A linha defensiva do FC Porto – A intencionalidade que reflete o treino

O Chelsea venceu o FC Porto na primeira mão dos quartos de final da Champions League e, apesar dos dois golos surgirem na sequência de erros maioritariamente individuais (um encurtamento errado de Zaidu com intenção de interceção e uma tentativa falhada de receção/alívio por parte de Corona), ficou visível ao olhar atento o quão bem trabalhada é a última linha dos Dragões, com ações técnico-táticas de topo mundial e que só são possíveis com uma modelação defensiva no treino ao nível do pormenor (como ela é feita ao nível do exercício, só a equipa técnica o saberá) e havendo erros, que certamente terão sido identificados, servirão apenas para melhorar ainda mais o que já é de excelência. O futebol é uma tentativa de controlo do caos em permanência e o mínimo pormenor pode ditar o sucesso ou insucesso, não devendo isso tirar qualquer mérito ao que são as ideias, à metodologia com que são operacionalizadas e à intencionalidade com que são postas em prática.

“A forma como definimos como e onde queremos o nosso bloco defensivo, a forma como olhamos para o adversário, acaba por determinar essas diferenças. Tínhamos de segurar com linha defensiva de quatro, com o Corona a ajustar. Em termos estratégicos o jogo foi muito bem planeado, não foi excelente, porque excelente seria ganhar.”

Sérgio Conceição

Face a um adversário que em organização ofensiva tenta abrir muito o espaço de jogo com alas na largura máxima e um avançado (Werner) que agride muito a linha defensiva no ataque à profundidade, o FC Porto optou por uma estratégias híbrida no que toca à sua linha defensiva: linha de 4, em muitos momentos de 5 com Corona a ajustar como ala direito e em momentos de maior sufoco com linha de 6. Seja em que disposição estivesse, os princípios e subprincípios mantiveram-se:

  • Em relação ao controlo da profundidade, o FC Porto tem uma das linhas mais agressivas da Europa, utilizando a sua linha e a armadilha do fora de jogo para, sem bola, mandar na organização ofensiva contrária. A particularidade aqui é que muitas das linhas defensivas que se observam, mesmo em contexto de Champions, são super reativas aos movimentos dos avançados para profundidade, levando a que baixem muitas vezes sem necessidade em perseguição a estes movimentos. Devido a esta não-reatividade a estes movimentos provocatórios, na primeira parte (e pode ver-se no vídeo abaixo) o próprio Werner sentiu algumas dificuldades para executar o seu movimento circular típico de rutura, estando muitas vezes em fora-de-jogo. Os próprios conceitos de bola coberta e descoberta parecem ser elevados a outro nível: uma bola descoberta, tenha-se como exemplo um central do Chelsea enquadrado em progressão sem pressão, não é necessariamente uma ameaça à profundidade ainda (pois ainda não houve articulação corporal para armar o passe) logo não há necessidade de começar a baixar agressivamente a linha, sob risco de abrir o espaço entre linha média e linha defensiva para um possível movimento de apoio. A leitura corporal do portador é então essencial para decidir o timing para iniciar uma basculação vertical, sendo que isto é feito em milésimos de segundo e daí só estar ao alcance das linhas de topo.
  • Uma definição clara de como deve ser a orientação dos apoios e o tipo de deslocamento adotado consoante o momento e aquilo que o jogo estiver a pedir (Pepe é um dos melhores exemplos de aspetos de locomoção individual no domínio do coletivo de linha e vê-se muitas vezes a dar indicações sobre esses mesmos aspetos aos colegas). Apoios geralmente laterais (ou, no máximo, diagonais) sendo que os deslocamentos curtos de basculação vertical (seja de subida ou descida) são laterais do tipo deslizante (manutenção de maior tempo de contacto dos pés com o solo), permitindo que a uma possível ameaça à profundidade o corpo esteja preparado para iniciar a perseguição no espaço ou seja rápido para encurtar à frente da linha. Para controlo de cruzamento, todos os elementos (fora aquele que faz encurtamento próximo para contenção) rodam os apoios abrindo o ângulo corporal para fora com apoios na diagonal para que a abordagem ao cruzamento com ataque à bola seja a melhor, sendo o timing de rotação dos apoios definido pelo central do lado da bola (único que é visualizado por todos os restantes elementos).
  • Responsabilidades em termos de encurtamentos bem definidas, com o controlo do espaço à frente da linha defensiva a ser feita pelo elemento da linha defensiva responsável por essa zona de pressão, desdobrando a linha defensiva para momentos de 1+3, 1+4 ou 1+5 com redução da largura da linha consoante estivéssemos em momento de linha de 4, 5 ou 6 respetivamente (em disputa aérea ocorre este mesmo desdobramento, com um a disputar e restantes elementos da linha a entrarem em cobertura defensiva, sendo que fica a questão se no segundo golo, aquando da abordagem errada de Corona, a linha defensiva já não deveria, pelo menos, ter acelerado para cobertura próxima ao mexicano). Nesses momentos mais uma vez salienta-se a importância da orientação corporal (desta vez diagonal virada para a bola) preparando uma dobra a uma possível bola colocada no espaço do elemento que abandonou a linha. Nota que foi num destes momentos que surgiu o primeiro golo do Chelsea (linha em 1+5 sem redução de largura e apoios mal colocados dos jogadores imediatamente ao lado de Zaidu), num dos raros erros da linha na execução deste subprincípio.
  • As linhas de topo não possuem apenas referências de controlo da profundidade mas igualmente de controlo da largura, através da basculação horizontal. Em situações de encurtamento no corredor, havia quase sempre garantia de cobertura próxima com a restante linha a manter distâncias relativamente semelhantes entre elementos para não expor os alas a situações de 1v1 no espaço contra os alas do Chelsea ou a movimentos de rutura vindos de trás nas suas costas no espaço central/ala que abriu.
Juan Román Riquelme
Sobre Juan Román Riquelme 34 artigos
Fábio Baptista. Experiência como analista em equipas de formação e atualmente em contexto de seniores em Portugal, tanto em análise qualitativa como quantitativa, da própria equipa e do adversário. Vive sob o lema: conhecer o jogo, manipular no treino e assim influenciar o rendimento.

2 Comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.


*