Portugal de Rui Jorge – Do modelo às variantes, a caminho dos quartos

Foi com alguma expectativa que se perspetivou a participação da seleção nacional no Euro Sub-21 deste ano. A convocatória contou com muitos elementos da geração de 99, uma das mais talentosas dos últimos largos anos, tendo esta já conquistado a mesma competição nos escalões de Sub-17 (2016), Sub-19 (2018) e podendo fazer agora o pleno com o título de Sub-21. O início da campanha não desiludiu e a prestação durante a fase de grupos foi imaculada, com 3 vitórias (convincentes) em 3 jogos sem nenhum golo sofrido. E, apesar da enorme qualidade individual que existia nesta convocatória (e que ainda poderia ser superior não fossem algumas lesões ou o facto de alguns elementos já estarem num patamar superior) e de já jogarem juntos em contexto de seleção há algum tempo, é sempre um desafio colocar, em poucos dias de trabalho num estágio de curta duração e a meio de uma época, todas estas individualidades que vêm de diferentes contextos a participar na mesma modelação de uma ideia.

É um dos casos em que o modelo tem que ir claramente ao encontro das características dos jogadores (e ser dominantemente influenciado por elas) para facilitar e acelerar o processo tendo em vista o rendimento a curto prazo. Devido também ao curto tempo de preparação e às características da competição, os aspetos do adversário também modelam, mais do que o normal, a abordagem ao jogo, sendo necessário que os jogadores sejam capazes também de interpretar várias situações-problema de diferentes formas, forçando a sua capacidade de rápida adaptação a diferentes funções. Detalhamos então neste artigo o modelo e as variantes utilizadas por Rui Jorge durante a fase de grupos.

“O recital que viram de fora era o mesmo que eu estava a ver do banco. Disse aos jogadores que é um deleite vê-los jogar daquela forma. Face à qualidade individual quando conseguem em tão pouco espaço jogar de forma tão simples e coletivamente com tanta segurança, o selecionador só tem de desfrutar do que está a ver e foi isso que fiz, assim como muitos portugueses. Agiram coletivamente, tiveram um pensamento comum em relação ao que queriam do jogo e depois executaram. Tivemos momentos muito, muito bons.”

Rui Jorge, após o jogo contra a Suíça

Fase Ofensiva

Nos três jogos da fase de grupos, por consequência de algumas alterações nas opções do onze inicial, a equipa acabou por, dentro do mesmo modelo, apresentar algumas variantes à estrutura base devido tanto às diferentes características que os novos elementos aportavam às dinâmicas como a algumas questões mais estratégicas relacionadas com o adversário.

A base do modelo em termos de estrutura, apresentada no primeiro jogo, assentava num 1-4-3-3 dinâmico com os seguintes subprincípios:

  • Prioridade para a saída em construção apoiada em 2+1 no corredor central, com dois centrais (particularmente Diogo Queirós) muito provocadores com bola e com capacidade de ligação em passe tanto por dentro como por fora, mais o médio-defensivo que se mostrava para receber fora da pressão. Por fora os laterais normalmente apresentavam-se baixos neste momento, sendo também opção na fase I.
  • Meio-campo triangular em regime de 1+2, com os dois interiores posicionados nas costas da pressão da linha média, onde podem receber e rapidamente acelerar o jogo de frente para a linha defensiva. As características particulares Vitinha fizeram com que a disposição se alterasse para 2+1 em alguns momentos pela elevada atração do médio à construção com movimentos de apoio.
  • No corredor lateral observou-se uma elevada mobilidade nas dinâmicas entre extremo, lateral e interior do mesmo lado, com momentos de extremo fora e lateral dentro (mais evidente com Trincão e Correia), outros de extremo dentro e lateral fora (mais evidente com Pote e Dalot), com cobertura ofensiva do interior ou até movimentos de rutura por dentro do interior com extremo fora e lateral em cobertura ofensiva. Estas movimentações acabavam por criar grande dúvida à organização defensiva contrária, gerando-se assim superioridades e triângulos curtos de circulação.
  • Movimentos do avançado, neste caso Tiago Tomás, que às capacidades condicionais tem associado um critério cada vez maior nos momentos de alternar o apoio para a rutura e vice-versa, criando grandes dificuldades ao controlo da profundidade e do espaço entre linha defensiva e linha média do adversário.

Nos jogos seguintes surgiu uma variante do modelo para o 1-4-4-2 losango, tanto uma versão mais clássica no jogo com a Inglaterra, como uma versão quase híbrida com o 1-4-3-3 no jogo com a Suiça.

  • Manutenção dos princípios de construção, sendo que neste regime acabam por ser os laterais a dar a largura máxima ao jogo na maior parte do tempo. Apenas contra a Suíça existiu alguma assimetria devido a Trincão que, fazendo parte do duo da frente, jogou muitas vezes descaído no corredor direito.
  • Dinâmica do losango de meio-campo a favorecer as características dos médios, com grande proximidade e promoção do jogo interior curto, com o médio defensivo a ter a possibilidade curta com os interiores e apoio frontal do 10 que muitas vezes, ao receber, utilizava o 3º homem com os interiores ou girava e enquadrava, procurando acelerar. Este tipo de associações teve o seu auge no 3º jogo, onde os 4 médios titulares sentiram grande conforto neste regime (principalmente Daniel Bragança no papel de 6).
  • A dupla da frente sempre com grande mobilidade e movimentos bem coordenados: com bola no lateral ou num médio enquadrado, um ativa profundidade entre central/lateral nesse corredor (onde Dany Mota é muito forte) e o outro ativa apoio ou acelera para zona de finalização caso a bola entre no colega. Importante aqui também a capacidade de chegada dos médios, seja igualmente com movimentos de rutura ou aparecimento em zonas de finalização.

Fase Defensiva

Seja em que estrutura for, em organização defensiva o modelo adota uma zona pressionante em bloco médio com referências individuais em corredor central. A linha defensiva também mantém a maioria dos seus comportamentos transversalmente às estruturas adotadas, com a linha de 4 a desdobrar-se muitas vezes em 1+3 em resposta a encurtamentos do lateral ao corredor lateral, dos centrais em corredor central (essencial para controlar tudo o que sejam movimentos de apoio e superioridades numéricas na zona de um médio defensivo único) e controlo de cruzamento (com interior do lado da bola a vigiar o espaço central/lateral que abriu e o médio defensivo imediatamente à frente da zona de disputa para controlo de 2ª bola).

Em relação às diferenças entre as estruturas, em 1-4-3-3 a seleção apresentou um desdobramento estratégico da estrutura num 1-4-1-4-1, com avançado-centro a condicionar os centrais com movimento circular para um corredor, referências individuais da linha média, com os interiores a encostarem nos dois médios adversários, extremos a encurtar nos laterais e médio defensivo em deslocamento de cobertura por trás.

Em 1-4-4-2 losango, as principais diferenças apareceram nas primeiras fases de pressão sobre a construção adversária:

  • Os dois avançados alargam a distância entre si, bloqueiam de forma expectante a linha de passe de central para lateral e convidam os centrais adversários (identificadas as suas dificuldades em progressão e ligação interior) a utilizarem as linhas de passe interiores (onde está o overload pelo losango, mais uma vez com referências individuais do 10 e dos interiores) ou a jogarem longo.
  • No jogo com a Suíça, pelas características do 6 adversário que tinha a tendência de vir buscar jogo muito baixo, muitas vezes o 10 executava sobre ele um encurtamento fazendo com que por momentos a estrutura se tornasse num híbrido de 1-4-3-3.
  • A pressão aos laterais adversários ora era executada em modo de perseguição pelo próprio avançado do lado da bola ou o interior desse mesmo lado fazia o encurtamento, com a restante estrutura de losango e avançado do lado contrário a reajustarem sobre as referências de pressão.

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Juan Román Riquelme
Sobre Juan Román Riquelme 21 artigos
Fábio Baptista. Experiência como analista em equipas de formação e atualmente em contexto de seniores em Portugal, tanto em análise qualitativa como quantitativa, da própria equipa e do adversário. Vive sob o lema: conhecer o jogo, manipular no treino e assim influenciar o rendimento.

2 Comentários

  1. Gostava de ver um losango com Tino(6),Bragança e Vitinha(interiores)e Fabio Vieira(10)!

    Gostei muito do meio campo só de “artistas”(Obrigado Rui Jorge!.. Isto é Futebol!Isto é Portugal!^^)frente a Suiça mas contra Italia ou uma França vamos sofrer muito na transição def…

    Força miúdos!É um prazer ver-vos jogar!

    • De facto há uma abundância de talento que permite que possas criar um meio-campo mais associativo em posse curta como contra a Suíça ou dar-lhe outras características com Tino, Gedson ou Filipe Soares (que passou despercebido mas que também tem imensa qualidade).

      Podemos sonhar!

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