Grasshopper Club Zürich – Ideias portuguesas no sucesso suiço

À data da escrita deste artigo, o Grasshopper encontra-se em posição de promoção direta (é líder isolado) e é o maior candidato à conquista da 2ª divisão suíça quando faltam já poucas jornadas para o fim do campeonato. Tal seria a cereja no topo do bolo de um processo muito ambicioso que teve inicio há um ano atrás quando o clube (um histórico no país, sendo o emblema com mais títulos de campeão da Suíça – 27) foi adquirido pela Champion Union HK Holders, empresa de Hong Kong. O sucesso recente da formação de Zurique deve-se em grande parte à liderança da equipa técnica de João Carlos Pereira, que após 6 anos como coordenador na Aspire Academy e uma passagem interessante pela Académica, esteve prestes a conduzir à 1ª liga suíça (saíram ainda líderes isolados) um projeto que tinha por base um plantel que, sendo talentoso, ainda era relativamente jovem (média de idades rondava os 23 anos).

De forma a conhecermos um pouco melhor as ideias que ajudaram a construir esta boa campanha, trazemos excertos de uma conversa com um dos treinadores-adjuntos da ex-equipa técnica do emblema suíço (também recheada de portugueses), João Gião, onde abordámos o contexto suíço, a densidade competitiva, o treino e a modelação de uma forma de jogar.

A realidade suíça

J.G.: Comparando o futebol suíço com o nosso, já não existe tanta diferença a nível de pensamento do jogo ou da característica do jogo. Há algumas diferenças claro, até porque eles têm alguma influência em virtude de serem um país quase tripartido. Aqui nesta parte mais germânica com um jogo de procura da profundidade e de jogo direto em busca do 3º jogador que eles importam da Alemanha, controlando muito a parte emocional do jogo, algo que também os distingue um pouco de nós. Nota-se na parte francesa a influência do futebol francês, são com um impacto mais físico no jogo particularmente com alguns jogadores de ascendência africana. As equipas da parte italiana são muito agressivas, com aquela emocionalidade do sul da Europa. Mas essas diferenças já não são tão grandes e o jogo já tem algum ritmo, também busca alguma pausa. Mas a tendência, acredito, é que a diversidade cultural do futebol se vá esbatendo com o tempo.

A forma de pensar o treino

J.G.: O que se exige é que se desenvolva um processo de treino que ensine uma forma de jogar. E qual era a nossa visão sobre uma forma de jogar? Em traços gerais era uma forma de jogar que fosse muito abrangente, que dentro do jogo os jogadores descobrissem qual a melhor forma de chegar ao golo podendo esta ser através de uma transição rápida e de um futebol mais direto porque identificámos ali o espaço, ou ser através de um futebol mais pausado, elaborado e construído a partir de trás e eu sei que isto pode parecer muito complexo em termos de operacionalização porque é deixar as coisas muito abertas e deixar o modelo de jogo muito aberto. É de facto mais fácil treinar no médio e curto prazo quando tens as coisas mais fechadas e mais padronizadas, mas foi nesta complexidade que eu fui ensinado a pensar pelo professor António Fonte Santa: a aprendizagem constante no treino dos vários jogos dentro do mesmo jogo.

Eu acredito muito naquilo que vivenciei com ele que é, neste caso, a descoberta guiada de princípios hierarquizados e só faz sentido descobrir esses princípios se tiveram lá os ingredientes do jogo e se os pudermos vivenciar. Eu acredito mais num treino integrado, que tenha situações-problema, que tenha a complexidade do jogo, que tenha aquilo que o jogador vai enfrentar no jogo e se possível de uma forma ainda mais complexa no treino para que possa estar preparado para o jogo.

Viver na densidade competitiva

J.G.: Com a densidade competitiva que há hoje em dia, quem consegue responder melhor a isso está vários passos à frente. Nós aqui jogamos muitas vezes até 72h depois do último jogo, muito devido também a esta situação da pandemia e a um campeonato que já de si é muito longo, e não há tempo para trabalhar, é impossível. É uma gestão muito meticulosa daqueles que não jogam para tentar dar-lhes princípios e tentar colocá-los quer a nível físico quer a nível tático no  maior estado de prontidão possível; é fazer um trabalho de recuperação sendo muito incisivo na informação que queremos dar quer naquilo que temos a melhorar quer naquilo que é o plano estratégico do próximo jogo, muito à base de vídeo, de informação, de ir ao campo e, com muito pouca intensidade, recriar algumas situações e reavivar algumas sinergias e princípios. Mas obviamente que esta densidade competitiva tem impacto em termos de tomada de decisão, de disponibilidade mental para o jogo, em termos de criatividade e liberdade emocional.

Um dos princípios do treino mais drásticos e catastróficos para mim é o princípio da reversibilidade – o treino é reversível – em 2/3 semanas aquilo que tu treinaste e achaste que estava completamente adquirido pode ir por água abaixo e tu não treinando podes perder isso. Passa por ter uma ideia no início da época, onde tens mais tempo aquisitivo, por oleares bem a máquina e depois aproveitares todos os pequenos momentos para trabalhares os teus princípios macro e confiares um pouco também na inteligência especifica dos jogadores para, de uma forma mais abstrata (sem vivenciar no treino), compreenderem e reavivarem aquilo que são os nossos princípios.

As sinergias do jogar

J.G.: As sinergias não são as mesmas. A partir do momento em que temos 12/13 jogadores que jogam mais frequentemente entre eles, eles acabam por criar sinergias que tu até provocas através do treino e dos colocar a jogar juntos, mas há coisas que eles constroem entre eles, por vezes com um simples olhar, a forma como o colega se orienta, se quer no espaço ou no pé, se ele já me viu ou não e este tipo de sensibilidade de ligações é tanto mais fácil de criar quanto mais eles se relacionarem e claro que introduzindo um elemento novo isto pode ser fator de mudança. Mas acreditamos que se eles treinam todos juntos segundo os mesmos princípios e partindo do princípio de que a qualidade do plantel é mais ou menos homogénea, se for uma ou outra alteração é possível que não se note muito.

Mas claro que há alguns jogadores-chave que por vezes são quase o nosso modelo de jogo, que pelas suas características modelam o nosso modelo para que ele seja mais isto e não aquilo. Por exemplo: se temos um avançado que seja muito rápido a atacar a profundidade, seja muito poderoso a segurar para que os apoios cheguem com ele e permitindo que a nossa equipa jogue um jogo mais direto e mais profundo, se depois colocamos um avançado mais técnico, sem ataque à profundidade e sem velocidade, apesar de só mudarmos um jogador acabamos por interferir claramente com o nosso jogar.

Juan Román Riquelme
Sobre Juan Román Riquelme 59 artigos
Analista de performance em contexto de formação e de seniores. Fanático pela sinergia: análise - treino - jogo.

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