Sobre o regresso de Eric García – A solução está (como sempre) em La Masia

“Talvez não saibam o que Eric significa para mim. É como um filho. Foi o rapaz que depois do confinamento era o melhor central que tinha o Manchester City. Nunca cometeu um erro, nem um. Nós queríamos [continuar com Eric], mas ele não quer. O Barcelona não contrata jogadores normais, querem-no porque ele é um grande jogador.”

Pep Guardiola, sobre Eric García

Permita-se a este artigo um pequeno preâmbulo para deixar algumas notas sobre a formação do Barcelona: é verdade que a formação de jovens jogadores tem uma forte componente cultural em que com o passar das gerações, e com o sucesso que essas mesmas gerações vão tendo, há um perpetuar de uma série de características que sinergicamente fazem com que os meios de formação (academias, escolas de futebol, etc.) utilizem práticas para que essas mesmas características venham ao de cima. Olhando para os jogadores que saem de La Masia, identificamos alguns aspetos gerais comuns: o recorte técnico, a tendência para associação em passe curto e a inteligência posicional. Mas tal não se consegue simplesmente planeando a formação do jovem jogador com a ideação “vamos então fazer uns rondos, uns jogos de posse e exercícios que contemplem muitas ações de passe/receção”. Tem que ir muito além disto e Paco Seirul-lo, o metodólogo do treino com influência mais profunda na era dourada da formação catalã, deixa isso muito bem patente quando aquilo que é o treino estruturado – O treinador deve ajudar a equipe e os jogadores – o objetivo é colocar os miúdos a aprenderem a interpretar constantemente o que acontece em cada situação do jogo em dois espaços diferentes: o espaço de intervençãoonde o jogador deseja atuar sobre o adversário e, em número reduzido, os colegas mais próximos ajudam o portador a concluir seu plano de forma bem-sucedida, e o espaço de fase, onde o espaço restante longe da bola deve ser ocupado de uma determinada maneira pelos demais colegas. Trata-se fazer com que os jogadores aprendam a identificar as necessidades criadas em cada espaço e executem os comportamentos adequados em cada momento para gerar superioridades numéricas (“somos mais”), posicionais (“estamos melhor posicionados”), socioafetivas (“relacionamo-nos melhor”) ou qualitativas (“somos melhores”) em função das condições de cada jogador implicado no espaço de intervenção. Isto tudo para dizer que La Masia continua, em termos puramente ideológicos e seguindo os princípios descritos em cima, a ter potencial para ser uma grande escola de formação de jogadores.

“Alguns jogadores não têm nenhum problema com esta metodologia, outros estão muito habituados a receber instruções. Digo que estes últimos são preguiçosos. Estão habituados à preguiça. Está aqui alguém a dizer-me o que fazer, a responsabilidade é dele e não quero saber do resto. Mas no campo eles têm de decidir por eles próprios, não podem olhar para o treinador e perguntar se este passe é correto ou não. Assumem a responsabilidade desde início e isto tem grandes consequências no jogo.”

Wolfgang Schollhorn, da Universidade de Mainz, sobre a metodologia de Paco Seirul-lo

Indo então ao busílis da questão, o Barcelona anunciou a contratação daquele que é provavelmente o melhor central do mundo da geração de 2001 a “custo zero”. Eric Garcia regressa então a uma casa que bem conhece (ingressou no clube com apenas 7 anos) e que abandonou em 2017 para rumar ao Manchester City. Apesar de ser uma das coqueluches dos citizens e de Pep Guardiola, o jovem de 20 anos decidiu regressar a casa e é uma contratação que, atendendo ao perfil, faz todo o sentido: completamente identificado com a matriz de jogo do clube onde cresceu, o central destaca-se essencialmente pela capacidade que tem em fase de construção seja em progressão com bola (com possibilidade de tirar um ou outro adversário recorrendo a drible/simulação curta) ou associando-se através do passe curto (por dentro ou por fora, saindo da pressão e encontrando colegas mais à frente) ou longo, sendo o complemento ideal para Piqué nesta fase e tendo já um espaço relevante no contexto da seleção A espanhola (está convocado para o Euro). Ou seja, a sua contratação faz todo o sentido.

E se os culés atravessaram recentemente uma fase de grande turbulência e divisão interna que resultou no regresso de Laporta como presidente, pode estar no retorno às bases identitárias do clube, à reabilitação de La Masia como centro formador (muito foi escrito sobre o seu declínio) e à renovação (a base do onze inicial com formação no clube – Piqué, Alba, Busquets, Messi, Sergi Roberto – está envelhecida) recorrendo a jovens que tenham crescido completamente imersos na forma de jogar característica dos catalães (e não os deixando sair precocemente sob risco de os perder – o caso do regresso de Eric García teve muito de sorte também) a chave para o FC Barcelona voltar a ser a principal referência do futebol mundial e que, há sensivelmente 10 anos atrás, mudou a forma como muitos de nós observam e interpretam o jogo. O primeiro passo (de bebé) está dado.

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Sobre Juan Román Riquelme 63 artigos
Analista de performance em contexto de formação e de seniores. Fanático pela sinergia: análise - treino - jogo.

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