O recital de Messi na Taça do Rei – Reflexões sobre a formação dos criativos

Neste sábado voltámos a assistir a um verdadeiro tratado futebolístico por parte de Lionel Messi que culminou na conquista da Taça do Rei por parte do Barcelona após uma vitória expressiva por 4-0 frente ao Athletic Club. Nada do que se escreverá é novidade: a qualidade técnica transcendente tornando as ações técnicas de drible/finta/simulação uma mera trivialidade, o posicionamento em campo nas zonas cinzentas e cegas da pressão (o seu “andar” quando sem bola no momento de organização ofensiva é intencional), a visão de jogo aliada à capacidade de passe longo e curto que o tornam num lançador por excelência e a tomada de decisão refinada que lhe permite perceber quando o jogo pede a aceleração ou a pausa, o passe vertical a romper ou a associação curta, contribuindo ainda com 2 golos e participação nos lances dos outros dois.

No entanto o objetivo principal deste artigo, mais do que louvar as qualidades singulares do argentino e pôr em destaque a sua exibição na final, é acima de tudo trazer algumas ideias sobre o futebol de formação à reflexão: quer se goste mais ou menos do perfil, a verdade é que o seu traço de criatividade é algo que qualquer treinador na formação deve querer fazer brotar nos seus jogadores. Mas como? Recentemente, um compatriota de Messi teceu algumas considerações sobre o assunto:

“Não gosto de ouvir dizer que não há jogadores criativos, sobretudo depois de fazerem 800 treinos automatizados. É muito provável que não haja se tudo for automatizado. Se há algum com 15 anos que finta os adversários, dizemos-lhe para não o fazer porque perdeu a bola duas ou três vezes. Sim, vão perder a bola duas ou três vezes, ou cinco ou dez… Com estas defesas em bloco, só um criativo consegue passar. Um criativo é alguém que finta, que inventa algo diferente quando todos os outros fazem o mesmo. Se nessas idades só jogamos taticamente, não podemos esperar jogadores criativos.”

Pablo Aimar

Voltando então à questão do como:

  • Criar contextos de criatividade – promover (e muito) no treino situações de 1v1, 1v2, 1v3 se necessário, com elevado número de repetições e que eles percebam que no jogo vão ter de resolver muitos problemas de forma coletiva mas que serão igualmente chamados a exprimir a sua individualidade e que devem sentir-se confortáveis (a nível motor e psicológico) ao fazê-lo. Criar contextos selvagens no treino, ou a velha questão do futebol de rua – situações onde eles são livres para procurar as soluções que lhes trarão mais sucesso naquele contexto, sem feedback do treinador (coisa que não havia na rua).
  • Ensinar através do jogo – muitas vezes joga-se pouco no treino. Não nos esqueçamos que pelo princípio da especificidade só o jogo vai estimular na totalidade as estruturas funcionais e orgânicas do jovem que são necessárias para a prática da modalidade, e que os exercícios devem obedecer a uma dada representatividade do jogo no que toca aos seus aportes aquisitivos (colegas, adversários, o alvo, as sinergias entre os três, os constrangimentos, etc.) e dar diversas possibilidades de solução para os problemas da tarefa. Portanto não é com exercícios padronizados (ou analíticos descontextualizados) que se vai chegar à complexidade do jogo que se quer jogar e que por sua vez encontra resposta na criatividade e na conceção de um jogador pensante.
  • O erro como ferramenta de ensino – o criativo poderá ter uma tendência para errar mais, porque arrisca mais. A finta extra que resultou em perda, o passe excêntrico que foi mal calculado, tudo isto não nos deve levar à tentação imediata de castrar mas sim avaliar e depois, ou incentivar para forçar a criatividade a manifestar-se mais vezes ou questionar no sentido de guiar para uma tomada de decisão plena (descoberta guiada). Por vezes até subindo o nível de dificuldade ao processo formativo, colocando-o a jogar num escalão acima, com colegas mais maturados fisicamente e que lhe vão colocar outros desafios que vão por sua vez vão fazer com que a criatividade seja ainda mais necessária como recurso para sobreviver.

Fica o apelo, para que venham daí mais Leos (que este já se aproxima do seu ocaso).

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Juan Román Riquelme
Sobre Juan Román Riquelme 32 artigos
Fábio Baptista. Experiência como analista em equipas de formação e atualmente em contexto de seniores em Portugal, tanto em análise qualitativa como quantitativa, da própria equipa e do adversário. Vive sob o lema: conhecer o jogo, manipular no treino e assim influenciar o rendimento.

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