Desacorrentando o futebol do pensamento linear

Dizem que “a bola é redonda”. E, talvez, demasiado redonda para uma sociedade cada vez mais… “quadrada”, prisioneira do pensamento linear.

Faltava pouco para a meia-noite. Estávamos prestes a entrar em 2022. Numa roda, à porta dum restaurante da cidade do Porto, eu e dois amigos falávamos com um ex-arquiteto, agora reformado. A certa altura, o senhor Nivaldo deixou uma questão tão intrigante (?), quanto caricata, no ar: “repare que todos estão no tribunal. Juízes, advogados, etc. Todos vão ler ao mesmo código. Mas há uns juízes e uns advogados melhores que outros”. Isso trouxe-me rapidamente uma outra comparação à cabeça… Dizia o Professor Vítor Frade que, se colocássemos dois cozinheiros a seguir a mesma receita, um conseguiria um prato mais saboroso que o outro. Nem tudo é causa e efeito. E é sobre estas “entrelinhas”, tão incomodativas para o pensamento linear que vigora hoje em dia, que vos falo.

Numa era em que (re)eclodiram os sistemas de três centrais, muitos treinadores que os adotaram passaram a ser rotulados como “defensivos”. Pergunto-me se o papel tático de Matheus Reis, no último Sporting vs. Portimonense, terá elucidado alguns dos mais céticos. Fosse o Sporting de Amorim um “leão enjaulado” num 3-4-3 e a parte posicional superiorizar-se-ia à funcional. Aí sim, teríamos defesas que defendem, médios que medeiam e atacantes que atacam. Somente isto. E tão linear quanto isto.

Ao invés, com a abertura do Jogar do Sporting ao fenómeno complexo do futebol, pudemos assistir à emergência duma dinâmica rara, ultimamente só vista para os lados de Bergamo, Itália, mais concretamente na Atalanta de Gian Piero Gasperini: a subida dum dos centrais laterais para desequilibrar. Tudo porque a equipa joga em função dum critério – a procura do homem livre, nem que este seja… um central! O que lhe atesta a tal plasticidade (leia-se flexibilidade ou variabilidade) que o Mister José Morais refere no vídeo. Será que o 3-4-3 ainda é assim tão defensivo, como alguns apregoam? No mínimo, depende.

A pergunta de partida para Le Moigne (1994) foi a de problematizar se, através de modelos analíticos, podíamos resolver problemas realmente complexos. Ao começar por diferenciar o que para ele é a complexidade e a complicação, partiu de dois postulados: a complexidade implica imprevisibilidade, a emergência do novo e da mudança no interior do sistema. O fenómeno é complexo quando apresenta uma certa imprevisibilidade potencial dos comportamentos, enquanto a complicação pode ser determinada, prevista e extinta; os projetos do sistema de modelação não se dão: constroem-se. Através desta ideia, o autor evidencia a necessidade de problematizar a complexidade com um modelo que permita lidar com ela, sem lhe retirar a sua “inteireza inquebrantável”.

Le Moigne (1994), citado por Jorge Reis

Está na moda dizer-se que “o que interessa são as dinâmicas, não o sistema”. Não seria tão taxativo assim, pois, como já referi anteriormente num outro artigo, o sistema é, no mínimo, uma propensão, pelas diferentes distribuições espaciais. Ainda assim, deixar que a criatividade flora no treino, como meio de fazer face à tal imprevisibilidade e emergência do novo, dotará a equipa de uma maior capacidade de ler o jogo, que lhe permitirá encontrar (infinitas) soluções. Por outro lado, a fixação constante do treinador nos posicionamentos do seu sistema tático tornará a equipa refém do mesmo a curto-prazo, castrando eventuais dinâmicas que pudessem emergir. Daí que o peso (e dependência!) do sistema será tanto quanto menor for a liberdade dada aos seus intérpretes para criar.

Seguindo esta lógica não-linear, podemos afirmar que sistemas com um avançado podem colocar mais gente na área que sistemas com dois avançados. E que uma equipa que erra vários passes talvez não necessite de treinar o gesto técnico do passe em si, mas sim alterar algumas pedras do seu jogo posicional. É urgente quebrarmos esta visão cartesiana, analítica, reducionista, transversal às várias questões que se levantam no futebol, quer em termos de jogo, quer em relação ao processo de treino. Estes dogmas que não nos permitem ver além, com os óculos da complexidade que se exige.

O futebol carece de mais folhas brancas, não das quadriculadas. É altura de respeitarmos a sua pureza e inteireza inquebrantável. Lutemos pela sua liberdade e criatividade, desacorrentando-o do pensamento linear.

Este caso [marcação homem-a-homem de Gallas a Messi, que era vista como uma má opção estratégica, mas que acabou por resultar] serve para constatar a rotina sem sentido de restringir tudo a umas quantas regras universais e imutáveis. Estas aparentes contradições têm lugar num pensamento que privilegie a pluralidade. Não podemos ignorar possibilidades neste tipo de crenças imperturbáveis e inflexíveis, já que a riqueza de variáveis que enriquecem as situações de um desporto como o futebol, onde alcançar a eficácia depende de múltiplos fatores, desaconselha submeter-nos a este tipo de reducionismo, fundado na fiabilidade cortante da lógica implantada.

Moreno (2012)

Bibliografia

  • Ferreira, C. d. (Realizador). (2021). Futebol Total [Programa].
  • Le Moigne, J.-L. (1994). La théorie du système général. Théorie de la modélisation. FeniXX.
  • Moreno, O. P. (2012). El Modelo de Juego del Barcelona. MCSports.

Sobre Yaya Touré 31 artigos
Amante do treino. Pensador do jogo. 💡

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.


*