E se tivéssemos sido nós os analistas do Leeds? – Analisar, treinar e travar o Liverpool

Numa altura em que se vive uma espécie de advento na área da análise, com os analistas a terem cada vez mais acesso a todo o tipo de plataformas e softwares de acesso a informação e trabalho da mesma, não é por demais reforçar a importância daquilo que deve ser o conhecimento do jogo e do treino por parte do analista. Só aliando estas duas vertentes o mesmo pode influenciar positivamente o ciclo “performance – análise – treino – performance” e contribuindo assim para a modelação da própria equipa no sentido do enriquecimento do jogar. Nesse sentido, decidimos colocar-nos no lugar dos analistas do Leeds United por uma semana (e logo esta equipa técnica, cujo líder é um dos mais obsessivos pela análise do adversário, que o diga Pep Guardiola) e tentámos reproduzir (de forma reduzida) aquilo que poderia ser a preparação para o duelo com o Liverpool (que resultou num empate a uma bola mas com uma prestação muito interessante por parte dos comandados por Marcelo Bielsa).

“I gave all the information I had on Barcelona to Pep Guardiola. Guardiola had a look at it and he told me ‘you know more about Barcelona than me!’. I do this analysis to ease my anxiety, but it was useless information because they scored three goals.”

Marcelo Bielsa, após duelo contra o Barcelona de Pep em 2012

Análise de adversário

O ponto de partida está na observação dos jogos anteriores do adversário, sendo que o número de jogos ou os critérios para selecionar quais os mais representativos para o contexto variam de departamento para departamento de análise. Para exemplo neste artigo vamos utilizar o jogo do Liverpool frente ao Real Madrid para a 2ª mão dos quartos de final da Champions por duas razões: por ser o jogo imediatamente antes (logo tudo o que sejam padrões e dinâmicas do modelo estarão mais próximas do que poderá ocorrer em jogo) e porque o Real Madrid utiliza uma estrutura semelhante à nossa (Leeds), com um 1-4-3-3 com meio-campo em 1+2, sendo assim possível encontrar mais facilmente correlações entre o que aconteceu nesse jogo e o que poderá acontecer no nosso.

Fazendo a observação do jogo (eventualmente catalogando-o nos momentos e sub-momentos do jogo), vamos utilizar como exemplo a organização defensiva do Liverpool, em particular a primeira fase de pressão, olhando para ela no sentido de procurar não a forma como eles vão limitar a nossa fase I (construção) mas sim que espaços podemos explorar na pressão que eles nos vão fazer: o Liverpool normalmente pressiona em estrutura de 1-4-3-3 mas de forma muito particular, invertendo o trio da frente com o avançado-centro a guardar o médio defensivo, os extremos a condicionarem e a dividirem a linha de passe central-lateral e com os interiores a defenderem toda a largura nas suas costas. Identificámos que tanto Salah como Mané ou mesmo Jota, apesar de terem momentos interessantes de pressão de fora para dentro sobre o pé dominante do central, por vezes dividem mal a linha de passe para o lateral, podendo a bola entrar aí e com esse lateral a ter tempo para se enquadrar para jogo e dar seguimento à construção (o encurtamento do interior normalmente chega mas já tarde).

Está então aqui o espaço que queremos explorar e que podemos mostrar ao nosso treinador principal sob a forma de relatório-vídeo da seguinte forma:

Do treino para o jogo

Uma vez tendo esta informação (até pronta a mostrar aos jogadores), está na hora de preparar contextos de treino durante a semana que estimulem a procura do espaço que identificámos e sem desvirtuar aquilo que é o nosso modelo e a nossa operacionalização (e aqui o analista pode contribuir com algumas sugestões ao nível do exercício de treino). Uma vez que a ideia na sua forma mais simples é sair a jogar pelos laterais para manutenção do princípio de construção apoiada em fase I, sugerimos a utilização frequente de jogos reduzidos e de manutenção de posse que utilizem jokers exteriores nos corredores laterais, tornando essa dinâmica propensa pela identificação por parte dos jogadores da superioridade por fora (a circulação acabará por ir lá parar várias vezes). Os exercícios de organização devem continuar esta tendência, com alguns constrangimentos da tarefa (como a progressão de espaço só ser possível com progressão e ligação em passe dos laterais, colocação de mini-balizas no corredor, manipulação das desigualdades numéricas com homem livre no corredor, etc.) e feedback de acordo com a intencionalidade a que se quer chegar.

A avaliação de todo este processo está exatamente onde tudo começou: no jogo (ver vídeo abaixo).

Os nossos Videos são criados com

Sobre Juan Román Riquelme 63 artigos
Analista de performance em contexto de formação e de seniores. Fanático pela sinergia: análise - treino - jogo.

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