O futebol é um lugar estranho. Alguns dados do Euro 2016.

Não tenho dúvidas de que naquilo que considero os ingredientes para uma equipa de sucesso, o passar imenso tempo em Organização Ofensiva será sempre um indicador importante.
E dentro desta ideia de boas decisões a proporcionarem um jogo paciente com bola em Organização, será melhor quem conseguir chegar com bola nas costas dos médios adversários, enquadrado com a última linha adversária. Combinações entre linhas adversárias, como o motor mais relevante para se chegar ao sucesso no momento do jogo mais complicado de o ter. Mais complicado porque a oposição será sempre muita e consequentemente o espaço diminuto. A percentagem de golos que se obtém em organização ofensiva correlacionada com o tempo que é necessário passar nesse momento para chegar ao golo é naturalmente muito diferente da percentagem de golos em transição.
Os métodos defensivos estão cada vez mais evoluídos e os menos aptos têm hoje, por isso mesmo, possibilidades maiores de serem bem sucedidos. Também por isso, em termos ofensivos é determinante não descurar momento algum do jogo. Após a recuperação cada vez mais é obrigatório sair em contra ataque ou ataque rápido. E naturalmente, perceber o momento em que as probabilidades de sucesso diminuem drasticamente para decidir segurar e iniciar o ataque posicional.
Se há algo que me impressiona na selecção Alemã, tal é a ideia de grande. As muitas armas que apresentam em ataque posicional. Os movimentos, os posicionamentos, as decisões. Ao contrário naturalmente daquilo que a nossa selecção demonstra, onde fica sempre uma sensação de incapacidade para desmontar equipas em organização defensiva.
Todavia, o jogo depende de tantas variáveis e é de tão difícil controlo que mesmo não mudando um pouco aquela que são as minhas crenças, ficam aqui alguns dados estatísticos até à presente data no Europeu que demonstram como é um lugar estranho este jogo que amamos.
Portugal – 3 golos em organização ofensiva. 60 por cento dos golos da equipa de Fernando Santos a surgirem dessa forma!
Com maior percentagem de golos em organização ofensiva somente: França – 66.6 por cento. Outra selecção cuja falta de criatividade e incapacidade para criar sucessivamente dificuldades aos adversários nos seus momentos de organização ofensiva é latente! E por fim, e desta feita sem surpresa, a Espanha. Com 80 por cento dos golos a chegarem no momento de organização ofensiva. Espanha e Inglaterra, as únicas equipas das teoricamente mais fortes que sairam do torneio sem qualquer golo em Transição.
A poderosa nos momentos ofensivos Alemanha com apenas 33 por cento dos golos no momento em que passa praticamente os jogos todos. Metade dos golos alemães chegaram de bolas paradas.
E alguns dados interessantes. Croácia, uma equipa que demonstrou uma capacidade fantástica de preservar a bola e de criar, a chegar maioritariamente ao golo (60 por cento) em transições ofensivas (Portugal retirou-lhe tal momento). Ainda com percentagens de golos relevantes em transição, Gales (42 por cento) e a Bélgica (50 por cento dos golos em transição ofensiva, 25 em bolas paradas e outros 25 em organização ofensiva).
Por fim, dados curiosos da Itália. Aquela que menor relevância estatística apresenta num único determinando momento nos golos que almejou. 40 por cento em Organização Ofensiva. 40 por centro em Transição Ofensiva e 20 por cento nas bolas paradas.
Dados que na verdade não revelam absolutamente nada para além de que o futebol é um lugar estranho, o controlo nem sempre é possível e perceber o processo será sempre mais importante para nortear o caminho.
Paolo Maldini
Sobre Paolo Maldini 2364 artigos
Criador do Lateral Esquerdo, é também professor no Estádio Universitário de Lisboa. Treinador de futebol, tendo almejado diversos titulos nacionais. Experiência como coordenador de futebol formação e palestrante em diversas Faculdades de Desporto. Autor do livro "Construir uma equipa campeã" da editora PrimeBooks.

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