Tomada de decisão, os adversários, Ola John e Nolito.

Desde sempre que fomos aqui explicando que na concepção que idealizamos do jogo não há correrias com bola para longe da baliza, isto é, na direcção da linha de fundo, para posteriormente tirar cruzamentos para a área. Mas, salientando sempre que cada situação é ou pode ser uma situação diferente e que pequenas diferenças de situação para situação (relacionadas com posicionamento dos colegas e dos adversários. Sim, porque mesmo sendo o teu modelo de jogo, não consegues nunca evitar a parte caótica que sempre existe. Mesmo nos teus jogadores. Posicionamento dos adversários, obviamente que ainda menos dependem de ti. Ainda que por muitos treinadores (Fernando Santos por exemplo) ainda defenderem com base em marcações individuais no meio campo, é possível em muitos momentos pelo aclaramento de espaços levares o adversário para onde queres que ele vá).

Isto é, regra geral, sim, é errado arrancar com a bola para a linha de fundo, porque torna o teu jogo mais previsível e menos passível de ser bem sucedido. De lá só podes seguir para um lado, porque todos os outros a bola sai do campo. Mas, tal não significa que seja sempre errado. Depende da tal situação de jogo. É isso que condiciona a boa decisão.
O BOA na decisão é um factor chave, porque na realidade tudo pode condicionar a decisão. Se o Ola John decidir em determinado jogo não passar a bola aos colegas que têm botas amarelas, esse é mais uma condicionante da sua decisão. Mas, prejudicá-la-à. Em determinado momento seguramente que a melhor opção seria jogar com um colega de botas amarelas. O mesmo se passa quando falas do nome adversário. Totalmente diferente de posicionamento do adversário! Se estás à espera de olhar para ficha de jogo para saber se vais optar por um drible ou não, é certo que não estarás a decidir bem. E quando o fizeres (decidir bem), não será de forma consciente.
Para não dar a ideia de que tudo se resume a ir por fora é mau e por dentro é bom, esquecendo a especificidade do que influência a tomada de decisão (a situação de jogo) trazemos o exemplo de um jogador que opta na maioria das vezes pela melhor opção para a sua equipa, mesmo que isso o “apague” aos olhos dos adeptos. 
Nas discussões mais recentes ouviu-se de tudo. Inclusive que Ola John é lento e que a única solução que tem é parar os ataques da sua equipa com a sua lentidão. Porque acreditamos que tal não corresponde de forma alguma à verdade, trouxemos um pequeno video da partida contra o São Paulo. Num lance o holandês mostra que não ir para cima do adversário directo, nem jogar sempre a toda a velocidade não demonstra incapacidade para o fazer. Ola John joga, como poucos extremos com o que o jogo pede. Não é que não seja capaz de acelerar. Simplesmente percebe que isso poucas vezes é a melhor opção.
No video poderá ver duas decisões diferentes, ambas boas, porque a situação de jogo (número de adversários e sobretudo o seu posicionamento) era diferente, mesmo jogando-se sensivelmente no mesmo espaço e na mesma fase. Perante o mesmo adversário o holandês uma vez decidiu ultrapassá-lo, porque não tinha outras opções, na outra com outras possibilidades já não forçou o drible. Apesar de ser o mesmo adversário directo…
À caixa de comentários do recente post “Tomada de decisão. Esse mistério que determina quem vence mais” chegaram comentários de alguém bem preparado. Na era actual aceder à informação não é mais um bicho de sete cabeças. Qualquer um pode teorizar e ler as teorias que quiser. 
Com tanta conversa sobre tomada de decisão, lembrou-se o excelente Posse de Bola de recordar um dos melhores nesse aspecto nos últimos anos em Portugal. Nolito, aqui
Sobre a tomada de decisão do espanhol, resolvemos questionar três blogs sem preferência clubistíca, mas de referência no entendimento do jogo. O Entre Dez, o Posse de Bola, e o extinto, mas fabuloso Centro de Jogo. 
Estas foram as respostas:
“Se há coisa que o futebol moderno mostrou, nos últimos 5 anos, é que os extremos à moda antiga, extremos que privilegiam o jogo exterior e que têm por missão ganhar a linha de fundo, seja para cruzar para o avançado finalizar, seja para contemporizar e esperar a entrada de um médio, têm os dias contados. O futebol moderno não se compadece de quem passa tanto tempo alheado dos companheiros e tão longe do centro do jogo. Isto porque o futebol moderno se joga principalmente pelo meio, usando as linhas apenas para forçar a que o adversário abra espaços no meio. Nenhum extremo que esteja entre os melhores do mundo actualmente é um extremo à moda antiga. Ou são jogadores capazes de aparecer na área para finalizar, como Ronaldo, ou são jogadores que deambulam pela frente de ataque, para criar desequilíbrios noutras zonas, e são extremos apenas no papel, ou são jogadores que, partindo da posição de extremo, procuram sistematicamente vir para dentro, para combinar com os companheiros, para entrar em zonas centrais e para criar superioridade numérica onde ela é fundamental. Neste sentido, a um extremo pede-se essencialmente que saiba decidir, que saiba identificar correctamente os espaços centrais a invadir, que saiba fornecer aos colegas linhas de passe, quer exteriores, quer interiores. O que mais me impressionou em Nolito foi sempre o não ser um extremo à moda antiga em nenhum aspecto. Com bola,  a sua primeira preocupação é procurar um colega no espaço entre linhas; a segunda é vir para dentro e lateralizar; sé em último recurso joga ao longo da linha. Mas é sem bola, a solicitar linhas de passe constantes, que Nolito é fora de série. Neste capítulo, é dos extremos que conheço um dos que mais se preocupa com as soluções de passe dos colegas. Identifica rapidamente aquilo de que o portador da bola vai precisar e encarrega-se rapidamente de se deslocar para o sítio certo. E é esta capacidade de decisão invulgar que faz dele um extremo diferente, um extremo como todos os extremos deveriam ser, no futebol actual.” Entre Dez;
“O Nolito tem uma experiência de treino e de jogo que lhe permite decidir com mais velocidade. Parece que é mais rápido que o Ola porque está formatado para um tipo de jogo onde as opções de passe são mais que muitas, logo, consegue identificar as pistas que o envolvimento lhe dá para decidir. Dizem que ele é previsível porque vem sempre para dentro, mas orienta para dentro para ter mais opções. Se for para a linha só pode cruzar, para dentro pode tudo. Nolito tem uma capacidade de decisão fenomenal” Centro de Jogo;
“Nolito é uma bênção para qualquer treinador que não tenha intenção de viver das acções individuais dos seus jogadores. Percebe o jogo e por isso tem uma capacidade de decisão excelente, característica incomum nos extremos. Podemos vê-lo de cabeça levantada, pensando, decidindo, acelerando, temporizando, com uma capacidade de ler o jogo muito acima da média, consegue perceber as desmarcações dos colegas e isso associado a uma boa qualidade de passe, facilmente os coloca em situações de 1×0. O timing de passe ou de desmarcação são pormenores que escapam a muitos, mas é daquelas coisas que realmente fazem diferença. A isso tudo, ainda consegue juntar uma precisão impressionante na hora de finalizar. Não é difícil de o imaginar a jogar no meio, o que é um indicador da qualidade das decisões que toma. Embora seja competente, a sua capacidade de execução não é de top, de resto, Nolita pensa o jogo como os melhores. Reconhece as suas limitações e por saber exactamente o que pode ou não fazer, exponecia os seus recursos de forma fabulosa” Posse de Bola.
A nossa opinião sobre Nolito é bastante conhecida e pode ser consultada aqui. Destacando no último post sobre o espanhol o pequeno excerto “Era demasiado fácil perceber onde faltavam linhas de passe, pelo que mais do que o gesticular do espanhol indicando o caminho ao avançado, o que impressionou na acção de Nolito foi o timing para fazer o passe. Repare na linguagem motora do defesa e no exacto momento em que Nolito faz o passe. Precisamente no momento em que o defesa troca os apoios. Talvez seja difícil perceber o alcance da qualidade de Nolito. São pequenos pormenores na tomada de decisão, aliados a uma boa capacidade técnica, sobretudo de passe, que fazem de Nolito o melhor extremo do Benfica.”
Já o nosso bem preparado comentador, que conhece de cor todas as teorias da tomada de decisão pensa diferente “… tanto é que um best of do Nolito só dura um minuto. Nolito só tinha dois movimentosdecisões, ou tabelava (bem) com um colega interior ou tentava passes em profundidade para as costas da defesa (maior parte das ocasiões mal, com com má execução.” 
Há sempre muita subjectividade, para além do caos, associada ao jogo de futebol. É todavia muito difícil conceber como consegue alguém não perceber aquela que é a maior qualidade do espanhol. Qualidade que se faz notar em pequenos pormenores próprios de quem joga sempre com a cabeça ligada. Quem joga com o adversário (posicionamento, não nome, óbvio) e com os colegas. Portanto faz-se um finca pé com o nome dum adversário, mas desdenha-se alguém que usa até, para além do espaço que o mesmo ocupa, a posição dos pés deste para decidir. É caso para dizer que por mais livros e artigos que se leiam ou definições que se decorem, tal não garante nunca a compreensão do que realmente importa. É que decorar é absolutamente diferente de perceber. Um está ao alcance de todos, o outro não.
P.S. – E quando não há opções dentro, por onde segue Nolito? 

Paolo Maldini
Sobre Paolo Maldini 2362 artigos
Criador do Lateral Esquerdo, é também professor no Estádio Universitário de Lisboa. Treinador de futebol, tendo almejado diversos titulos nacionais. Experiência como coordenador de futebol formação e palestrante em diversas Faculdades de Desporto. Autor do livro "Construir uma equipa campeã" da editora PrimeBooks.

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