Os 3 jogos por semana. A fadiga e o foco. Sobretudo o foco.

Há não muito numa caixa de comentários num texto algures no “Lateral Esquerdo” abordou-se um pouco a sobrecarga de jogos em determinados jogadores, e como tal facto os prejudicava na competição.
Todos, independentemente do clube, estão convictos que as equipas de Jorge Jesus “rebentam” fisicamente com o avançar da época. E tal deriva da má gestão dos onzes que faz subir ao relvado a cada fim de semana.
Na verdade não se trata de nada disso. O acumular de jogos não tem os efeitos que todos pensam ter, relacionados com a fadiga. É tudo uma questão de recuperação. O problema não é fazer 60 jogos num ano. O problema é ter jogos com pouco espaço temporal entre eles. É a ausência de um período mínimo de recuperação que poderá prejudicar fisicamente a equipa ou determinados jogadores. Sendo portanto absolutamente indiferente se o jogador há dois meses atrás somou sete jogos em trinta dias, ou não somou um único minuto.
A questão do “estoiro físico” só se coloca tendo em conta o trabalho semanal, e não o número de períodos de competição (futebol), desde que o período de recuperação esteja assegurado.
Porém, não se sabe bem onde se encaixa a segunda volta da equipa de Jorge Jesus no ano em que se sagrou campeão (apenas 5 pontos perdidos, sendo que 3 foram no Dragão e os outros 2 foram com um penalty desperdiçado no último minuto em Setúbal), venceu a Taça da Liga e chegou aos quartos de final da Liga Europa, com jogos de desgaste enorme contra adversários como Marseille e Liverpool, na teoria do “rebentar” físico dos atletas de Jesus.
Mas parece certo que todas as teorias de internet poderiam ser rebatidas se a equipa técnica do SL Benfica explicasse o que é a creatina quinase, a forma como a usa e sobretudo os dados dos resultados dos testes que realiza para perceber os níveis de fadiga do plantel. Ficaria a saber que os níveis de fadiga do Sálvio depois de um período de recuperação de alguns dias pós competição são inferiores aos de outros com um terço das partidas acumuladas.
Não deixa de ser curioso que estejamos no terceiro mês de 2013 e na única semana em que o SL Benfica não competiu a meio da semana tenha sido a que caiu (empate na Madeira).
Significa portanto que é indiferente competir a meio da semana ou não competir?
Não. Não é indiferente, todavia cumprindo o período de recuperação, a questão não é física. Não é a fadiga. É o foco. É sobretudo o foco. “Na Liga dos campeões não é preciso motivar os jogadores. Quando ouvem o hino até as pernas tremem. Os níveis de adrenalina estão elevados” Jorge Jesus.
A questão não se prende com profissionalismo, ou falta deste. Nem importa repetir dez mil vezes que o foco tem de estar na Liga. Não há nada no futebol que se possa comparar com a Liga dos Campeões. Enquanto em prova, candidato ou não à vitória final, é extremamente complicado orientar o foco para outra competição. E como referiu o treinador do SL Benfica, difícil é regressar ao campeonato depois de um jogo de Liga dos Campeões. 
Curioso que na época transacta depois daquela que foi provavelmente a melhor exibição da época do SL Benfica (jogo em Chelsea) se tenha seguido a provável pior (Sporting). Não foi fadiga. Foi incapacidade mental para centrar toda a concentração na prova nacional.
As próximas semanas poderão ser decisivas a nível nacional. A eliminação do FC Porto frente ao Málaga poderá ser fracturante, basta ler com atenção algumas declarações dos jogadores azuis e brancos. Todavia em duas semanas o foco dos jogadores do Porto estará unicamente na Liga. É sobretudo por isto que o FC Porto segundo Jesus poderá beneficiar de ter saído mais cedo da Europa. Mas não se sabe como será a resposta imediata. 
E beneficiaria internamente o Benfica se tem caído em Bordéus? Não. Nada. A pressão da possibilidade de terminar uma época prometedora sem troféus “grandes” cresceria substancialmente e a Liga Europa jamais retirará o foco a quem já jogou na Liga dos Campeões. Poderá chegar o SL Benfica à semi final, e deverá chegar assim amanhã o sorteio lhe evite duas ou três equipas, que o foco encarnado continuará na Liga nacional.
Paolo Maldini
Sobre Paolo Maldini 3407 artigos
Criador do "Lateral Esquerdo", tendo sido como Treinador Principal, Campeão Nacional Português (2x), vencedor da Taça de Portugal (2x), e da Supertaça de Futebol Feminino, em três anos de futebol feminino. Treinador vencedor do Galardão de Mérito José Maria Pedroto - Treinador do ano para a ANTF (Associação Nacional de Treinadores de Futebol), e nomeado para as Quinas de Ouro (Prémio da Federação Portuguesa de Futebol), como melhor Treinador português no Futebol Feminino. Experiência como Professor de Futebol no Estádio Universitário de Lisboa, palestrante em diversas Universidades de Desporto, e entidades creditadas pelo Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ). Autor do livro "Construir uma Equipa Campeã" da PrimeBooks. Analista de futebol na TV e no Jornal Record.

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