28 minutos para mais tarde recordar

 Quando o relógio marca 28 minutos e uma equipa ganha 0-3 em casa de um adversário e chegou ao golo de 3 formas diferentes (mais uma bola na barra), algo bem feito estará a fazer. Foi o caso do Braga na passada 4ª-feira no Dragão. Competência nos vários aspectos do jogo garantiram finalizações após ataque posicional, após recuperações de bola em zonas altas e contra-ataque.

Ataque posicional

O Braga pareceu vir com ideias clara para este momento. Apesar de podermos dizer que a equipa se apresentou no habitual 3x4x3, Borja em várias situações ficou aberto com Raúl Silva e Tormena em zonas mais centrais. Foi o que aconteceu nas saídas curtas, Esgaio à direita e o colombiano à esquerda garantiam largura mas pouco profundos serviam  de apoio aos centrais. Al Musrati (mais um grande jogo, no Verão pode perfeitamente chegar a uma equipa da primeira metade da tabela dos big 4) e Fransérgio ficavam nas costas dos dois homens portistas mais adiantados a pressionar.

O Porto de Sérgio Conceição quando pressiona alto geralmente tenta condicionar o adversário a um corredor lateral impedindo que a bola saia dessa zona controlada pelo adversário. A zona de pressão é boa e já garantiu supremacia em muitos jogos com adversários da mesma, ou até maior, valia. O avançado mais próximo da bola, através da orientação do seu corpo, condiciona normalmente o central a jogar no mesmo corredor, sendo que, o médio interior tem o mesmo comportamento com o adversário directo. Depois o homem para quem sai o passe está marcado, quem está à volta reduz espaço e sabemos como os portistas são fortes nos duelos.

O Braga na tentativa de contrariar esta pressão, como já referi, baixou os laterais, colocou o médio do lado da bola na zona da largura da área e fez baixar no momento certo os médios ofensivos (em 30 minutos 11×11 esta situação não se repetiu as vezes suficientes para identificar todo o padrão). No lance abaixo, por exemplo, Piazon aproxima e tabela com Al Musrati. E aqui outra aparente intenção percetível dos bracarenses: mudar rapidamente o corredor de jogo para quem estava à largura do lado contrário. Ou seja, fazer uma pequena sequência de passes num corredor e com o posicionamento dos médios virar jogo para o lado contrário, ,contrariando assim a intenção do Porto. Para isto acontecer é necessário ter alguma paciência e resistência à pressão

Por instantes, e com o Porto reduzido a 10 as rotas foram ainda mais notórias

A capacidade de sair não desorganizou por completo o Porto mas obrigou a equipa da casa a baixar e organizar-se num bloco médio. Nesta fase o Braga também pareceu ter ideias claras: criar e aproveitar o espaço entre central-lateral e principalmente ala-médio nas linhas portistas para progredir.

Não abdicaram de alguma paciência, houve passes para atrair sempre com a noção de que o Porto com 11 atrás da linha da bola faz por condicionar adversário num corredor. 

Se Marega e outro médio se adiantavam para condicionar linha de 3, os outros dois médios tinham Al Musrati e Fransérgio como referências. Os alas preocupados com o ala referência à largura abriam espaço entre si e o médio. Por outro lado, a largura dada por Piazon e Horta no seu corredor quando a bola aí estava, sempre a ocupar espaços interiores, ajudou a explorar essa zona. A verdade é que o Braga conseguiu jogar com os alas dentro do seu meio-campo ofensivo várias vezes com a bola a entre Diaz-Uribe à direita e Corona-Grunjic à esquerda.

Abaixo  possível ver como a largura de Horta é fundamental para receber no espaço Grunjic-Corona, quando o mexicano salta a pressionar Borja à largura.

Os jogadores do meio-campo recorreram à tabela para atrair e eliminar a primeira pressão portista. Quando teve instalado no meio-campo do Porto, o Braga pareceu mostrar que a intenção era mesmo ter o ala como homem livre. Por exemplo, aqui Borja vai para dentro arrastando Corona e Raul Silva pode ligar com Galeno

O primeiro golo é um dos melhores lances para demonstrar a ideia do Braga de chegar ao meio-campo ofensivo e desequilibrar a partir daí. Desta vez com saída a 3, Raúl Silva no meio com espaço procura imediatamente Esgaio à largura. Bola entra pelo chão, mais uma vez, entre Diaz e Uribe. Alguém ataca a profundidade no espaço entre central e lateral, no caso Piazon, que com uma grande assistência serve Horta – desde o inicio da jogada está adiantado em relação aos médios do Porto, situação ideal para finalizar só com defesas pela frente.

Nota para a sequência de erros realizada por Sarr. Desde o não alinhamento com a restante linha defensiva que impede a pressão a Esgaio à forma como foi sendo sucessivamente ultrapassado e não reagiu devidamente. Exibição para esquecer

Pese embora o mérito em chegar aos últimos metros, o Braga não travou a circulação na frente e tentou jogar com os apoios atrás da linha da bola. Ou seja, nessas zonas ao forçar em progressão, mesmo em situações de 1×2 ou 1×3, acabava por perder a bola. Não seria fácil, de todo, mas foi este factor que impediu a equipa de se instalar mais tempo longe da sua baliza tendo a bola

Transição ofensiva

Tal como já foi referido, o Braga apresentou competência em vários momentos. Na transição ofensiva, Abel Ruiz (grande exibição a confirmar qualidade reconhecida) foi colocado estrategicamente de forma a aproveitar o espaço nas costas do lateral que adversário que se adiantava no momento ofensivo. Esta era a referência dos colegas quando após baixarem a defender, recuperavam bola ainda no seu próprio meio-campo. A ideia não é nova, Jesus no Dragão, ainda que de outra maneira, fez o mesmo com Darwin, mas Ruiz revelou capacidade no duelo e variabilidade de recursos: mostrou capacidade para aguentar o duelo e conduzir a bola. Também não descuraram o apoio ao avançado, se este abria no corredor lateral, Horta ou Piazon ocupavam a sua posição dando profundidade no corredor central, sendo linha de passe (lance do contra-ataque que termina no livre para o 0-3) ou fixando o central que não foi ao duelo, afastando ao máximo a cobertura (lance que termina com a bola na barra).

A pressão alta

A defender o Braga optou por uma postura pressionante. Bloco médio-alto em 442 nas saídas do Porto. Horta e Abel Ruiz no meio tentavam impedir ligação dos centrais com os dois médios adversários mais recuados. Al Musrati e Fransérgio um pouco distantes dos jogadores da frente, opção que se percebe porque o Porto procura os alas entre linhas e, com este posicionamento, quando bola entrou nesse espaço estavam capazes de ir condicionar acção de quem recebia bola, e também se Porto jogasse longo estavam mais bem preparados para a 2ª bola, aspecto que o Braga pareceu levar muito a serio e lhe garantiu algum ascendente sobre o adversário

A ideia é boa, na minha opinião, porque os centrais do Porto abrem muito e não têm por hábito conduzir com bola, portanto os avançados podiam estar essencialmente preocupados em guardar o espaço nas suas costas, para bola não entrar nos médios, e sair a pressionar no momento certo, já com essa linha de passe totalmente condicionada. Não obstante, o Porto tentou uma boa solução. O ala em vez de ficar entre linhas, vinha para o espaço entre os médios e avançados. Resposta interessante do Braga: Galeno fechou nessa zona em Corona, e Borja abriu para controlar Manafá.

Por outro lado, o Braga também teve indicadores de pressão bem definidos. Passe para trás servia como indicador de pressão, especialmente útil quando os centrais do Porto nem sempre baixam quando são solicitados neste contexto, o que facilita a tarefa de quem quer provocar o jogo directo, e bola no ar serviu para juntar equipa e impedir mudança de corredor da bola

O 2º golo é o exemplo do escrito acima. Sequência de dois passes para trás do Porto, com os centrais demasiado próximos dos atacantes bracarenses, e Ruiz bloqueia bola de Pepe. Depois Sarr fica com o ressalto, e até podia ter dado em Diogo Costa mas é de enaltecer o mérito do Braga: rapidamente coloca 5 jogadores no último terço do terreno a marcar soluções de passe mais óbvias (largura e passe interior). Sempre juntos e coerentes a  potenciar e a explorar o erro adversário.

Sobre Lahm 33 artigos
De sua graça Diogo Laranjeira é treinador desde 2010 tendo passado por quase todos os escalões e níveis competitivos. Paralelamente realiza análise de jogo tentado observar tendências e novas ideias que surgem no futebol. Escreve para o Lateral Esquerdo desde 2019. Para contacto segundabola2012@gmail.com

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