Carvalhal e o exercício de treino – Ensinar segundo os princípios (do jogo)

Muitas vezes damos por nós exasperados ao ver jogadores, seniores e em contextos de elevado patamar de rendimento esperado, a errar sistematicamente em situações de superioridade (3v2, 2v1, 3v1, etc.) ou na alternância entre ritmos consoante o que o jogo está a pedir (seja acelerar ou mudar para controlo de posse com bola). Estará o problema apenas no cognitivo do jogador ou o treino não está a ser (de forma suficiente, adequada e completa) estimulante para a sua tomada de decisão? Um pequeno estudo aos métodos de Carlos Carvalhal, que tem no seu SC Braga um dos ataques mais vistosos da Liga NOS, pode fazer incidir algumas luzes sobre esta questão.

“Exercícios que, ao contrário do que muita gente pensa, não são extremamente complexos, são extremamente simples, porque eu acho que a simplicidade das coisas permite um melhor entendimento. Ou seja, nós procuramos que os exercícios sejam completos, que não se esgotem só no momento de atacar ou só no momento de defender. Imagina que estou a contemplar a organização ofensiva, mas o exercício contempla também a perda de bola e a recuperação do posicionamento. Assim torna-se um exercício mais completo, porque o jogo é contínuo, é fluido, não se esgota. Procuramos dar o máximo de continuidade aos exercícios, pelo menos a 90% deles. Quanto mais abertos forem os exercícios e permitam arranjar soluções para resolver os problemas, melhor. É melhor do que estares a condicioná-los. Os exercícios têm objetivos, mas depois a dinâmica do exercício é que faz com que os jogadores cheguem a determinadas coisas.

Carlos Carvalhal, sobre o exercício de treino.

Segundo Queiroz (1986), estabelecemos que através do exercício de treino existe uma correlação entre a lógica interna do jogo e a lógica didática, partindo da premissa que o momento mais aquisitivo no ensino do futebol é o jogo. Ao desconstruir a estrutura complexa do jogo, percebemos que o próprio jogo e a sua lógica interna se rege segundo princípios próprios (gerais e específicos da modalidade), e que esses muitas vezes dominam e estabelecem uma certa dominância sobre os princípios definidores de modelo de jogo (que emergem da concretização das ideias do treinador).

No vídeo abaixo, Carvalhal parte então destes princípios específicos do jogo, na fase ofensiva, como conteúdo de ensino por forma a modelar a tomada de decisão dos seus jogadores na gestão do ritmo do jogo (posse apoiada vs. acelerar para a vertigem). No entanto, e como se vê abaixo, estes princípios não são regras tácitas – não sabemos como, quando, ou onde vão ocorrer – mas o contexto vai modelar a resposta dos jogadores no sentido do seu cumprimento, cristalizando uma determinada intencionalidade.

  • Progressão/Penetração – progressão em condução do portador da bola em direção à baliza ou de forma a fixar adversário(s) até identificar o momento correto para soltar num colega em melhor condição para procurar o 1v0+GR ou, quando o treinador ativa a entrada de elementos extra, alternar a vertigem para posse por perda de vantagem numérica e posicional.
  • Cobertura ofensiva – os jogadores envolvidos, seja em vertigem ou em posse, estão permanentemente ativos na procura de serem linhas de passe válidas para portador, sendo que o local varia com uma oposição que, pelas características do exercício, é igualmente e constantemente variável.
  • Mobilidade – seja pela chegada em desmarcação à frente do portador na vaga de superioridade; seja, na posse, ao solicitar a profundidade, a alternar entre situações de rutura para apoio ou de apoio para rutura ou até através de outras associações curtas com os colegas (ex.: dinâmica overlap/inlap no corredor de ala + extremo).
  • Espaço – ao alternar à posse, redimensionar ao máximo o espaço de jogo por forma a aumentar o espaço entre jogadores da concentração da pressão contrária, seja em largura ou em profundidade.

Não esquecer ainda que o exercício mantém características de representatividade do jogo já que existe uma fluidez de transição entre os momentos para as duas equipas, não estando estes a ser experimentados isoladamente (algo que não é coerente com o que é o jogo de futebol). E assim, simplesmente ao modificar (ou não) a oposição em termos de número em pleno exercício e de forma dinâmica, os jogadores vão sofrer estímulos diferentes à sua tomada de decisão, vão ter de se adaptar e vão ter verdadeiros momentos aquisitivos sobre como atacar melhor. E entroncamos mais uma vez nos conceitos de “descoberta guiada” e na manipulação dos constrangimentos segundo as abordagens ecológicas no treino desportivo como sustento para o processo de ensino-aprendizagem que se quer operacionalizar. E assim trabalhamos o conhecimento do jogo.

Juan Román Riquelme
Sobre Juan Román Riquelme 60 artigos
Analista de performance em contexto de formação e de seniores. Fanático pela sinergia: análise - treino - jogo.

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