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Adaptação. Guiar para o... erro! Inventar a pólvora.

Correu mal porque tivemos um treinador que pensava ter inventado a pólvora e mudou tudo.

Foi assim que um dos mais experientes jogadores da Liga, se referiu à pior época do seu clube em muitos anos.

O futebol não é diferente de muitas outras actividades, na medida em que é um jogo / actividade que é jogado / desenvolvido por pessoas. E independentemente do dinheiro ou visibilidade que proporciona, continua a ser jogado por pessoas.

Imagine que na sua actividade, entrava um novo coordenador / chefe, e determinava uma mudança em tudo. No seu horário de trabalho, nas regras, e até na forma como desenvolve a sua actividade. Determinava que tudo o que fez até aqui e com relativo sucesso deveria agora ser feito de maneira diferente. Independentemente de uma possível maior produtividade a longo prazo, a resistência para a mudança é algo absolutamente normal. Sobretudo quando até então há sucesso! Garantidamente que haveria resistência da sua parte, ou da parte dos seus colegas. Certo?

No futebol não é diferente. Quando um treinador assume um novo projecto, não é nunca possível que tudo o que idealiza passe a acontecer. Estejamos a falar de simples regras, ou de um próprio modelo de jogo. Sem capacidade para uma adaptação, a única coisa garantida é que se falhará. É que os resultados serão maus e o tempo de duração no projecto curto. Adaptar não é mudar o estilo ou filosofia, naturalmente. Porque essa será a razão pela qual se foi contratado. Mas, antes ter a capacidade para integrar alguns hábitos no estilo.

Vitor Pereira referiu-se recentemente à dificuldade para desmontar jogadores com experiências anteriores muito acentuadas, e à aprendizagem a que se submeteu na temporada finda. Perdeu-se por querer forçar algo que simplesmente os seus não tinham para dar, ou não pretendiam dar (por receio, por não acreditarem ou pelo que fosse).

Quando se pretendem mudar hábitos demasiado enraizados, há que planear para o erro.

No planeamento do exercício, na escolha das equipas, pequenas decisões que proporcionem o insucesso do que ou de quem se pretende mudar, para legitimar a mudança. Ser treinador é uma actividade tão complexa que chega a ser pornográfico o ser julgado por fazer ou não fazer determinada substituição. Um excelente treinador é sempre um “mastermind” capaz de manipular contextos e personalidades para guiar os seus discípulos no sentido de terem como suas (deles) as ideias que desde o início pretendia implementar. Porque o futebol independentemente de ser uma actividade com notoriedade, é jogada por seres humanos. E às pessoas não basta chegar e mandar, quando tudo o que viveram para trás difere do que se pretende implementar.

Talvez por isso Júlio Garganta referia que a próxima grande revolução no jogo passe pela humanização do treino e da competição.

En este particular, la asimilación, de una cultura de juego, del entrenamiento y de la recuperación, con participación de los propios jugadores en la construcción del modelo de juego y de entrenamiento, se intuye relevante.

O melhor, será naturalmente o que envolva, manipulando. Para que todos cheguem ao ponto que definiu (seja no modelo ou nas regras), sem terem percebido que foi o próprio treinador que o definiu.

Paolo Maldini
Sobre Paolo Maldini 2705 artigos
Criador do Lateral Esquerdo, é também professor no Estádio Universitário de Lisboa. Treinador de futebol, tendo almejado diversos titulos nacionais. Experiência como coordenador de futebol formação e palestrante em diversas Faculdades de Desporto. Autor do livro "Construir uma equipa campeã" da editora PrimeBooks.

2 comentários em Adaptação. Guiar para o... erro! Inventar a pólvora.

  1. Fabuloso texto! Revejo.me tanto nisto..entao desde que me mudei para seniores… ou tens ou nao tens. Se nao tens nao duras.. nao é os desenhos e as linhas que te vao safar… futebol não é somente isso… até te gozam se vens com essas e nao te adaptas…

  2. “Um excelente treinador é sempre um “mastermind” capaz de manipular contextos e personalidades para guiar os seus discípulos no sentido de terem como suas (deles) as ideias que desde o início pretendia implementar” – José Mourinho é um destes

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