Do Jamor para o mundo: tendências e contra-tendências no Belenenses vs. Benfica

Grimaldo

Para um novo problema, uma nova solução. É assim que o futebol evolui. E o Belenenses vs. Benfica foi uma amostra representativa disso mesmo.

Nos últimos anos, assistimos à difusão de um futebol de posse de bola, com a constante procura do homem livre através de passes seguros (curtos e rasteiros). Porém, as “cópias rascas” do célebre Barcelona de Guardiola confundem o meio (a forma como fazemos) com o fim (aquilo que queremos), sendo este último o óbvio: golo!

Para fazer face ao futebol apoiado, de ligações nas entre linhas, as defesas zonais subiram – e de que maneira! – o preço da renda, tornando quase impraticável o futebol dentro do seu bloco.

Hoje em dia, tal como já referido anteriormente pelo Ricardo Carvalho aqui do Lateral esquerdo, é preciso jogar o jogo todo! Citando Carlos Carvalhal, “a identidade é a flexibilidade”. Ninguém pode jogar numa posse resguardada. Tal como ninguém pode viver apenas da acutilância. O jogo interior e as dinâmicas de terceiro homem são pinceladas de arte, mas só um louco pode recusar por completo o simples cruzamento ou o passe longo.

Classificações SofaScore

Uma interpretação correta do que escrevi em cima permite-nos pegar no bisturi e analisar cuidadosamente este Belenenses vs. Benfica que, extrapolando para outros patamares de qualidade, praticamente se adapta a qualquer outro campeonato ou liga.

Dito isto, passemos à análise do jogo:

  • O Benfica apresentou-se no seu habitual 4-4-2, tentando administrar o jogo com a posse de bola (tendência!). Uma posse lentíssima e estéril, sem espaços para progredir, isto porque do outro lado estava um…
  • Belenenses em 3-4-3 no momento ofensivo, mas que se mutava para 5-4-1 no momento defensivo. De realçar que os azuis de Belém passaram 90% do jogo numa organização defensiva altamente compacta, na qual os extremos demonstraram preocupação em fechar o espaço interior (contra-tendência!) aos encarnados. Mesmo com os laterais abertos, os extremos do Belenenses preferiam fechar o meio, deixando para os alas da linha de cinco a tarefa de fechar os corredores.
  • Desengane-se quem pensa que a forma de defender do Belenenses pudesse ser facilmente contrariada. A organização defensiva da equipa de Petit quase roça a perfeição. Basta pensar no facto de Rafa, único desequilibrador do Benfica nos últimos jogos, raramente ter encontrado condições para acelerar. Porém, também houve demérito na forma como o Benfica atacou, não só pelos erros técnicos que cometeu, muitas vezes nem sequer forçados – a quantidade de passes errados na primeira parte envergonhavam uma equipa de infantis! – mas, sobretudo, porque a nível tático raramente foram capazes de reconhecer a vantagem.
  • Na segunda parte, o Benfica finalmente conseguiu criar mais perigo. Jogar rápido não é só receber e passar rápido (aliás, isso poderia inclusive levar a um número maior de passes falhados), mas também jogar de forma mais direta. As grandes equipas de hoje em dia são aquelas que melhor conseguem discernir entre uma posse lenta e segura e uma objetividade arriscada, mas fatal!
  • Não é preciso ser-se um sábio para perceber o que mudou no Benfica no segundo tempo: mais agressividade com bola (sim, esta também existe!), que se traduziu em mais movimentos de ataque ao espaço e mais cruzamentos. O ponto de partida pode ser explorar o espaço interior, mas a equipa, seja o Benfica ou outra qualquer, tem de ter um plano B, C, D… Z, se quiser sobreviver no futebol atual – a identidade é a flexibilidade, lembram-se? Se virem o resumo, facilmente concluem que as melhores chances de perigo para os encarnados, incluindo os golos, nasceram sempre da identificação da vantagem: o espaço – aliás, ouviram a flash de Seferovic? Sim, mesmo na primeira parte, foi com movimentos de rutura que o Benfica conseguiu deixar o Belenenses em sentido. E, se por dentro é dificílimo penetrar, então tens de tentar por fora. Porque tirar cruzamentos também é jogar o jogo todo! Haja critério para perceber aquilo que o jogo pede.

A posse pode ser segura e confortável, mas o risco, por vezes, traz resultados imediatos.

Destaques individuais

  • Waldschmidt – não porque fez um grande jogo, mas sim porque pode render mil vezes mais. São dos seus pés que nascem as poucas oportunidades de perigo criadas pelo Benfica na primeira parte. A forma como recebe a um toque e rapidamente encara a última linha adversária é excecional. Houvesse mais quantidade e mais qualidade no ataque ao espaço pelo Benfica e este menino já podia levar um bom número de assistências por esta altura.
  • Seferovic – dois golos. Tem de ser destacado, apesar dos passes falhados de forma ridícula na primeira parte. No entanto, Seferovic sempre teve a particularidade de realizar bons movimentos de ataque ao espaço – quantas e quantas vezes conseguiu ganhar assim espaço para Félix brilhar entre linhas. Apesar do baixo nível técnico, hoje acabou por ser útil na segunda parte, a fazer o que melhor sabe.
  • Grimaldo – duas assistências dum pé esquerdo que poucos cruzamentos tem tirado. Também não está a jogar o que pode, mas nesta segunda parte foi decisivo, ao fazer algo diferente de tentar tabelas e combinações curtas por dentro.
  • Varela – há que louvar a capacidade de adaptação do seu jogo ao longo dos anos. Passou de ser um jogador que só acelerava, para um criativo que joga de cadeira. E hoje, com 36 anos, ainda apresenta um rendimento muito interessante para o contexto do futebol português.
Yaya Touré
Sobre Yaya Touré 23 artigos
Amante do treino. Pensador do jogo. 💡

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