O Risco do Alívio

Há um género de pessoas que, em dívida para com uma tradição que os ensinou a respeitar certas leis caducas, não conseguiram nunca perceber, não obstante as lições catalãs e bávaras dos últimos anos, as verdadeiras vantagens que há em procurar sair a jogar desde trás. As mesmas pessoas podem até acreditar que sair a jogar compensa de facto o risco quando os defesas conseguem suplantar a primeira zona de pressão adversária, e podem até reconhecer que a equipa que a isso se propõe acaba por beneficiar desse risco depois de superar esse obstáculo inicial. Não obstante, parece-lhes sempre demasiado arriscado. Na opinião dessas pessoas, o risco de sair a jogar sob pressão é sempre mais elevado do que os eventuais benefícios disso, pelo que, em tais casos, é sempre mais prudente aliviar a bola do que insistir em circulá-la até que estejam criadas as condições para ligar o jogo. Aquilo que não percebem é que os benefícios de sair a jogar não se esgotam na possibilidade de ligar o jogo, de manter a posse de bola ou de preparar um ataque. Sair a jogar é também a maneira mais segura de uma equipa se precaver contra a incerteza das segundas bolas.

Ao contrário do primeiro género de pessoas, não estou nada certo de que sair a jogar seja mais arriscado do que pontapear a bola para o meio-campo adversário. Depende. Uma equipa bem trabalhada a sair a jogar, e sobretudo preparada para aquilo que eventualmente possa advir daí, pode perfeitamente correr mais riscos se optar por aliviar a bola em vez de persistir na circulação em zona recuada. Assim é não só porque, em boa medida, está preparada para reagir a um erro que advenha dessa persistência, mas também porque não está preparada para reagir à opção contrária. O exemplo decisivo é o primeiro golo do Leicester City ontem. É verdade que Kolarov é pressionado por Mahrez e tem a linha de passe para Stones fechada por Vardy, assim como é verdade que Fernando demora muito a dar a opção interior nas costas dos dois jogadores do Leicester, mas Kevin de Bruyne estava a chegar junto à linha e havia sempre a hipótese de jogar com Bravo, oferecendo de imediato uma nova linha de passe. Kolarov não quis arriscar e pontapeou para o meio-campo adversário, fazendo aquilo que a maioria das pessoas faria naquela situação e aquilo que parecia ser o mais prudente a fazer. Rapidamente se percebe, porém, que pontapear uma bola para muito longe da área pode ser tão imprudente quanto tentar circulá-la em zona defensiva. Ao ganhar no ar, Robert Huth devolve imediatamente a bola para a zona de onde tinha vindo, fazendo-a aliás cair no raio de acção de um colega (Mahrez) que, com um toque de primeira, deixa Slimani com a bola controlada de frente para a jogada e com Vardy a invadir o espaço entre os dois defesas do Manchester City. Em 3 segundos, a equipa passa de uma situação em que tem a posse da bola, tem a superioridade numérica na zona da bola e está organizada em função dessa posse para uma situação completamente distinta: não tem a bola, perdeu a superioridade numérica na zona da bola (a situação é agora um 2 para 2, ou mesmo um 2 para 1, já que Kolarov não está em posição de fechar o espaço que Vardy invadiu) e ainda não teve tempo de se reorganizar. Depressa se percebe, pois, que pontapear a bola para muito longe não foi uma decisão assim tão eficiente.

Aliviar quando se está a ser pressionado parece uma decisão sensata, na medida em que se evita o risco inerente à circulação numa zona defensiva. Mas, na verdade, aliviar envolve sempre a insensatez de deixar o destino do lance entregue ao acaso. Depois de Kolarov aliviar, alea jacta est: não é possível prever onde a bola pontapeada vai cair, não é possível prever quem vai ganhar essa primeira bola e não é possível prever onde vai ser disputada a segunda bola. Era, no entanto, talvez possível prever algumas coisas. Conhecendo a equipa do Leicester, era provável que essa bola fosse cair na zona defendida por jogadores muito fortes no jogo aéreo, era provável que essa bola fosse ganha por um desses jogadores e era provável que a segunda bola pudesse ser ganha por algum dos atacantes adversários. Especialmente contra uma equipa deste género, é pelo menos muito discutível que aliviar uma bola para o meio-campo adversário corresponda a uma decisão sensata.

Guardiola tem sido acusado, nas últimas semanas, de tentar implementar à força certas ideias que, em Inglaterra, são demasiado arriscadas. Ora, pelo contrário, em Inglaterra, não implementá-las é que é arriscado. Se há coisa em que as equipas inglesas são fortes é nos lances pelo ar e nas segundas bolas. A melhor maneira de retirar peso a esses lances é não os fomentar. Como? Saindo a jogar.

Nuno Amado
Sobre Nuno Amado 4 artigos
Doutorado em Teoria da Literatura. Como acredita que se pode gostar em simultâneo de coisas muito diferentes, costuma conciliar o interesse pela literatura com o interesse pelo futebol. É um dos fundadores do blogue Entre Dez, onde escreve, com maior ou menor regularidade, desde 2007.

15 comentários em O Risco do Alívio

  1. Muito bom, como seria de esperar! Estas aquisições vão obrigar-me a aumentar o valor no patreon, para ser justo e coerente com o que isto me traz.

  2. Boas!Nao discordando da mais valia de sair a jogar, nao seria de esperar k o “alivio” do Kolarov fosse feito para as linhas laterais (paralelo à do lado esquerdo) k levaria aos defesas adversários terem maiores dificuldades em colocar a bola em zona de maior perigo?

    • Seria… no entanto o Mahrez aborda o lance já precavendo o alívio para o seu flanco e abrindo o meio (se calhar mais que precavendo o alívio até está mais preocupado é em fechar linha de passe para a lateral).

      Quanto a Guardiola estar a mudar as suas ideias de jogo por causa das críticas… alguém acredita nisso? lol.

      Este lance pura e simplesmente aconteceu, assim como também aconteceu o City ter sido uma nódoa o jogo todo em transição e organização defensiva.

    • F. Redondo, entre aliviar à toa e aliviar com critério, escolhendo um companheiro ou uma zona, é melhor aliviar com critério. Entre aliviar com critério para uma zona central e aliviar com critério para uma linha, diria que é preferível aliviar com critério para a linha. Ainda assim, era perfeitamente possivelmente suceder uma coisa parecida. E, seja como for, o ponto é o de que, se aliviar é uma forma de se escusar a procurar uma solução mais difícil de encontrar, uma forma de “não inventar”, então o critério da zona preferencial não se põe. O Kolarov não meteu ali a bola por ter avaliado todas as hipóteses e ter decidido que ali era o melhor sítio para pôr a bola; meteu-a ali porque não quis estar a pensar muito no que fazer e metendo-a tão longe parecia pelo menos assegurar que não punha a defesa em risco.

      Nuno, depois do segundo jogo com o Barça (aquele em que o City deu a volta e venceu), o City mudou algumas coisas. Não as mudou de forma sistemática, é verdade, e voltou a apresentar modelos tácticos e comportamentos típicos das equipas do Guardiola em alguns jogos, mas houve jogos (alguns deles durante os 90 minutos) em que o City se comportou como outra equipa qualquer. Jogou inclusivamente em 442, e bateu na frente com uma frequência assustadora. Com o Chelsea voltou a jogar à Guardiola, e fez um bom jogo, mas perdeu. E não sei se isso não terá pesado, no que diz respeito à convicção dos jogadores nas ideias do treinador. No início da época, aquilo que o Kolarov fez seria decerto entendido como uma aberração. E isto pelo próprio jogador, que decerto seria incentivado a não o fazer. No jogo contra o Leicester (e noutros jogos antes desse), parece-me que, para muitos, jogadores, aquilo já é entendido como um comportamento aceitável.

  3. Obviamente Pep não vai mudar. Mas tem “obrigatoriamente” que ajustar.

    Ontem, que estrondo! Obscena a facilidade até ao 3-0. Tão naif. Que encavadela. Isto assim também não… Acho que é demais.

    Obviamente qualidade de alguns jogadores. Mas inevitavelmente Pep tem que ajustar. Acalmar um pouco nas mexidas táticas entre jogos. Simplificar. Desembaraçar a complexidade que pede (ex. Zabaleta, 4-1-4-1/3-4-2-1, etc). Demasiado cedo para tanta mexida já.
    Percebo que adore atacar, e se prepare para o fazer em espaços curtíssimos como mais ninguém, focando mais isso no treino. Mas no balanço do ganho/perda não pode desvalorizar (terá forçosamente que melhorar) o processo pós-perda e sem bola. Globalmente para não ficar demasiado dependente da “inteligência” e qualidade de alguns.

    Cravar o “seu abcedario” antes de querer recitar poesia.

    • Eu percebo isso, e acho que o Guardiola tem exagerado sobretudo na quantidade de modelos diferentes que tem experimentado. Mas ontem (e contra o Chelsea também) não foi de certeza isso que justificou o insucesso. Em parte, o texto servia para mostrar, precisamente, que o City começa a perder porque não encarou o jogo com diferenciação suficiente. Sim, depois há o lance do 3-0 e o lance do 4-0, mas não me parece justo avaliar nenhum desses lances esquecendo o contexto do resultado. A desconcentração do Kolarov e do Sagna no terceiro golo, por exemplo, é totalmente potenciada pelo resultado que se verificava.

  4. Grande post! E a ler isto lembrei-me de um momento que se passou hoje, no Cagliari-Napoli…

    https://streamable.com/a39m

    Mais ou menos no momento do passe do Reina para o defesa, estava o muitíssimo competente comentador da Sporttv, canal em que estava a ver o jogo, a dizer que o Napoli estava claramente a relaxar por estar com uma vantagem de três golos e, por isso, se permitia a cometer tal heresia que é não bater na frente sempre que o adversário pressiona. Quis o destino que não só conseguissem sair dessa pressão com a bola controlada, como que acabassem por marcar no seguimento do lance. Infelizmente acho que ai o comentador já nem se lembrava da baboseira que tinha dito antes… Nem com lições catalãs, bávaras e, neste caso, napolitanas lá vão, mas são estes os especialistas que temos a “comentar e analisar” os jogos por cá.

  5. Certo. Mas então e quando o adversário também faz umas coisas giras – às vezes acontece, porque nem sempre somos o Messi – e consegue fechar a ligação? Fazes o quê? Entregas a bola ao adversário na linha da tua pequena área?

    • Mas fecha a ligação como? A menos que o guarda-redes do adversário venha também pressionar, é sempre possível à equipa com bola criar superioridade numérica. É uma questão de os jogadores se mexerem adequadamente, de esperar que as linhas de passe surjam, de ter sangue e frio e coragem para esperar pelo momento certo para solicitar um colega, etc. E, se for preciso, proteger a bola, rodar e esperar que esses espaços se criem.

  6. Perfeita suas colocações.
    Kolarov, de fato, não fez uma boa escolha. Se segura um pouco a bola, havia De Bruyne (que acho que se tivesse visto que Fernando tanto demorou para aparecer teria puxado no meio) à esquerda e Fernando no centro, ele se sentiu muito pressionado e não teve a tranquilidade para pensar um pouco mais e escolheu justamente o meio com quem seus atacantes de baixa estatura e de costas brigaria com defensores de 1,90.
    Fernando além de ter demorado a aparecer não conseguiu antever o passe mágico de Mahrez.

  7. Nem sei se o princípio que tem de ser batido aqui é o de bater para a frente ou o de tocar para o guarda-redes. Ainda no fim de semana no SLBxSCP vimos ambos os GRs serem muito requisitados pelas defesas. Bom, no caso do Benfica para se o GR a bater na frente, mas requisitados!

    Pessoalmente não me lembro de outra altura em que no futebol doméstico isso fosse tão a regra e não a exepção.

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