Kayky para Guardiola – Virtuosidade canhota a caminho de Manchester

Nota prévia: Apesar de muitas vezes se associar o modelo do Manchester City de Guardiola a um jogo de posição altamente propenso nos setores mais interiores, com as associações de passe próximas a surgirem pelo aglomerado de jogadores em mobilidade no corredor central (e bem!), não se deve descurar a importância que tem o jogo exterior dos citizens. Na organização ofensiva, a largura máxima do jogo é geralmente dada pelos dois extremos em profundidade (os laterais ou equilibram defensivamente ou entram no corredor central), responsáveis por alargar ao máximo a linha defensiva contrária permitindo o aclaramento das zonas de ação dos interiores em espaço central-lateral ou à frente da linha defensiva. Isto também faz com que estes extremos se encontrem muitas vezes em situações de 1v1 ofensivo frente aos laterais contrários com cobertura longe (central fica a dividir espaço devido à possibilidade de rutura do interior). Sendo assim, parece-nos de particular utilidade para Pep Guardiola ter ao seu dispor extremos que tenham as características para tirar partido dessas situações, concedendo ainda mais variabilidade ao seu jogo pelo acrescento da vertigem no corredor (Sterling e Mahrez são os que mais se aproximam desse perfil).

Assim sendo, é com algum gáudio que assistimos à confirmação da chegada a Manchester (em 2022) de Kayky, jovem de 17 anos (geração 2003) do Fluminense que vem sendo uma das sensações dos primeiros meses da presente temporada em solo brasileiro (já vem rotulado como o “Neymar canhoto”, e quem não quer um?) e que levou os ingleses a desembolsar 16M de euros para garantir o seu concurso. Com Mahrez a entrar na casa dos 30 e com Bernardo e Foden cada vez mais confortáveis no papel de interiores, poderá existir algum espaço de afirmação a médio-longo prazo nos corredores. Pelo mapa de calor combinado da presente época, o jovem brasileiro atua essencialmente pelo corredor direito onde o enquadramento e angulação que tem para jogo com o seu pé esquerdo são otimizados.

Se assumirmos a técnica como a expressão máxima da coordenação motora, Kayky tem para dar e vender e o repertório que tem nas ações técnicas de drible/finta/simulação é impressionante: tanto utiliza a motricidade do seu corpo para habilmente enganar os adversários, ou recorre à relação com bola superior do seu pé esquerdo para receber de sola, encarar e começar a arriscar no gesto técnico (depois tanto se orienta para progressão interior à procura da definição com a canhota – demonstra já uma capacidade bem interessente de associação por dentro em combinações triangulares curtas – como procura o espaço em profundidade para zona de cruzamento) sendo que, apesar de parecer ainda algo frágil fisicamente, é capaz de impor mudanças bruscas de velocidade e direção em condução (indicativo da força que já tem nos membros inferiores) que deixam os adversários em perseguição, ou realizando slaloms pelo meio deles devido à agilidade e balanço que possui. Alguns dados em relação aos pontos anteriores: à data e contando apenas com o contexto sénior, executa uma média de 8.48 dribles por 90 minutos com uma taxa de sucesso de 78%.

Resta esperar para perceber como será a adaptação ao futebol inglês (ainda tem um ano para crescer na sua zona de conforto no futebol brasileiro) e se rapidamente a alcunha de “Neymar canhoto” cai pela imposição da sua própria individualidade.

Juan Román Riquelme
Sobre Juan Román Riquelme 32 artigos
Fábio Baptista. Experiência como analista em equipas de formação e atualmente em contexto de seniores em Portugal, tanto em análise qualitativa como quantitativa, da própria equipa e do adversário. Vive sob o lema: conhecer o jogo, manipular no treino e assim influenciar o rendimento.

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