Coração no derby

white corner field line on artificial green grass of soccer field
Bom coração o de Javi, Witsel e… Gaitán (?!).
Em inferioridade, não bastava organização. Seria preciso estar pronto para sofrer. Para correr, e lutar por cada bola como se todo um jogo dela dependesse. À sua extraordinária cultura táctica, Javi acrescenta uma perseverança muito própria dos vencedores. Witsel acompanha-o. Não é somente um bom jogador. É um obstinado. Sem ambos em simultaneo em campo, o Benfica não teria vencido.
Surpreendente Gaitán. Na hora do aperto, foi vê-lo atrás de Emerson, em cobertura defensiva, sacrificando-se como nunca, na tentativa de minimizar os estragos provocados pelo enorme Carrillo. Talvez o Benfica, enquanto grupo tenha ganho um jogador que até à data, apenas se preocupava com o seu umbigo. Se Nico mantiver ao longo da Liga, a postura competitiva que apresentou no derby, é candidato a jogador do ano.
Menos bom o coração leonino, por não ter deixado a cabeça pensar, na meia hora disputada em superioridade.
É um clássico fazer a bola rodar de corredor a corredor, tentando procurar espaços de menor densidade defensiva do adversário, procurando situações de superioridade numérica no corredor lateral. Ainda para mais, com os desequilibrantes Carrillo e Capel. Não basta, todavia. Especialmente quando o adversário tem na área jogadores com a envergadura e capacidade de jogar no ar como Jardel, Garay, Javi e até Witsel.
Faltou explorar os apoios frontais. A bola rodava sempre por fora do bloco encarnado, e em momento algum o Sporting foi capaz de desposicionar a defesa do Benfica. E teria sido fácil procurar fazê-lo. Faltaram movimentos a baixar para receber dos avançados leoninos, trazendo consigo os centrais adversários, e faltou também procurar progredir pelo corredor central. Rara foi a vez, em que um central do SL Benfica foi forçado a sair da sua posição, para bloquear o ataque adversário.
Destaques óbvios para Javi Garcia, Witsel e Aimar. Desde cedo que parece claro que Jesus tem individualmente um dos melhores meios campos de que há memória na Liga portuguesa. Três jogadores obstinados, muito cultos tacticamente. São jogadores de qualidade indiscutível. Poderiam estar organizados de forma mais eficiente. Todavia, pela leitura que fazem das diversas situações, e pela disponibilidade que mostram para se sacrificar em prol de um objectivo comum, são uma clara mais valia na nossa Liga.
Carrillo. É o melhor jogador do Sporting. Não se sabe se será justo considerá-lo irregular. A verdade é que não tem muitos minutos, mas, os que tem, são sempre a uma intensidade e qualidade elevadíssima. Nunca se saberá, mas fica a sensação de que se tem passado mais tempo no corredor esquerdo, o resultado poderia ter sido outro. É um verdadeiro diamante, na senda dos extremos de qualidade inegável que o Sporting vem exportando.
Capel. É um verdadeiro desiquilibrador. Fica, porém, ligado ao futebol menos cerebral do Sporting. Tem imensos pontos positivos. É um jogador contagiante. Todavia, a incessante procura pelo cruzamento prejudica-o. Mesmo nos poucos minutos em que ocupou o corredor direito, e mesmo quando conduziu para dentro, acabou invariavelmente por procurar colocar a bola na área. Sendo, contudo, certo que nem sempre os colegas se mostraram disponíveis para baixar, receber e tabelar.
Rui Patrício e Artur. Parece claro que também a eles se deve, o escasso número de golos marcados, num derby com vários lances de perigo efectivo.
Paolo Maldini
Sobre Paolo Maldini 2362 artigos
Criador do Lateral Esquerdo, é também professor no Estádio Universitário de Lisboa. Treinador de futebol, tendo almejado diversos titulos nacionais. Experiência como coordenador de futebol formação e palestrante em diversas Faculdades de Desporto. Autor do livro "Construir uma equipa campeã" da editora PrimeBooks.

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