Ensino e aprendizagem – Trazer o jogo para o treino na formação

“Não gosto de ouvir dizer que não há jogadores criativos, sobretudo depois de fazerem 800 treinos automatizados. É muito provável que não haja se tudo for automatizado. Se há algum com 15 anos que finta os adversários, dizemos-lhe para não o fazer porque perdeu a bola duas ou três vezes. Sim, vão perder a bola duas ou três vezes, ou cinco ou dez… Com estas defesas em bloco, só um criativo consegue passar. Um criativo é alguém que finta, que inventa algo diferente quando todos os outros fazem o mesmo. Se nessas idades só jogamos taticamente, não podemos esperar jogadores criativos.”

Pablo Aimar, sobre o futebol de formação

As palavras de Aimar merecem de facto alguma reflexão sobre aquilo que são as nossas práticas na formação. A aprendizagem do jogo nestas idades mais baixas reside na capacidade de cada criança de analisar e identificar os estímulos mais significativos do contexto, e consequentemente, aplicar as soluções (habilidades técnicas) que se ajustam às suas reais necessidades e recursos (Seirul-lo, P., 2009). Desta forma, o processo de ensino-aprendizagem no futebol deve basear-se em metodologias que utilizem mais a descoberta guiada ou a resolução de problemas, dando prioridade aos processos de perceção (entendimento e leitura de jogo) e tomada de decisão sobre os de mera execução, isto é, mais cognitivo do que comportamental. Essa aprendizagem deve ser realizada pelas próprias crianças quando sujeitas a situações (ecológicas), onde o contexto (exercício) assume um papel determinante ao promover o aparecimento de sinais semelhantes aos do jogo/competição, que são inesperados e variados e levam à melhoria da análise, execução, perceção e tomada de decisão. A própria competição não deve ser orientada apenas para a obtenção de resultados mas sim constituir-se como uma extensão e complemento do treino, constituindo-se como meio preferencial de aplicação e consequente avaliação das aquisições do mesmo – colocar desafios com base no que se fez em treino ou ajustando a oposição para manipular a dificuldade do contexto.

O treino deve ser estruturado em termos de aprendizagem e de ensino progressivo, com exercícios de treino que obedeçam a uma determinada especificidade – que é determinada numa metodologia de treino em que as situações criadas são o mais situacionais possível (e o mais próximas da realidade de jogo), ou seja, tira-se do jogo idealizado aquilo que é mais importante e transporta-se para o treino. Isto significa que deve haver uma constante e permanente correlação entre as componentes técnico-táticas (individuais e coletivas), físicas, coordenativas e psico-cognitivas que estão presentes no jogo. E isto não se esgota nas aprendizagens propriamente ditas, já que numa fase inicial de formação são estas as que proporcionam mais divertimento e prazer no treino e é essencial transmitir essa paixão pelo jogo aos miúdos (que eles saiam do treino e queiram voltar já no dia a seguir, por exemplo) integrando-os em situações problemas contendo praticamente tudo o que inclui o jogo de futebol: bola, oposição e cooperação, escolha e finalização.

A adaptação destas formas de jogo deve fazer-se por referência a quatro princípios pedagógicos: a seleção do tipo de jogo; a modificação do jogo por representação (formas de jogo reduzidas representativas das formas adultas de jogo); a modificação por exagero (manipulação das regras de jogo, do espaço e do tempo de modo a canalizar a atenção dos jogadores para o confronto com determinados problemas táticos); o ajustamento da complexidade tática (o repertório motor que os jogadores já́ possuem deve permitir-lhes enfrentar os problemas táticos ao nível mais adequado para desafiar a sua capacidade de compreender e atuar no jogo). (Thorpe & Bunker, 1984; 1989)

Indo ao encontro desta ideia, este desenvolvimento é conseguido quando é proposto um jogo relativamente acessível, isto é, com regras simples, com menos jogadores e num espaço mais pequeno, de modo a permitir: a perceção das linhas de força do jogo (bola, terreno, adversários, colegas), muitos e diversificados contactos com a bola, a continuidade das ações e várias possibilidades de concretização (Garganta, 2002). Se queremos que eles desenvolvam uma determinada relação com bola temos que tornar essa relação propensa em treino, fazer com que eles descubram e estejam constantemente sensíveis ao objeto com que vão jogar o jogo – não necessariamente através de situações analíticas/isoladas.

Assim sendo, o jogo deve ser utilizado como meio preferencial de ensino/treino de futebol, promovendo situações específicas do próprio jogo, proporcionando às crianças a aprendizagem de ações técnicas – sob a forma de exercício, jogos de posse ou formas jogadas, simplificadas (complexidade reduzida) de modo a tornar mais fácil a sua compreensão, e que promova uma liberdade para a assimilação da técnica – em estreita relação com as ações táticas – igualmente importantes já que ao trazer o jogo ao treino vamos trazer os vários jogos que o jogo tem, seja o jogo de corredores, de posse, de transições, desigualdades numéricas, pressões mais altas ou mais baixas e não esquecendo os próprios princípios gerais e específicos do jogo que modelam a sua lógica interna. O desenvolvimento das capacidades (físicas) dá-se de forma natural e suficiente através desses exercícios e formas jogadas.

A própria comunicação com a criança por meio do feedback merece alguma reflexão. Não é assim tão incomum observar a utilização de um feedback excessivo, descontextualizado, monocórdico e quase que castrador para a tomada de decisão do jovem. Antes de tudo, o treinador tem que estar confortável com uma coisa: a criança vai errar e isso não tem mal nenhum. O erro é das melhores ferramentas de ensino e é sobre onde deve incidir o feedback mas não para reconhecer o erro (pois, ao contrário do que se pensa, a criança é perfeitamente capaz de discernir se teve sucesso na ação ou não), mas para guiar no sentido de afinar essa mesma tomada de decisão através do feedback interrogativo, incitando à reflexão (“porque é que passaste/remataste/fintaste? onde estava o espaço? de onde vem a pressão e para onde queres ir? porque é que recebeste para aqui e não para ali?”) e cristalizando assim o raciocínio que queremos que ocorra em jogo.

Jorge Maciel, adjunto do Lille, sobre o treino na formação

Antes de introduzir a temática do futebol de rua, é importante ressalvar que nos dias de hoje cada vez é mais reduzida a atividade motora (física) nos períodos pré-escolar e escolar. Esta situação deve-se ter em consideração no início da formação destas crianças, proporcionando-lhes uma preparação (motora e desportiva) multilateral, de forma lúdica e adequada à idade, de modo a que o desenvolvimento dos pressupostos coordenativos que constituem um suporte essencial no rendimento no futebol se dê de uma forma sustentada, até porque os jovens nessas idades encontram-se numa fase muito favorável em termos de aprendizagem por disporem de grandes condições de plasticidade ao nível do sistema nervoso. (Adelino et al., 1999).

A verdade é que a rua, através de uma prática deliberada e diferenciada, oferecia hipóteses para as crianças desenvolverem competências para jogar, acrescentando também que o facto de jogarem constantemente com diferentes bolas, em diferentes superfícies, constantemente a alterar colegas, adversários e as suas próprias funções, terem de estar atentos ao meio ambiente (carros, pessoas, etc.) faz com que também surja um treino atencional e percetivo… que também surge no jogo formal quando tem de se tomar atenção aos colegas, adversário, bola e balizas. Cabe ao treinador tentar, em treino, recriar estas situações através da manipulação dos constrangimentos (ou a falta deles) no exercício, aproximando-o do contexto da rua.

Sobre Juan Román Riquelme 63 artigos
Analista de performance em contexto de formação e de seniores. Fanático pela sinergia: análise - treino - jogo.

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