Tuchel e o jogo diagonal – Manipulação dos constrangimentos no treino

Desde a chegada de Thomas Tuchel que o Chelsea não conhece o sabor da derrota, somando 8 vitórias nos 12 jogos ao comando do alemão, recuperando lugares no campeonato e partindo para a 2ª mão da eliminatória da Champions League em vantagem frente ao Atlético. Daquilo que já se conhece de Tuchel de outras paragens, o seu modelo contempla uma grande presença do princípio de jogo diagonal, utilizando a largura máxima para que a bola volte a ir dentro para espaços provocados, princípio esse que é constantemente estimulado em treino graças à manipulação do espaço dos exercícios.

A minha equipa tinha isto quase padronizado: jogar pelos corredores e tentar ganhar a linha de fundo verticalmente. Não queríamos jogar desta maneira. Queríamos jogar através de passes diagonais mais incisivos a partir de trás, de dentro para fora e depois de fora para dentro, e isso era um dos nossos princípios. Então cortámos os cantos do campo nos nossos treinos, ou seja, o campo fica disposto sob a forma de diamante e fazíamos todos os exercícios – jogo formal, jogos reduzidos, jogos de posse – com essa disposição. Assim, criámos condições para forçar a criatividade dos nossos jogadores através das condições do ambiente. E isso mudou o meu papel como treinador: eu não quero ser o treinador que está sempre a parar o treino cada vez que um jogador faz um passe vertical ao longo da linha lateral e diz: “Não! Quantas vezes já vos disse para jogarem na diagonal?!”, eu não quero ser este tipo de treinador, já não resulta. Assim já não necessito deste tipo de intervenção e em vez disso posso observá-los, perceber como eles lidam com esse constrangimento do espaço e ajudá-los a melhorar.

Thomas Tuchel

O exercício de treino

Segundo Karl Newell, o processo de aprendizagem pode contemplar três tipos de constrangimentos que interagem para o surgimento, de forma espontânea, de um padrão de coordenação para uma tarefa específica: os constrangimentos do jogador, os constrangimentos do ambiente e os constrangimentos da tarefa, sendo este último (que inclui, em contexto de treino de futebol, as regras, espaço, objetivos e tempo do exercício) aquele que é mais fortemente manipulado no caso da adaptação de que falamos neste artigo.

Ou seja, a lógica metodológica por trás do condicionamento do espaço do exercício por parte de Tuchel é a de fazer emergir nos jogadores determinados comportamentos intervindo diretamente na tarefa. Os jogadores em exercícios traçados desta forma, mesmo sem feedback do treinador (ou até explicação profunda prévia do seu objetivo), vão descobrindo que a melhor forma de chegar à baliza é procurando o espaço em largura mas rapidamente orientando o jogo para o corredor central, moldando assim a tomada de decisão (seja ela o jogo em passe diagonal para dentro, seja em diagonal para trás para procurar o lado contrário ou a condução em direção à baliza em corredor central), sem ter de a padronizar.

Os próprios jogadores mais adiantados, sem bola, percebem que o tipo de movimento que devem fazer para receber por forma a criar mais dificuldades ao adversário é um movimento de apoio bem enquadrado ou uma rutura em direção à baliza, muito mais do que o movimento diagonal de dentro para fora com pressão nas costas (ou próprio posicionamento sob pressão em cima da linha lateral no último terço, que nem é possível no exercício). E tudo isto entronca com um conceito, já muito em voga, que é o da “descoberta guiada”.

O trabalho tático que promovo não é um trabalho em que de um lado está o emissor e do outro o recetor. Eu chamo-lhe a “descoberta guiada”, ou seja, eles [os jogadores] descobrem segundo as minhas pistas. Construo situações de treino para os levar por um determinado caminho. Eles começam a sentir isso, falamos, discutimos e chegamos a conclusões.

José Mourinho

Reprodutibilidade no jogo

A questão que Tuchel critica essencialmente aqui é a ineficácia de fazer passes verticais paralelos ao longo da linha lateral para extremos ou jogadores de corredor sob pressão, uma vez que isto confere a esses jogadores pouco ou nenhum espaço para darem seguimento ao jogo. Aliás, é um dos padrões de construção mais comuns, com central a jogar na largura para o lateral que por sua vez joga imediatamente no apoio frontal igualmente largo do extremo.

Não é que se trate de um crime (se esse jogador estiver sem pressão e for possível gerar situações de 2v1 com extremo + lateral, porque não?), mas do ponto de vista do treinador que quer que a equipa progrida no campo até ao último terço com o portador a ter o máximo de linhas de passe em diferentes ângulos, tal padrão de construção pode ser muito limitativo (a equipa que defende rapidamente pode sufocar a posse perto da linha lateral).

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Juan Román Riquelme
Sobre Juan Román Riquelme 23 artigos
Fábio Baptista. Experiência como analista em equipas de formação e atualmente em contexto de seniores em Portugal, tanto em análise qualitativa como quantitativa, da própria equipa e do adversário. Vive sob o lema: conhecer o jogo, manipular no treino e assim influenciar o rendimento.

2 Comentários

  1. Muito interessante. Vemos constantemente “conversa” sobre os processos de treino, sistematização de modelos de jogo, etc e poucas vezes vemos um artigo tão claro a demonstrar como um treinador trabalha para implementar as suas ideias.

    • Obrigado! Por vezes ter este olhar sobre os bastidores do processo ajuda-nos a perceber melhor a intencionalidade do que acontece em campo. Abraço!

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