Estaria Pedri no Europeu se fosse português?

A pergunta parece sem sentido, dada a qualidade do jovem jogador espanhol, mas a reflexão que irei apresentar acaba por ser bem mais profunda. Pedri é um jovem de 18 anos que foi titular do Barcelona este temporada mas, no ano passado, começou a época com 16 anos a ser titular no Las Palmas, uma das equipas fortes da segunda divisão espanhola. Sim, leram bem, tinha 16 anos a jogador num patamar profissional. É verdade que falamos de um jogador que apresenta ter condições para ser de topo mundial, mesmo sendo ainda muito jovem, mas quantos jogadores de 18 anos se assumiram, ou foram aposta, num clube grande português nos últimos anos? Nuno Mendes e TT este ano podem ser exemplos, mas a verdade é que são muito mais a exceção e força das circunstâncias do que o hábito: Ruben Amorim trouxe uma cultura diferente ao Sporting, e não nos podemos esquecer as dificuldades financeiras que forçaram algumas destas apostas por não haver recursos para ir ao habitual, mas questionável, mercado. A verdade é que há apostas e apostas e, tirando João Félix e Ruben Neves (ambos por motivação dos treinadores e não por um planeamento do clube), não me recordo de nos últimos 15 anos um jovem português ser aposta no meio-campo de um grande pela sua habilidade como criativo e organizador de jogo, sendo que antes deles só mesmo João Moutinho tinha sido exemplo disso, já há quase 20 anos.

Engane-se quem pensa que defendo a inclusão de todos os jogadores da formação numa equipa principal. Há jogadores preparados para tal aos 18 anos, mas a verdade é que a maioria, por algum talento que tenha, não está. Sei também que Pedri, apesar da sua qualidade técnica, relação com bola e conhecimento do jogo tem também características físicas e aptidões naturais para se envolver no jogo que permitem que chegue a este nível numa tenra idade, ao contrário de jovens da mesma idade com o mesmo talento. A verdade é que Portugal tem tido gerações jovens brilhantes, e muito poucos dos melhores jogadores dessas equipas têm tido a sua oportunidade em terras nacionais. Alguns são vendidos por milhões antes de serem aposta, outros estão nos plantéis mas sem jogar, e outros andam em empréstimos que nem sempre os beneficiam para “crescer e ganhar experiência”. Volto a frisar que nem todos os jogadores estão preparados, mas se há coisa que posso dizer é que Pedri não precisou de experiência para se destacar no Barcelona ou na seleção espanhola. Tal como Ansu Fati não precisou, ou De Ligt, Frenkie De Jong ou Mbappe. É óbvio que falamos de talentos de nível mundial, mas não teremos também em Portugal talentos assim? Os resultados nos escalões jovens e a qualidade dos treinadores de formação portugueses não mereciam outro olhar perante alguns destes jovens que, ano sim, ano não, são substituídos por estrangeiros que custam milhões para terem poucos minutos por ano?

Este é um tema difícil de analisar, e ao qual nem sempre tenho resposta, mas a verdade é que ontem via Pedri jogar naquele meio-campo espanhol e questionava-me se seria sequer convocado por Fernando Santos para este europeu, ou se seria titular mesmo sendo chamado. Voltando ao início do texto, a verdade é que se calhar Pedri ainda não seria Pedri, mas sim um jovem da formação que daqui a 5 anos poderia estar no topo. Quanto a jogadores da formação, não acredito nem em 8 nem 80 quanto a aposta nos jovens: quem está preparado tem que ser aposta, quem não está precisa de minutos e ritmo de jogo, e até há jogadores que precisam de estar no banco e ir entrando a espaços, como qualquer outro jogador.Para concluir com outra certeza, recordo que a tal “experiencia e necessidade de crescimento” que servem de argumentos para a não utilização de muitos jovens só chega caso… isso mesmo, caso joguem, e há alguns jovens em Portugal que podiam perfeitamente jogar e ser aposta em clubes grandes.

O artigo já está longo, mas este último parágrafo é dedicado a Pedri: o melhor jogador da seleção espanhola até ao momento, aos 18 anos a brilhar numa competição internacional, mas joga como se estivesse num treino dos Juniores de La Masia: cabeça levantada, noção dos espaços e colegas a qualquer momento, toque de bola de qualidade elevadíssima e coragem para jogar como poucos. Não é nem o próximo Iniesta, nem o próximo Xavi, o seu nome é Pedri, e certamente chegou para ficar:

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Sobre RobertPires 78 artigos
Rodrigo Carvalho. 23 anos, experiência como treinador adjunto e analista em equipas séniores em Portugal e nos Estados Unidos. Passou pela Federação de Futebol dos Estados Unidos no departamento de Formação de Treinadores. Em colaboração com a Proscout, trabalhou diretamente com equipas técnicas profissionais e produziu relatórios de jogadores. Podem seguir muito do seu trabalho em @rodrigoccc97 no Twitter.

5 Comentários

  1. Também ajuda muito a esta rápida adaptação e integração de um jovem com enorme talento a existência de uma linguagem comum a todas as seleções espanholas que permite que estes encontrem na seleção um espaço comum de expressão dessa mesma linguagem.

    Na seleção portuguesa pelo contrário não existe nada disso. É uma amálgama de excelentes jogadores em que alguns deles interpretam o jogo de forma semelhante e outros diametralmente oposta.

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