Análise de adversário – Hungria (UEFA Euro 2020)

A primeira jornada da fase de grupos do Euro 2020 (que se realiza em 2021), que marca o início da defesa do título de campeão europeu por parte da nossa seleção, coloca-nos pela frente a seleção da Hungria comandada pelo treinador italiano Marco Rossi. Apesar de serem em teoria a equipa menos cotada do grupo F, os húngaros têm revelado alguma evolução recente em termos de resultados com o recente 1º lugar na fase de grupos com consequente promoção na Liga das Nações, um sólido começo na qualificação para o Mundial (2º lugar, atrás da Inglaterra, com 2 vitórias e 1 empate em 3 jogos) e desde o final da fase de grupos da qualificação para o Euro (em Novembro de 2019) até à data apenas perdeu um jogo (frente à Rússia, na Liga das Nações) em onze realizados. Para além disso, os húngaros deverão ter a possibilidade de jogar em casa perante o seu público e com lotação esgotada na Puskás Aréna. Assim sendo (e uma vez que havendo pouco tempo de treino neste contexto, a análise de adversário tem um peso superior), deixamos aqui uma análise ao modelo da seleção húngara bem como alguns aspetos a explorar num encontro onde Portugal parte claramente como favorito.

“Of course, even though we will clash with some of the best teams in the world, there are still unacceptable results. We need to keep our feet on the ground, but we have to show that last year’s results weren’t only a matter of luck. We need to work and play with the same attitude and show them that we are a team. At the Euro, the most important thing would be bravery, and no fear of the opponents. On paper, we don’t stand a chance but in football anything can happen.”

Marco Rossi, selecionador da Hungria

Fase Ofensiva

Apesar de não ter muitas individualidades de topo europeu, a Hungria apresenta alguns princípios interessantes e procurando até alguma construção apoiada, recorrendo ao jogo direto na referência aérea (avançado-centro de grande porte, Szalai) apenas se forçada a tal. Em organização ofensiva, a estrutura base do modelo é um 1-3-5-2 com meio-campo em 1+2. A saída em construção dá-se geralmente com os centrais bem abertos e com a largura máxima do jogo a ser dada pelos alas numa posição média/baixa por forma a poderem ser igualmente solução curta. Nas costas da pressão está o meio-campo em triângulo invertido com os interiores profundos mas com a possibilidade de realizarem alguns movimentos de apoio para o lado do 6 que é a principal referência em construção (Ádám Nagy) – muita da construção baseia-se em procurá-lo seja por ligação direta pelos centrais, ou indo ao ala para jogar dentro nele ou 3º jogador com os interiores. Mais à frente, os dois avançados geralmente realizam contramovimentos sobre a linha defensiva apesar de Szalai, pelas características físicas que tem, seja mais fixo e procure alguns movimentos curtos de apoio e não tanto de aceleração para a profundidade. Na chegada em zonas de finalização, normalmente há envolvimento dos dois alas em simultâneo, com ocupação das zonas de finalização pelos dois avançados mais o ala contrário e um dos interiores em movimento de chegada para 2ª bola. Podem existir algumas variantes de estrutura, como no último jogo, em que no momento de organização ofensiva um dos interiores deixava-se ficar em profundidade e o outro baixava para perto do 6, modificando o sistema quase para um 1-3-4-3, colocando mais pressão por igualdade numérica sobre a linha defensiva (na altura frente a uma linha de 5).

Fase Defensiva

Em organização defensiva, a equipa parece adotar comportamentos de zona pressionante, com uma estrutura de 1-5-3-2 com as variações a surgirem essencialmente na pressão efetuada no corredor lateral que varia consoante o discernimento que a equipa parece fazer sobre se deve executar uma pressão mais alta ou não nesse momento. Os dois avançados geralmente efetuam apenas uma pressão de condicionamento para jogo exterior e aí: numa pressão mais agressiva sai o ala a pressionar no corredor, com basculação horizontal da linha defensiva (o central do lado da bola faz cobertura defensiva bem próxima ao ala), o interior do lado da bola encurta sobre a linha de passe mais próxima por dentro e o 6 faz cobertura ao interior; ou numa postura mais cautelosa, sai o interior a pressionar no corredor e o ala mantém a integridade da linha de 5, com os dois médios a entrarem em cobertura defensiva. A linha de 5 muitas vezes devido aos encurtamentos agressivos dos alas desdobra-se a 4 ou mesmo a 3 (como no vídeo abaixo em que os alas encurtam e há disputa aérea de bola longa dos centrais em 1+2 para controlo da profundidade).

Aspetos a explorar

  • Espaço à frente da defesa – derivado do facto de Nagy ser um 6 pouco posicional e facilmente atraído para fora do seu espaço (principalmente em momentos de reação à perda), não havendo inversão do triângulo com cobertura por parte dos dois médios, é assim exposto o espaço entre linha defensiva e linha média onde pode aparecer um jogador com espaço para se enquadrar. Pode ser interessante nesses momentos atrair Nagy com movimento de apoio e depois um 2º jogador (um dos criativos, Bernardo, Félix, Bruno) aparecer nas suas costas para criar.
  • Controlo de cruzamento – mais uma vez alguma dificuldade dos médios em controlarem o espaço à frente da linha aquando dos cruzamentos, sendo que pode ser interessante atacar as zonas de finalização com elementos que atraiam mais a atenção da linha de forma a afundá-la (Ronaldo, André Silva) e depois ter elementos a solicitar o cruzamento atrasado no espaço que abre à frente da linha.
  • Espaço nas costas dos alas – uma vez que os dois alas se envolvem muito em processo ofensivo – e por vezes até em simultâneo e atrasando-se depois em recuperação defensiva – reduzindo assim números à linha defensiva, uma hipótese pode ser a exploração desse espaço nas costas com movimentos de rutura e solicitações em passe no espaço central-ala (Jota é muito forte a atacar esse espaço) pelos elementos da frente portuguesa.
  • Cantos ofensivos – como referido acima, já que a Hungria efetua uma marcação do tipo individual, pode-se colocar em cima da mesa a possibilidade de realizar bloqueios no sentido de libertar alguns elementos mais fortes no jogo aéreo dessa marcação.
Sobre Juan Román Riquelme 63 artigos
Analista de performance em contexto de formação e de seniores. Fanático pela sinergia: análise - treino - jogo.

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