O losango e a variação de corredor – Lições da final de olho no futuro

Começando por fazer um pequeno comentário à prestação de Portugal na prova: ninguém coloca em causa o valor individual e de potencial futuro desta geração (que tanto deu e continuará certamente a dar ao futebol português – vários títulos europeus seja em contexto de clube ou de seleção), bem como a longa e meritória caminhada até à final (não seria a melhor seleção portuguesa da história se tivesse vencido, nem tudo está mal por terem perdido). Posto isto e passando para a reflexão tática sobre algumas debilidades do modelo, a Seleção Nacional de Sub-21 perdeu com um golo que já se vinha a anunciar dentro do próprio jogo já há algum tempo: veja-se o vídeo abaixo em que se compara o lance do golo de Nmecha com outro ocorrido ainda durante a primeira parte (e que não foi o único do género):

Estes lances provocam a clássica reflexão dentro dos modelos que se estruturam em 1-4-4-2 losango sobre o controlo da largura, neste caso sobre os subprincípios em relação à variação rápida de corredor já em fase criativa (entrada do último terço). Sobre o lance do golo em particular já se colocaram vários argumentos: que se os encurtamentos à largura são feitos pelos interiores que deveria ser Bragança a acelerar logo que há indicador de variação pela orientação corporal do portador; que Conté deveria ter sido mais agressivo no seu encurtamento sobre Baku por forma a distorcer-lhe o binómio tempo/espaço que permitiu a assistência; que o posicionamento da linha defensiva não era o mais correto, com um alargamento excessivo do espaço central-central devido à cobertura muito próxima de Leite sem basculação horizontal curta nem ajuste de linha de Queirós e Dalot. Todos estes argumentos têm a sua validade mas parece-nos haver um problema mais a montante e que depois expõe a equipa a todas as situações enumeradas acima: é previsível que os interiores que Portugal utiliza (Bragança, Vitinha ou F. Vieira) tenham dificuldades em defender toda a largura do campo pelas características condicionais que (não) têm e que, a existir variação, os laterais possam ser expostos a situações desconfortáveis com a chegada do lateral contrário e concomitantes movimentos de rutura nas suas costas, estando o desequilíbrio criado. A questão é: porque é que esta variação de corredor rápida é sequer permitida?

A resposta é relativamente simples e retomando então aos dois lances do vídeo: a Alemanha invariavelmente iniciava a sua organização ofensiva com jogo de corredor envolvendo muitos jogadores do lado da bola e em espaço reduzido (“lado forte”) e de seguida procurava a referência do 6 (Niklas Dorsch) para ser ele a acelerar diretamente para a largura em lado contrário (menos povoado – “lado fraco”) dada pelo lateral que por sua vez teria então espaço para progredir e encarar a linha defensiva, explorando todas as debilidades que enumerámos em cima. A questão é que nesses momentos em que a Alemanha entrava em fase criativa no corredor deveria ter havido uma zona pressionante mais agressiva com vigilância do 6 para que não houvesse variação (nestes lances estava mesmo sozinho) e a Alemanha se mantivesse a jogar no mesmo corredor e mesmo havendo variação, que ela fosse mais lenta (tivesse que circular por mais jogadores/circular por trás uma vez que Dorsch teria maiores dificuldades em estar enquadrado para jogo, dando assim tempo para a equipa – e particularmente o meio-campo – bascular horizontalmente com maior eficiência). E se o avançado do lado da bola normalmente encerra a linha de passe da cobertura ofensiva dada pelo central adversário desse lado, tem que ser responsabilidade do 10 (mais comum) ou do avançado do lado contrário (dependendo da situação uma vez que o modelo assume comportamentos de zona) vigiar o 6.

Para exemplificar uma possível solução para esta problemática, deixamos alguns comportamentos da seleção A francesa (que também assume uma estrutura de 1-4-4-2 losango em alguns jogos) frente à seleção portuguesa num encontro recente com bloqueio da circulação pelo 6 devido à vigilância próxima constante pelo 10.

Juan Román Riquelme
Sobre Juan Román Riquelme 59 artigos
Analista de performance em contexto de formação e de seniores. Fanático pela sinergia: análise - treino - jogo.

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