As ideias de Juanma Lillo – Refletir sobre o jogo que queremos jogar

Sobre o conceito de modelo de jogo, Azevedo (2011) afirma que é a visão futura do que se pretende que a equipa manifeste enquanto regularidade nos diferentes estados de organização do jogo da equipa, isto é, a proposta de jogo que o treinador idealiza, sistematizadamente, para a equipa. Ou seja, tudo o que se pretende do jogar de uma equipa advém de um conjunto de ideias pré-concebidas por parte do treinador (que por sua vez podem ter influências diversas de acordo com as vivências do próprio), não se podendo descurar de todo a importância de incluir na equipa técnica outros elementos que, apesar de poderem (e deverem) ter uma visão crítica sobre a concretização e operacionalização das mesmas, compartilhem e vivam essas mesmas ideias com a mesma intensidade que o autor das mesmas. Um exemplo deste tipo de casamento ideológico de modelação do jogar deu-se em Manchester, quando Guardiola intercedeu sobre a contratação de Juanma Lillo para seu treinador-adjunto (um dos seus grandes mentores no início da carreira como treinador). E se o próprio Pep confessou recentemente numa entrevista que estava descontente com a forma como o seu City jogava, a chegada de Lillo pode ter tido algum impacto na evolução do modelo que elevou o jogar dos citizens finalmente ao patamar que procuram desde que o sheik Mansour bin Zayed Al Nahyan adquiriu o clube em 2008: a tão desejada final da Champions League. Nesse sentido, deixamos aqui alguns pontos à reflexão sobre as ideias do braço direito e mentor de Pep.

“I don’t want someone who is just going to agree with everything. I need a guy to push me, to challenge me intellectually. His knowledge. His intelligence. His humanity. The way that he prepares his sessions. We are quite similar in how we see football and how we understand the game. He is a friend.”

Pep Guardiola, sobre Juanma Lillo
  • A posse como um início e não como um fim: “Terminares com 64% de posse contra quem quer que seja não pode ser um fim em si mesmo porque no futebol tu não jogas para ter a bola, tu jogas para usar a bola de forma gerar a maior quantidade de oportunidades de golo possível. E como se aumenta a probabilidade de marcar golos? Tentando estar a maior quantidade de tempo, e nas melhores condições, o mais perto possível da baliza contrária. Achar que perto da nossa baliza vamos ter mais probabilidades de marcar golo, isso não existe. Há que tentar dar um critério e uma intencionalidade ao passe. Que o passe não exista apenas por passar, que seja com a intenção de conquistar espaços para ameaçar a baliza mais à frente.”
  • Jogar aquilo que o jogo pede: “O jogo é que manda. Se tens que estar mais por dentro ou por fora, se tens que estar mais profundo ou mais baixo, são as circunstâncias do jogo que ditam e o importante é ter jogadores o mais inteligentes possível para interpretarem, em função do que está a acontecer, onde se devem posicionar e com que intenção. Um jogador parado, sem intervir no jogo, pode estar a facilitar contextos noutra zona do campo que permitem que os colegas tenham condições para jogar e nem toca na bola – apenas atrai a marcação reduzindo a densidade adversária sobre a bola. Jogar é isto.”
  • A posse como a organização defensiva: “Eu sou um tipo muito defensivo, por isso é que prefiro ter a bola e não correr riscos. A melhor defesa contra os contra-ataques é o jogo de posse. Se tu jogas em passe, eles não atacam e, aliás, eles é que têm de baixar para que tu não cries superioridades em zonas críticas e fazes com que, mesmo que eles recuperem, tenham de partir em contra-ataque de um ponto ainda mais longínquo da tua baliza e onde tu, ao fazeres muito bem os encurtamentos, impedes que se jogue de frente. E a questão dos espaços é uma falsa-questão: como é que eles têm espaço, se não têm a bola?”
  • O sistema que é outro, constantemente: “O sistema de jogo não é o modelo. Podes colocar a tua equipa no sistema que quiseres que mal a bola se mova e o adversário se mova, o sistema é outro. Tens que te mover e reorganizar constantemente, com sentido, no tempo e no espaço em função da bola e dos acontecimentos do jogo. A lógica do jogo implica que se procure ter mais gente na zona da bola para gerar superioridades com bola ou para aproveitar a inferioridade em momento de pressão. O sistema pode ajudar mas não é um fim em si mesmo. E até o podemos manipular a nosso gosto consoante a forma que queremos magoar os nossos adversários – fazer com que os duelos individuais particulares que existem no jogo sejam mais vantajosos para nós por se darem em espaços mais reduzidos e mais perto da baliza contrária porque é aí que o adversário vai tomar piores decisões.”
  • O motor da pressão é a ordem, não a emoção: “A pressão não existe como um estilo, o que nós queremos é pressionar para jogar e não jogar a pressionar e o que nos facilita a pressão é o que fizemos anteriormente com bola, isto é, se fizermos uma construção larga mas em que viajamos juntos como equipa, e com todos envolvidos no processo, o momento de perda e pressão será mais fácil porque estamos próximos uns dos outros. E muita gente olha para a pressão como algo de carácter totalmente emotivo/volitivo, algo que está relacionado com a vontade e com a quilometragem mas não, tem a ver com uma questão de ordem e de discernir bem sobre o momento.”
  • O jogador global que se procura: “Ou sabes jogar ou não sabes jogar. Quando um jogador me diz que sabe jogar aqui mas que uns metros mais ao lado já não sabe jogar, é paradigmático do futebol atual: escolhem um lugar e jogam ali. Olhemos para o basquetebol em que até existe um perfil de maior especificidade sobre as posições do que futebol e vemos os postes a começarem a vir fora tentar lançar triplos: o caminho é este, o de uma maior globalidade dentro do jogo – não queremos jogadores que joguem a posição, queremos jogadores que joguem o jogo.”

As citações foram transcritas de um compilado de conferências de imprensa de Juanma Lillo.

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Juan Román Riquelme
Sobre Juan Román Riquelme 59 artigos
Analista de performance em contexto de formação e de seniores. Fanático pela sinergia: análise - treino - jogo.

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