Metamorfose posicional no corredor – Guardiola, Nagelsmann e o lateral que vai dentro

“The main reason is to have more people in the middle to pass the ball, four, five, six players, when you make short passes you have more control. When we are looking to create immediately that is not good so we have a lot of players in the middle to create the situations. This is the only reason why. Not all fullbacks can do it.”

Pep Guardiola, sobre o posicionamento interior de Cancelo

Se há 15 anos atrás o dogma vigente na posição de lateral exigia um posicionamento constante na largura máxima, uma capacidade singular de progressão com bola e de executar dinâmicas de overlap constante ao extremo em busca da linha de fundo para cruzamento, as novas tendências posicionais para esta posição vieram modificar o perfil de características destes atletas: o lateral robusto fisicamente – potente, veloz, capaz de produzir acelerações em série pela ala -, especialista na ação de cruzamento, confortável em jogar e orientar-se espacialmente para o jogo perto de um dos limites do campo, começa paulatinamente a conviver com uma nova espécie de lateral refinado tecnicamente, com tomada de decisão afinada para a construção mais pausada e associativa e com um posicionamento mais central no jogo (exigindo que observem e se orientem para o jogo de uma forma diferente, já que por vezes uma orientação frontal para o sentido da progressão pode não ser imediata).

E se este processo teve início com laterais de perfil até mais “clássico” mas que com o a exposição a essas dinâmicas de ataque posicional foram adquirindo essas competências – exemplos mais flagrantes o de Lahm e Cancelo que com Guardiola avançaram para terreno interior e transformaram a saída do 1-4-3-3 do catalão numa subestrutura de 3+2 com o lateral ao lado do 6 – começam também a aparecer laterais vindos da formação já com este perfil (provavelmente pela exposição durante a formação a posições do corredor central). Um exemplo recente foi o de Stanisic (geração 2000) na primeira jornada da presente Bundesliga em que Nagelsmann optou muitas vezes por uma assimetria na ocupação posicional nos dois corredores com lateral fora e extremo dentro no lado esquerdo (Davies ainda tem esse perfil em que o seu conforto está em atuar por fora) e extremo fora e lateral dentro no lado direito, com Stanisic a procurar o posicionamento interior nas costas da pressão (a saída em 3+2 era proporcionada pela integração do 6 construtor – Kimmich – no meio dos centrais).

Num plano macro, este posicionamento permite ter mais jogadores em corredor central para a construção (aumentam assim as possibilidades de ligação no corredor central e não incorrendo logo na tentação de ir por fora), permite libertar os interiores de funções de construção muito baixas e posicionarem-se nas costas dos médios adversários ou até virem ao corredor onde o espaço foi aclarado, em caso de vantagem qualitativa pode colocar os extremos em situações de 1v1 contra o lateral contrário porque o extremo adversário geralmente fecha dentro em busca da referência do lateral e na reação à perda permite igualmente ter mais elementos em corredor central para encostar e impedir que haja facilidade, na transição ofensiva adversária, em jogar logo de frente.

Sobre Juan Román Riquelme 67 artigos
Analista de performance em contexto de formação e de seniores. Fanático pela sinergia: análise - treino - jogo.

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