade, a quantificação e o analítico sejam hipervalorizadas em detrimento da complexidade, da subjetividade ou da qualidade. Esta necessidade de ver o mundo de uma forma distinta, clara e simples, faz com que o treinador creia que, quando fala ou propõe um exercício, há uma correspondência linear com a aprendizagem do jogador.

Humberto Costa, in Treino Científico

Na tóxica e poluidora fábrica de jogadores, o pensamento é cartesiano – focam-se as partes em vez do todo. A nível coletivo, tudo é esculpido ao mais pequeno detalhe, não permitindo quaisquer desvios – programa-se o chip com o modelo de jogo e está feito!

Já na perspetiva individual, é tudo uma questão de se irem adicionando peças ao jovem robô. Se a natureza deste floriu espontaneamente um pé direito bem dotado, que necessita do esquerdo para se apoiar, então há que colocar mais um peça, para que o robô utilize os dois pés de igual forma. Respeito pelo indivíduo e suas características?! Jamais!

Conversa do Professor Vítor Frade com o neurocientista Rui Costa

Como já vimos em cima, o futebol está refém do pensamento cartesiano – ou analítico, se quiserem – que vê tudo por partes. Há treinos em que só se treina a parte física. Outros, em que só se treina a parte técnica, que se subdivide na condução, no passe ou no remate. Outros, em que só se treina o que é tático, sem que neste tático se inclua sequer a tomada de decisão – ao invés, é só entendido como treino posicional. Esquecem-se é que, antes de as peças de xadrez se moverem de uma casa para a outra, houve uma tomada de decisão tendo em conta uma tática! Ou seja, a complexidade agarra o todo e mostra-nos que, mexendo numa parte, vamos estar a alterar o percurso de outro qualquer fator de rendimento, com consequências inesperadas para o todo!

Descodificando O Treino – Conversa com Isabel Osório (excerto)

Frade (2012) critica Arséne Wenger, “que diz que até aos 12 anos não se deve pensar no coletivo, que só se deve pensar no desenvolvimento individual, na técnica”. Em contraste, o professor português deixa a questão no ar: “então expliquem-me lá como é que estes miúdos jogam como jogam com 6 anos? E sem perda do lado individual!”. Isso deixa-nos a refletir acerca da tal complexidade, do facto de não podermos olhar isoladamente para a técnica sem olharmos para a tática, de não nos podermos focar no aspeto individual ignorando o coletivo, pois, como já abordei num outro artigo, o futebol é um jogo de interações, e só na interação entre os jogadores e os colegas teremos ganhos significativos, tendo em conta a sua evolução. O individual cresce dentro do coletivo!

Também em resposta ao treino técnico e individual que Wenger defende, Osório opõe-se, considerando que “algo será rico se for realizado dentro daquilo que é fundamental dentro de um (determinado) Processo de Treino“. A treinadora afirma ainda que a técnica “passa pelo momento que antecede o contacto com a bola e o seguimento que se dá a esta. E, esta técnica não é mais do que um prolongamento de uma Intenção Prévia [Ideia de Jogo]. Grande Agilidade Corporal! Exercícios imprevisíveis, abertos, RICOS! NÃO AOS EXERCÍCIOS ANALÍTICOS”!

Já fiz a mim próprio esta pergunta: se um treinador definir todos os princípios do seu modelo de jogo, parece que está a submeter os jogadores a um controlo ditatorial, sem espaço para que estes descubram outros caminhos; assim sendo – e visto que Frade aponta a presença dos adultos como um problema – deve, então, um treinador chegar ao treino e ficar calado o tempo todo? Será esse o “deixa jogar” que tantos apregoam?

No primeiro cenário, estaremos na fábrica, a produzi-los em série, tornando-os iguais até no mais ínfimo pormenor. No segundo cenário, não somos ninguém, e tudo o que emergirá do treino será uma anarquia total. O segredo é ficarmo-nos sempre pelo equilíbrio: definir os nossos macroprincípios (ideia de jogo), deixando que a parte micro emerja (ou seja, que o modelo se construa ao longo do tempo). Dentro deste micro, dar-se-á uma modelação a nível intersetorial, setorial, grupal e… individual!

No início da época, a nossa intenção prévia (ideia de jogo) pode conter apenas uma brevíssima descrição, em traços gerais, daquilo que queremos para cada um dos quatro momentos de jogo. Um treinador mau, porque não sabe o que quer e só escreveu quatro frases? Não – um grande treinador!, porque dá aos jogadores o que eles querem e precisam para crescer: liberdade, espaço para a criatividade e o tão desejado conforto que eles acabarão por encontrar de forma autónoma, fruto das interações que têm com os outros e consequentes ajustes!

Assisti a isto e passei por isto, com as mãos na massa. E houve uma vítima, chamada Tomás Tavares, que fez dois jogos na equipa B. Dois jogos. Depois foi para a equipa A. O Tomás é muito bom jogador, mas tem lacunas que a II Liga iria corrigir. E não se fez isso. Não se esperou por isso. […] Florentino é um caso à parte. Estranho que não jogue no Mónaco. Rúben Dias, Gonçalo Guedes, Florentino, Lindelöf, entre outros, jogaram muitos jogos na equipa B. E esse facto corrigiu-lhes muitos problemas, técnicos e táticos.

Renato Paiva, em entrevista ao Futebol A Sério

Todo e qualquer bom treinador de formação sabe que a importância do processo evolutivo dos seus jogadores sobrepor-se-á sempre aos resultados. Contudo, esquecem-se que o jogo terá, simultaneamente, de ser um “treino”. Uma das lacunas das grandes equipas é o processo defensivo, pois durante anos andaram a golear pornograficamente os adversários que encontravam. Sendo melhores, têm mais tempo a bola. Tendo mais tempo a bola, estão mais tempo a atacar. Estando mais tempo a atacar, logicamente que estarão menos tempo a defender. O melhor contexto para um jogador é o patamar do difícil, mas não, de todo, impossível. O constrangimento moderado nunca parará de o estimular, mas também nunca o desanimará. Os exemplos de Renato Paiva apontam precisamente nesse sentido.

Não há chutos na bola, há Homens que chutam!

Manuel Sérgio

Esta é a grande premissa, que divide o fabrico em série de futebolistas, que não são mais que cópias de cópias, da produção artesanal, por sua vez sentimental, pessoal e única. Olhar para um jogador de futebol, como uma máquina a quem podemos retirar e adicionar peças, é diferente de termos uma perspetiva holística, que o percebe como um real ser humano, no seu todo, de corpo e alma.

Entender o futebol como um desporto coletivo leva-nos facilmente à conclusão que as partes necessitam de interagir umas com as outras, em contexto de jogo, pois é na cooperação que está a chave da evolução. E essa cooperação é fruto dum processo de aculturação que é comum a todos, tendo por base a nossa ideia de jogo, pois será a partir dos macroprincípios (tático) que a compõem que tudo o resto emergirá, a nível técnico (o tal prolongamento de que Isabel Osório refere), físico e psicológico. O coletivo vs. individual é um binómio, mas que se une pela forma como as duas faces da moeda se interdependem.

E tu, ambicioso treinador: preferes a formatação fabril em série ou o humanista processo artesanal?


Bibliografia

Costa, H. (s.d.). As aprendizagens escondidas do treino! Treino Científico.

Costa, H. (s.d.). É Futebol ou Maria vai com as outras? Treino Científico.

Costa, R., & Frade, V. (2014). Conversa do Professor Vítor Frade com o neurocientista Rui Costa. (H. Costa, Entrevistador)

Frade, V. (18 de Janeiro de 2012). Entrevista a Vítor Frade. (J. B. Tobar, Entrevistador)

Osório, I. (s.d.).

Osório, I. (2 de Junho de 2020). Conversa com Isabel Osório. (F. Albuquerque, & Á. Alves, Entrevistadores)

Paiva, R. (22 de Janeiro de 2021). Futebol a Sério. (S. Oliveira, Entrevistador)

Yaya Touré
Sobre Yaya Touré 24 artigos
Amante do treino. Pensador do jogo. 💡

2 Comentários

  1. Aqui a grande questao,pelo menos para mim, enquanto treinador de formaçao,passa por perceber o que melhor vai resultar na pratica
    Eu nao sou fã de exercicios analiticos,mas ja os utilizei,pois quando temos miudos com imensas dificuldades tecnicas,com uma relaçao com a bola muito fraca,e outros ja mais avançados,na pratica de jogo/treino/exercicios abertos,por vezes acontece que o mesmo vai ‘emperrar’,cada vez que a bola chega a esses miudos com mais dificuldades e frusta os outros
    Ou de uma forma mais simples,nao se aprende a correr antes de se aprender a caminhar,e por vezes,nos exercicios mais analiticos,consegue se por os proprios atletas mais a vontade,pois num exercicio aberto,eles sentem se com demasiadas dificuldades
    Volto a dizer,nao sou fã dos exercicios analiticos,mas agora coloco a questao/duvida:
    Se o atleta consegue evoluir melhor nesse tipo de exercicios,optamos por aquilo que nos agrada mais ou aquilo que parece fazer o atleta evoluir melhor numa 1a fase?
    Tal como na questao da multilateralidade
    Nao sou apologista de se forçar algo,mas se nao procurarmos estimular o uso dos 2 pes/maos,nao corremos um risco maior de o atleta nao evoluir na sua plenitude?

    • Bela questão. Cada caso é um caso. No futebol, não há receitas. Em casos muito específicos, o treino analítico poderá dar, pelo menos, um impulso inicial, para que depois o jogador esteja mais à vontade tecnicamente durante o jogo. Portanto, apesar de não aconselháveis os exercícios analíticos, pode haver um ou outro caso que até faça sentido.

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