Equipas B, João Mário, Fernando Ferreira e Miguel Rosa.

white corner field line on artificial green grass of soccer field
“Não aguentámos o ritmo.” João Mário, jogador do Sporting B, sobre o jogo que opôs a sua promissora equipa ao líder incontestado Belenenses. 
É seguro que de entre muitas outras dependências, a evolução de um jogador de futebol passa muito pela variabilidade de estímulos que encontra. No treino e na competição. 
De uma forma bastante simplista. Se eu apenas precisar de me apresentar a um nível 5 para ter sucesso, não irei nunca atingir o nível 6. Este colocar de dificuldades extra para potenciar qualidades individuais é, por exemplo, a razão principal pela qual é comum nos clubes grandes, vermos miúdos ou equipas inteiras, a competir com escalões etários mais velhos.
João Mário e os seus colegas leoninos (vários em idade júnior) que subiram ontem ao relvado do Estádio do Restelo são todos eles, hoje, um pouco mais jogadores do que ontem. Para quem trata do processo dos jovens atletas do Sporting, deverá ter sido reconfortante ouvir as palavras do centrocampista. O propósito está a ser cumprido na íntegra. O próximo passo para aqueles cujas capacidades sobressaiam será a integração num plantel da Primeira Liga. Novas dificuldades, mais evolução, maiores possibilidades de regresso ao clube origem para se ser bem sucedido.
Miguel Rosa está a três dias de somar vinte e quatro anos e joga na segunda liga. A equipa B do SL Benfica soma erros de casting atrás de erros de casting. Quem planeou ou pensou o processo não pode, seguramente, perceber um pouco que seja daquilo que está a tratar. Jogadores sem potencial para jogar sequer na primeira divisão são mais que muitos. Porém, o maior erro de todos foi sempre a gestão da carreira de Rosa. Logo no seu primeiro ano de sénior foi a grande revelação da segunda divisão. No segundo ano, o estímulo deveria ter aumentado. No terceiro, idem, e talvez hoje pudesse ser um jogador importante no Benfica. As suas qualidades são imensas e ninguém poderá jamais afirmar que Miguel nunca chegará a internacional português. Já afirmar que nunca atingirá o potencial que tem porque quem decidiu os passos da sua carreira nunca o fez com base no conhecimento do que seria o melhor para Rosa e para o Benfica, é uma mais que certeza. 
Se alguém conseguir por razões plausíveis explicar porque está um jogador de tal qualidade aos vinte e quatro anos na segunda divisão, a caixa de comentários está logo abaixo do texto. 
Fernando Ferreira cresceu na formação do Sporting. Infelizmente para ele quando chegou a sénior não só não era suficientemente bom para ficar no plantel leonino, como não estávamos na era das equipas B. O percurso seguiu-se por Casa Pia, Real, Académico de Viseu, Tondela, e finalmente Belenenses. O melhor médio da segunda liga (eleito e muito justamente pelos treinadores adversários) chegará aos vinte e seis anos, finalmente, à principal liga portuguesa. 
Vê-lo jogar é um regalo. Mesmo extraordinário na ocupação do espaço, bom na tomada de decisão, fisicamente muito forte e com qualidade técnica bastante acima da média, é na forma como lidera toda a equipa que se percebe que é um jogador distinto. Sabe tudo sobre a posição e não precisas de mais de vinte minutos a olhar para ele para o perceberes. Ferreira tem hoje mais que qualidade para ser titular no meio campo do clube que o formou. Pelas suas capacidades a sua entrada no onze leonino seria desde logo um “boost” que incrementaria o nível da equipa. Tivesse o seu primeiro ano de sénior sido passado na inexistente, à data, equipa B do Sporting, e talvez hoje estivéssemos a falar de um jogador mais importante e mais reconhecido.
Aos vinte e seis anos estrear-se-à na primeira divisão portuguesa. Pela sua qualidade não será tarde para outro voos, assim haja astúcia. Porém, como Rosa jamais atingirá o potencial que sempre teve. São centenas os jogadores desaproveitados por Portugal fora. A equipa B do Sporting está a tratar de corrigir tantos casos quanto os possíveis (indiano à parte). A do Benfica não. Limita-se a albergar sarrafeiros, descoordenados e os “old school” carregadores de piano. Ainda que no meio da molhada se possa desejar sucesso a dois ou três.
Enquanto não se perceber que o propósito da equipa B não é, não pode ser, e jamais será o resultado, planteis feitos em cima do joelho sem qualquer sentido, continuarão a ser desenhados.
Paolo Maldini
Sobre Paolo Maldini 2359 artigos
Criador do Lateral Esquerdo, é também professor no Estádio Universitário de Lisboa. Treinador de futebol, tendo almejado diversos titulos nacionais. Experiência como coordenador de futebol formação e palestrante em diversas Faculdades de Desporto. Autor do livro "Construir uma equipa campeã" da editora PrimeBooks.

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