“MarsBet”

Não é padronizado não é processo. O mau entendimento do jogo, e o futebol do google.

Depois de mais uma exibição de enorme categoria nos seus momentos ofensivos do SL Benfica, escreve Nuno Farinha no Jornal Record que com tantas partidas no seu onze de jogadores de muita categoria, continuar a equipa encarnada a apresentar um rendimento elevado só pode ser sinónimo de processo. Isto quando tantas vezes se ouve dizer que o treinador encarnado e tantos outros pela Europa fora não o têm. Quando de facto, o que há é uma imensa confusão na cabeça das pessoas.

Com o acesso à informação verificou-se também uma curiosa tendência crescente de quem está convencido que se o comportamento de uma equipa não é padronizado, não há processo. E de que jogar o Cardozo ou o Messi, a equipa se tem processo tem de ter ambos a fazer as mesmas coisas.

Naturalmente que é uma das coisas mais erradas de se pensar quando se tenta falar sobre o jogo ou sobre o trabalho de um treinador. O que hoje muitos identificam como “processo” é na realidade um mau processo.

Há quem opte por padronizar, naturalmente. E aí é mais fácil identificar o tal “processo”. É tudo igual. Mas não ser padronizado está muito longe de significar não haver processo. Muito pelo contrário até. Não ser padronizado é o melhor processo! Recordo inclusive a maior crítica ao jogar de Jorge Jesus, que em privado quem o derrotou por diversas vezes fez: “Aquilo é sempre igual”.

Padronizar é dizer, independentemente de quem está ou quem não está, nesta situação tu pedes nas costas, tu pedes no pé. É fácil de identificar e adivinhar, e sobretudo limita os jogadores e a equipa. É como pedir ao Cardozo para ir buscar bolas em profundidade porque naquela situação ele tem de o fazer. É condenar ao inêxito. Jogadores diferentes têm sempre de fazer coisas diferentes! Isso é o melhor processo! E não, um não processo. O jogo é dinâmico e os melhores aproveitam o que cada um traz e acrescenta de melhor. Se tenho no mesmo plantel Marcelo e Eliseu, faz sentido pedir o mesmo posicionamento a ambos quando jogam? Isso seria apenas padronizado e sobretudo um MAU PROCESSO.

Sim, padronizar também tem alguns pontos positivos. Sobretudo se tivermos a falar de um nível baixo de tomada de decisão e entendimento do jogo, dar referências e “ordens” ajuda o jogar a decidir, e estando com decisões tomadas anteriormente, a sentir-se mais confortável para executar. A um nível alto, padronizar é coarctar!

Não haver processo é sobretudo recuar alguns anos e perceber que cada um se movia sem sentido, ou com o seu único sentido próprio e não se identificava nada mais para além do sistema táctico. Quando há indicadores como o posicionamento de determinados jogadores na construção, a forma como se pausa o jogo enquanto se espera chegada das opções, porque se sabe que aparecerão, o posicionamento que se explora de determinados jogadores (se tenho Marcelo posso pedir-lhe que se adiante muitos metros, porque vai voltar rápido, mas se for jogar com Eliseu, não quererei que se adiante!). Ou sem bola, linhas definidas, movimentos conjuntos dos defesas seja a subir ou baixar, há processo. E se há dificuldade em entendê-lo, é porque provavelmente é melhor processo do que todos os outros que são padronizados.

Não admira pois que Mourinho afirme que há quem absorva conhecimento mas que de futebol saiba pouco, porque o conhece do google.

 

Paolo Maldini
Sobre Paolo Maldini 2773 artigos
Criador do Lateral Esquerdo, é também professor no Estádio Universitário de Lisboa. Treinador de futebol, tendo almejado diversos titulos nacionais. Experiência como coordenador de futebol formação e palestrante em diversas Faculdades de Desporto. Autor do livro "Construir uma equipa campeã" da editora PrimeBooks.

10 comentários em Não é padronizado não é processo. O mau entendimento do jogo, e o futebol do google.

  1. ” E de que jogar o Cardozo ou o Messi, a equipa se tem processo tem de ter ambos a fazer as mesmas coisas.” Acho que aqui reside a generalidade do problema na análise desportiva em Portugal. Não só em comentadores ditos “generalistas”, que dizem aquilo que as pessoas querem ouvir, mas mesmo nos alegados especialistas. Por exemplo, um especialista andou o ano passado todo a gabar a qualidade colectiva do fcp e a dizer que o slb só ganhava pelas individualidades, quando jogou o ano todo sem jonas e grimaldo.

  2. Óptimo post, ao qual se deveria seguir uma nova leitura da crónica do Nuno Amado sobre o Real de Zidane que tanta pancada levou. Porque no Real de Zidane, o facto de um padrão de jogo (e o dedo do treinador) não ser facilmente identificável não significa que não haja processo. E o jogo de anteontem voltou a provar que o processo está lá.

    • Se entregar aos jogadores a liberdade para fazerem o que quiserem em campo puder ser descrito como “processo”, sim, então o Real tem “processo”. Se aceitarmos que o Casemiro, em ocasiões semelhantes, tem liberdade para dar um apoio recuado ou para entrar entre linhas, sim, os jogadores do Real comportam-se em conformidade com “o dedo do treinador”. O que acho engraçado é que esse mesmo treinador genial, durante mais de um ano, nunca tenha percebido que era dando liberdade aos seus jogadores que teria sucesso. É que o Isco só começou a jogar porque o Bale se lesionou. Assim como acho engraçado que esse processo espectacular que consiste em dar aos jogadores a liberdade para fazerem o que quiserem tenha tido tantas dificuldades contra equipas que, de facto, têm processos bem definidos: Nápoles, Sevilha, Barça, Bayern, Dortmund, Real Sociedad, Sporting. Achar que um jogo contra o Manchester United do Mourinho exemplifica alguma coisa, de resto, é hilariante.

      • Mas quem é que disse que o Zidane é genial como treinador? Consegues apontar uma única pessoa/autor que o tenha feito? Repara que só te estou a pedir um exemplo e não dois nem trinta…

        Entretanto, porque é que te achas no direito ou na presunção de classificar as ideias ou opiniões de outras pessoas como hilariantes ou isto ou aquilo? Não dá para trocar ideias sem adjectivar o outro? E quem é que disse que foi o jogo contra o Mourinho que desmascarou o teu texto, alguém disse isso aqui?

        Tantas palavras gastas e não saímos do mesmo sítio, os teus argumentos são sempre os mesmos, o teu processo é não haver processo ou então é incrível como o génio só conhece um dos livros. Falas do Sevilha do ano passado, presumo, olha, ainda no outro dia estava a ver uma repetição de um jogo deles com um líbero no centro da defesa… Pois é!

        Excelente equipa, sim senhor, pessoalmente gosto muito do Sampaoli, mas também fazia coisas que não me agradavam minimamente: tipo aquela correria desenfreada, a pressa em meter na frente, a pressa em meter em sítios onde não dava para a bola entrar, a pressa em decidir o que fazer. Acabaram a época de rastos fisicamente (associo isto a não controlarem o jogo e os diferentes ritmos), raramente conseguiam controlar o jogo e cometeram a proeza de serem eliminados em dois jogos pelo Leicester do Shakespeare. O Sampaoli não aproveitou nem um bocadinho do Vietto e ainda cometeu a proeza de o trocar pelo Jovetic (bom jogador mas para o meu processo mental prefiro sempre o Vietto). Um crime lesa-pátria, aos meus olhos.

        E agora, quem tem o melhor processo, é o gajo da pila grande ou da pila média ou da pila estrondosa? É mesmo isto que queres discutir?

        Uma coisa é certa e sinto-me perfeitamente à vontade porque não acreditava no Zidane como treinador e porque o Real sempre me pareceu ser um clube onde faziam tudo mal feito: estão a jogar muito.

        Agora mete o processo no hilário que quiseres. E já agora leva também o processo do Luis Enrique, sim, o do Barça, para o lixo porque aquilo era muito fraquinho a todos os níveis. É um bocado como alguns dos teus textos sobre futebol.

  3. Paolo, andas-me a confundir….”Recordo inclusive a maior crítica ao jogar de Jorge Jesus, que em privado quem o derrotou por diversas vezes fez: “Aquilo é sempre igual”.”…justamente o que ando a dizer há alguns tempos, é um jogo automatizado, bem cumprido por jogadores autómatas, do outro lado, e já para não dar o exemplo RV, que isso fere susceptibilidades, dou o exemplo do Real Madrid, há processo, mas dentro do processo entregasse muito do pensar o jogo aos jogadores…
    Agora, RV na 1ª pessoa, apesar de ter dito que não o ia referir, mas é informação que tenho mais à mão :):

    “- Hoje em dia, abordamos cada jogo com uma estratégia montada, mas temos de ter a consciência de que cada jogo, como cada batalha, tem uma vida muito própria. Essa dinâmica que se gera pode ser imprevisível, pode alterar-se, decorridos apenas cinco minutos de jogo.”

    -“Exijo aos meus jogadores que tenham sempre presente essa leitura do jogo, e que trabalhem a criatividade, a liberdade e a autonomia de jogar.”

    “Não quero jogadores mecânicos. Quero jogadores que tenham a capacidade de perceber que o jogo tem vida própria, que sejam capazes de se adaptar e retirar o melhor dessa dinâmica.”

    “Como na arte da guerra, a ideia não é repetir táticas que funcionaram, porque estas seriam demasiado previsíveis e fáceis de contrariar, mas introduzir alguma variabilidade, imprevisibilidade, fluidez no meu sistema tático. Sem perder o rumo, adaptar e mudar o curso do meu jogar às características do jogo e do adversário.”

  4. Excelente artigo, Pedro!

    As pessoas usam conceitos como processo, mas se pedirmos que definam as palavras que usam, por vezes, podem encontrar dificuldades inesperadas nessa definição.

    O processo não é uma ideia platónica dissociada de todas as variáveis concretas dum plantel e dum clube de futebol.

  5. Com o meu reconhecidamente limitado conhecimento futebolístico, sempre achei que a mais recorrente crítica feita a Rui Vitória, é no fundo a sua grande força: ofensivamente entrega muito ao talento individual. Talvez esteja a ver as coisas mal, mas parece-me que é o lado positivo daquilo “que o treinador não pode controlar”, especialmente se pensarmos no técnico adversário. A antítese do “aquilo é sempre igual” que (se não estou em erro) Vitor Pereira chamou ao SLB de JJ. E depois, quem tem o naipe de jogadores ofensivos que Rui Vitória tem na mão, não seria crime lesa futebol autonomizá-los? A palestra correcta do Vitória, deve ser algo como “Varela joga na baliza, Almeida à direita, Luisão e Jardel no meio, Eliseu na esquerda, Fejsa a trinco e Sálvio, Pizzi, Cervi, Jonas e Seferovic vão lá para dentro e marquem golos”.

  6. A crítica ao Rui Vitória, julgo, prende-se mais ao facto da construção não ser a melhor. Há um processo, há posicionamentos sem bola interessantes, mas, no geral, a equipa não consegue desdobrar-se e tornar-se perigosa. O posicionamento dos laterais, do Fejsa e sobretudo do Pizzi é invariavelmente o mesmo, independentemente do adversário ser o Borussia ou Setúbal -curiosamente dois jogos em que os encarnados perderam a época passada. Existe uma clara falta de criatividade quando o oponente decide pressionar alto. E não há, observando a pré-época e o jogo de ontem, novidades no “processo”.

    Em relação à criação, a história muda e acredito que aí Rui Vitória tenha o seu mérito. A equipa, chegando ao último terço, tem mil-e-uma formas de chegar à baliza. Por dentro, por fora, em cruzamentos, em triangulações, na profundidade, existe qualidade. Mas, é justo dizê-lo, ter Jonas, Pizzi, Seferovic e Cervi ajuda, e muito (e ver Rui Vitória, junto à linha lateral, gritar ao lateral do seu lado para esticar na ala, não abona a seu favor).

  7. Não confundam padronizar com JOGAR/IDENTIDADE/IDEIA/FILOSOFIA sff…Eu pessoalmente acho que o real joga o jogar dos seus jogadores…nota se com a entrada do isco…Agora sim jogam a bolacha(já ganhavam,jogar só agora)…como acho que o Nápoles como o Nuno disse e bem joga o jogar do sarri…e o man united joga a o jogar do mou…mou no final do jogo,na premier não existem casemiro modric kroos isco…O mou metia o khedira e deixava o modric no banco…O mou tem o mata,martial…mas joga com fellaini e lindgard?? O real neste momento joga este futebol porque o isco entrou e começou o carrossel….claramente que este não era o futebol do zizou

  8. Boas

    Acho que faz sentido padronizar alguns posicionamentos/movimentos em organizacao ofensiva, nomeadamente no sentido de dar o mais possivel de opcoes ao portador da bola. Pode-se pensar que torna mais previsivel, mas isso so sera um problema se a dinamica for baixa e/ou se o portador for fraco na decisao ou pouco criativo.
    JA defensivamente, faz sentido padronizar posicionamentos/movimentos/comportamentos e parece-me aqui que Jesus e’ muito bom. Apesar de ja’ ter visto melhor que no ultimo ano…

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.


*