Em Sevilha, não cometer os erros de Munique – Aí vem o 1-3-4-3 outra vez

“A Alemanha jogava diferente, com três atacantes, mas provocando avanço dos dois laterais. Nós jogamos numa linha a quatro e sabíamos que não tínhamos igualdade numérica sequer. E no futebol no mínimo tínhamos de garantir isso. O ideal era ter superioridade numérica. Faltou um homem junto dos centrais, para que não tivéssemos de enfrentar situações de cinco para quatro.”

Fernando Santos

Na continuação da caminhada neste campeonato da europa, a seleção nacional vai enfrentar a Bélgica em Sevilha a contar para os oitavos de final da competição e se a Alemanha conseguiu criar sérios problemas à defesa lusa com a estrutura de 1-3-4-3, os belgas são verdadeiros especialistas neste sistema (já se dispõem desta forma há anos e foram das primeiras equipas desta “nova era” dos sistemas com 3 centrais). Com um percurso imaculado na prova até agora (3 jogos, 3 vitórias), os belgas não serão certamente um adversário fácil e será essencial rever os erros cometidos na partida de Munique, estudar possíveis soluções, corrigir rapidamente em treino e procurar conter esta geração talentosa dos belgas que desde o Mundial de 2014 anda em busca de um título que valide as expectativas em si colocadas (e será uma das últimas oportunidades que terá para o fazer).

Em relação ao modelo, a equipa em organização ofensiva acaba por ter algumas semelhanças posicionais (mapa abaixo) com a Alemanha, sendo que as principais diferenças estão na dinâmica dos médios (os alemães utilizavam dois médios com características de médio-interior no miolo com jogo na diagonal, os belgas colocam um médio mais defensivo a complementar De Bruyne em regime 1+1 – Dendoncker ou Witsel), nas sinergias do trio da frente (Gnabry era mais agressivo sobre a profundidade enquanto que Lukaku é mais forte a jogar de costas em função de apoio frontal, com situações de inversão da frente de 2+1 para 1+2) e nas características dos alas (Kimmich e Gosens derivam da função de lateral para ala, os belgas colocam como alas alguns jogadores com background de extremos – T. Hazard, Chadli, Trossard).

Em relação a possíveis soluções para contrariar esta organização ofensiva, a Bélgica defrontou recentemente num amigável uma equipa que, de forma semelhante a Portugal, desdobra o seu 1-4-3-3 numa versão de 1-4-1-4-1 em organização defensiva e que colocou alguns problemas aos belgas com premissas relativamente simples:

  • Pressionar os centrais exteriores com os interiores – contra a Alemanha optou por em certas alturas pressionar na forma de 3v3 com o trio da frente sobre os centrais. O problema é que batendo essa pressão os corredores ficam expostos pelo grau de exigência na recuperação defensiva que é imposta particularmente aos extremos. No exemplo abaixo, e para poupar os extremos a isso, a pressão ao central exterior que assume a progressão é feita pelo médio interior do lado da bola, com o restantes médios a entrarem em cobertura/vigilância dos médios belgas, garantindo no mínimo a igualdade numérica no corredor central.
  • Controlo dos movimentos de apoio do ponta na zona do 6 – um dos movimentos prediletos de Lukaku é a baixar em apoio entre linha defensiva e linha média, receber de costas e a partir daí ou roda e acelera ou utiliza o 3º homem e alterna ele próprio para a profundidade. Nesse sentido, é essencial controlar a zona à frente da linha defensiva e no exemplo abaixo há alternância entre esses movimentos serem controlados pelo 6 ou com encurtamento agressivo do central sobre o ponta (com necessário acompanhamento dos movimentos complementares à profundidade pelos restantes elementos da linha e extremos se necessário).
  • Sinergia extremo + lateral para vigilância dos alas – a vigilância do envolvimento ofensivo dos alas (também simultâneo, ainda para mais alguns destes jogadores têm ainda mais perfil para a profundidade ofensiva que Kimmich ou Gosens) a ser feito essencialmente pelos extremos (única variante poderia ser uma situação de passe atrasado para o central da cobertura ofensiva e o extremo continuava a pressão e o lateral aí sim encostava no ala), com os laterais a terem aí alguma soltura para controlarem os movimentos dos médios ofensivos de suporte ao ponta (a principal dificuldade desta pressão, já que estes deambulam por vezes em zonas cinzentas, sendo essencial a comunicação lateral – trinco – extremo – central do lado da bola na gestão da marcação zonal a estes dois elementos).

Uma pequena nota para algumas possibilidades em organização ofensiva (e talvez uma das grandes debilidades desta estrutura quando permite que os seus alas se projetem de tal forma): vai haver espaço nas costas dos alas e há possibilidade de explorar o espaço ala-central em transição. Para se perceber melhor como, segue a explicação de um treinador que já derrotou os belgas bem como um golo que os mesmos sofreram recentemente como exemplo.

Sobre Juan Román Riquelme 67 artigos
Analista de performance em contexto de formação e de seniores. Fanático pela sinergia: análise - treino - jogo.

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